Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Vida & Arte

TENDÊNCIAS

Entre o disco e a música gravada

Marcia Tosta Dias
Especial para O POVO

A nova indústria da música lucrou nos primeiros anos com a regravação em massa de vários discos, mas teve de enfrentar a queda do domínio na produção de discos


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

16/06/2007 17:06

A grande indústria fonográfica, no Brasil e no mundo, seguiu sempre de perto os rumos da industrialização, da modernização. Como ramo específico da chamada indústria cultural, logo cedo revelou um conjunto de características essenciais desse tipo de negócio, que manteve há até pouco tempo. No Brasil, sua produção mais substanciosa se deu a partir dos anos 1930. Por exemplo, Carmen Miranda, antes

Desde então, seguindo moldes que já naquela altura eram globalizados, as grandes companhias fonográficas transnacionais orientaram sua expansão pelo mundo e sua atividade em duas direções principais e complementares: a proposição de inovações técnicas capazes de reproduzir o som com fidelidade cada vez maior (o hardware) e de conteúdos a serem reproduzidos por tais máquinas (o software) que trazem consigo a tarefa de expressar os valores de uma determinada cultura em forma de música. Regra geral, se seguiu a estratégia de trabalhar com artistas/ discos de catálogo, formado por tais expressões da cultura, que sempre vendem discos, mesmo que em menor número e a dos artistas/ discos de sucesso, que reinventam constantemente fórmulas musicais repetitivas e de fácil acesso, que podem vender até milhões de discos.

Em ritmos variados, tais mecanismos integrados foram animando um negócio extremamente lucrativo, mas que, num país como o Brasil, deixava seguindo à margem boa parte da grandiosa fertilidade musical que sempre o caracterizou.

A caminhada foi relativamente lenta até os anos 1970, quando toda indústria cultural brasileira teve grande expansão. A indústria fonográfica, com crescimento exemplar fez o país figurar entre os maiores mercados de discos do mundo, posição que se manteve com variações até o final dos anos 1980. Mas muita coisa mudou.

Hoje é alvo de grande debate a transformação trazida pelas tecnologias digitais para o contexto da produção fonográfica. O deveria ter sido somente mais um melhoramento técnico para as gravações, como outras tantas vistas, se transformou primeiramente, em fonte de lucro fácil para as companhias, com as regravações em CD dos discos registrados em vinil. Mas a mesma popularização da tecnologia, que permitiu esse primeiro retorno lucrativo, trouxe consigo uma bomba: a indústria fonográfica mundial não poderia mais manter o seu poder pelo domínio fechado sobre a produção de discos. A questão foi aos poucos promovendo uma crise sem precedentes na história desse ramo da indústria cultural, com grande queda nos lucros e baixa nos investimentos.

A tecnologia digital é fluida, dispersa, é de todo mundo e não é de ninguém; está em todo o lugar e ao mesmo tempo em lugar nenhum. Por isso a luta contra a pirataria - a principal causa da queda nos lucros e na produção - é tão difícil. A própria noção de pirataria está em xeque, pois uma vez considerada crime, coloca uma grande parcela dos cidadãos do mundo em maus lençóis, se tomarmos como referência o crescimento vertiginoso do número de downloads hoje praticados.

Por outro lado, os músicos se aproximaram dos meios de registro de suas obras, com liberdade estética e técnica, como nunca se pôde pensar. Há uma produção altamente substanciosa circulando via difusão digital, estimulando inclusive o circuito de apresentações ao vivo, apesar do forte gargalo operado pela grande mídia.

Mas a questão deve ser posta: qual o papel das grandes gravadoras no panorama atual, vão elas desaparecer ou voltarão triunfantes ao seu posto de liderança depois de alguma estratégia inovadora?

Penso que há uma tendência prospectiva de desaparecimento desse tipo de business; aliás nunca a dimensão de business teve tanta evidência, considerando que a aura de difusores de cultura sempre a enevoou. Já nos anos 90 quando as companhias fonográficas passaram por grande reestruturação, elas próprias se entendiam como escritórios de gerenciamento e marketing de produtos musicais.

Mas vejo duas outras questões como as mais inquietantes do panorama. A primeira aponta para a forma como a indústria fonográfica tem se apropriado das tecnologias de difusão musical altamente sofisticadas produzidas por provedores ilegais (Napster, Kazza, etc). A partir de processos judiciais, as companhias legalizam o que até então era "pirata", e fica tudo certo. A segunda, aponta para o iminente fim do álbum, do disco, como formato primordial das obras fonográficas, considerando o acesso, legal ou não, às faixas isoladas, às "músicas" descoladas do todo que um dia integraram verdadeiras obras de arte. Temos agora música gravada e não mais simplesmente discos. Então finalmente podemos deixar um pouco de lado a dimensão do business: esse é um problema dos rumos de nossa cultura produção musical substanciosa que precisa chegar ao ouvinte. É preciso refletir sobre o sentido da música que fazemos e daquela que queremos.

Marcia Tosta Dias é socióloga e autora do livro Boitempo Editorial.

Leia mais sobre esse assunto


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato