11/06/2007 02:34

O POVO - Qual foi o primeiro contato de vocês com o Romance d´A Pedra do Reino... E como foi adaptar o romance para a televisão?
Braulio Tavares - Eu li o livro em 1972. Tinha voltado à Paraíba depois de estudar cinema por dois anos em Belo Horizonte, na Universidade Católica. Em BH tomei conhecimento do Movimento Armorial, que me despertou para a importância do cordel, da cantoria de viola, da cultura popular. Desde então, reli o livro algumas vezes, mas confesso que só consegui ter uma visão de conjunto nítida depois de trabalhar neste roteiro. Até então, a Pedra era uma dúzia de episódios concatenados mas aleatórios. Acho que é essa impressão que a maioria dos leitores tem. Também foi importantíssimo, no processo, reler O Rei Degolado e ler pela primeira vez As Infâncias de Quaderna, publicado apenas em folhetim de jornal, dos quais Ariano nos forneceu cópias xerox.
Luís Alberto Abreu - Foi um grande desafio. Ariano é um dos grandes escritores que, ao lado de Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, forma a melhor base da moderna literatura brasileira. Além disso, tem características únicas: é fino, erudito, popular, complexo. Ele mergulha num espectro de gêneros que vai da farsa ao trágico, o que torna a adaptação de sua obra, para qualquer outra linguagem, um trabalho atento e redobrado no sentido de não perder a integridade. Penso que minha pesquisa com a cultura popular e as duas séries de Hoje é dia de Maria que fiz com o Luiz Fernando Carvalho foram importantes para encarar esse imenso desafio.
OP - Como foi o processo de elaborar o roteiro?
Braulio Tavares - Luiz Fernando me convocou em novembro de 2005, quando começaram as negociações para adaptar o livro. De dezembro de 2005 até março de 2006 trabalhei sozinho, relendo, anotando, levantando cronologia, locações, personagens etc, ou seja, "fichando" o livro do começo ao fim. Em abril de 2006, entrou Luís Alberto Abreu para ajudar na adaptação. Eu, ele e Luiz Fernando Carvalho passamos 12 dias juntos na fazenda Carnaúba, em Taperoá, olhando as locações, conversando com Ariano, e fizemos uma visita à Pedra do Reino, em Belmonte. De abril a outubro fizemos várias versões do roteiro, eu no Rio, Abreu em seu sítio no interior de SP, e LFC vendo tudo por e-mail e dando as coordenadas. Entre setembro e outubro ficou definido que não haveria outras locações, seria tudo rodado em Taperoá. Abreu e LFC passaram algumas semanas em Taperoá adaptando o roteiro para sua versão final. Eu não assisti às gravações em Taperoá, fiquei no Rio, ajudando (com textos) na criação do websaite da Pedra, que pode ser acessado em: www.quadrante.globo.com.
Luís Alberto Abreu - Já conhecia o trabalho de Ariano em teatro, tanto que em meu começo de carreira de ator amador, nos anos 1970, já havia encenado uma de suas peças: O Casamento Suspeitoso. Logo que o Romance d'A Pedra do Reino foi publicado, no começo dos anos 70, eu o li e me deslumbrei com a riqueza imagética e de pensamento da obra, tão importante na minha formação que há 12 anos mantenho, em São Paulo, um projeto de pesquisa da comédia popular brasileira, já com 14 peças encenadas, e que é uma influência, uma homenagem e uma retomada do caminho aberto pela comédia popular de Ariano Suassuna. No princípio trabalhamos eu e o Braulio e o Luiz Fernando ficou na supervisão, propondo caminhos de narrativa. Ao final do processo, ele agregou-se fortemente ao trabalho de construção do roteiro e, juntos, chegamos à versão final.
OP - Um testemunho sobre a figura do homem e do artista Ariano Suassuna.
Braulio Tavares - Ariano tem uma teoria do Brasil, uma visão de conjunto do Brasil, uma interpretação do Brasil. Muita gente questiona seu modo de ver, mas ninguém pode negar que esse modo-de-ver existe. A maioria dos escritores brasileiros, principalmente os de temática urbana, são regionalistas: escrevem sobre seu bairro, sua praia. Ou então, como eu, escrevem ficção científica. Não digo isso menosprezando o trabalho desses escritores, porque o que faz a grandeza do escritor é o que ele diz, e não o tema que aborda. Mas o Brasil precisa também de escritores que queiram, como Ariano, pensar o Brasil, teorizar o Brasil, e fazer isso sem o vezo sociológico ou ideológico, fazer através dos olhos da poesia, da imaginação. Ariano imagina o Brasil através do teatro, da poesia, do desenho, do romance, do ensaio. Pode-se discordar das suas idéias, mas não se pode negar a importância da sua obra, a qual transcende o Nordeste e o Sertão, tal como já ocorrera com a obra de Guimarães Rosa ou de João Cabral.
Luís A. Abreu - Em minhas quatro estadas em Taperoá amealhei uma riqueza sem tamanho. Primeiro por visitar e conhecer os lugares reais que Ariano tomou como base para a ação de seu romance. Depois, o contato com a beleza áspera da região de que tanto fala a obra de Ariano. Finalmente, por ter entrado em contato direto com a cultura popular nordestina, convivido com atores e artesãos, ter tido a oportunidade não só de finalizar o roteiro no local mas ter visto meu trabalho começar a ganhar forma concreta na construção dos cenários, figurinos, objetos de cena e trabalho dos atores. Foi uma experiência que acrescentou muito ao meu trabalho e que tão cedo não vou esquecer.
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