Vida & Arte
LANÇAMENTO
Amós Oz e o deserto
Novo livro do escritor israelense Amós Oz, é lançado no Brasil pela Companhia das Letras. O deserto banhado de solidão e memória tece a narrativa de Oz
Manoel Ricardo de Lima
Especial para O POVO
09 Jun 2007 - 03h40min
Ao visitar a então Palestina, em 1867, Mark Twain, num seu livro "uma tragédia, no sentido antigo e mais preciso da palavra tragédia: um choque entre certo e certo, entre uma reivindicação muito poderosa, muito profunda, muito convincente, e uma outra reivindicação muito diferente, mas não menos convincente, não menos poderosa, não menos humana."
O deserto de Neguev é também, segundo a Torá, o cenário no qual o homem encontrou Deus e encontrou-se com Deus. É lá que Abraão se comunica com o Senhor e que também, séculos mais tardes, Elias, o profeta, se dirige à Montanha para um encontro com o Criador. Durante muitos séculos este deserto foi uma região de passagem aos beduínos que, lentamente, foram trocando a vida nômade pelo assentamento, quando surgem as pequenas vilas. David Ben-Gurion (que hoje dá nome a universidade onde Amós Oz dá aulas de literatura hebraica), fundador do Estado de Israel, disse que o Neguev representava o futuro de Israel. Hoje, esta é uma região praticamente urbana nos seus cerca de 13 mil km, quase 60% do território do país. Com um formato interessante, a de um triângulo invertido, estica as suas fronteiras à Península do Sinai e ao Wadi Aravá, ao Egito e à Jordânia.
As narrativas de Amós Oz, como uma linha que tende ao infinito, são a fulguração do deserto e, muito, do deserto onde vive, este lugar de conflito e da tragédia que aponta, o Neguev. E esta percepção do deserto é uma possibilidade de tocar a história em sua ficção, o deserto não apenas como região, mas como lugar afetivo construído pela literatura para uma violência: uma contra-violência numa hiper-radicalidade que pode remeter à frase de Walter Benjamin, em um texto de 1920/21, "Para a crítica da violência", quando tinha 28 anos: "a resolução não violenta dos conflitos só é possível na medida em que não se exclua, de antemão, a violência." Assim, deslocar a posição da palavra, como profecia, a tal palavra profética, para uma outra, como faz Amós Oz, não é em nenhum momento provocar o apagamento de suas fulgurações, mas ampliar o enlace. O seu último livro publicado no Brasil, pela Cia das Letras, toca insistentemente, mais uma vez, esta questão. O bosque, nesta encantadora narrativa quase-fábula, é o desvio do deserto, como palavra e como afecção, e aparece como uma paisagem de proibição, uma doença punitiva, um vazio: a um lado, a outro, a qualquer lado.
Esse livro de Amós Oz diz de uma pequena aldeia sem animais, todos foram embora; o que há deles é apenas a memória aflitiva que existe como uma pontuação da loucura nos habitantes da tal aldeia. A professora Emanuela que resiste em desenhar e contar dos bichos ao seus alunos que acreditam que estes seres que ela apresenta desenhando não passam de fantasmagorias trazidas por sua solidão. Almon, o pescador, cultiva um pomar porque não há mais peixes, e afirma sempre: teve um cão, Zito. Solina, a costureira; Lília, a padeira; Guinom, que vive no fundo de sua doença do esquecimento; Danir, o consertador de telhados; Nimi, que virou potro e pegou a doença do relincho para experimentar não ser e assim experimentar de fato a liberdade; e Nehi, o demônio do bosque; e Mati e Maia, as crianças que tomam senso para enfrentar o bosque, e que são o verdadeiro encantamento da diferença proposta pela narrativa de Amós: "Por causa do segredo, e também por culpa da gozação de que eram alvo, Maia e Mati se sentiam muito próximos um do outro e igualmente isolados, os dois, porque se o segredo fosse conhecido pelos outros, a zombaria seria muito pior, as provocações e piadinhas duplicadas. Pois todo aquele que de alguma forma não está disposto a se adaptar e a ser como nós, então é porque adoeceu de relincho, ou de uivo, ou do que quer que seja, e que não se atreva a se aproximar de nós, que guarde distância, por favor, que não nos contamine."
Na aldeia, quem se lembra dos animais é alvo de deboche, quem se cala, se cala, diz Amós. Nehi se pergunta se vale a pena voltar a aldeia, viver ali para se contaminar do deboche e do desprezo: a alegria da volta dos bichos pode ser também o recomeço de seus sofrimentos. Amós propõe, como utopia simples, uma mudança nas almas. "É preciso contar a todos", diz Mati a Maia. E Amós termina a narrativa com uma simples palavra, numa fala de Mati, apontando para um quando começarão a contar a descoberta do bosque: "Amanhã." Esta palavra profética é também, em todo o trabalho literário de Amós Oz, uma reivindicação muito poderosa, muito profunda e quase muito convincente: amanhã.
Manoel Ricardo de Lima é escritor. Professor de Literatura Portuguesa, UFSC. Autor de Entre Percurso e Vanguarda (Annablume), entre outros. Escreve quinzenalmente neste espaço.
SERVIÇO
De Repente, nas Profundezas do Bosque, de Amós Oz. Tradução: Tova Sender.
Cia. das Letras, 144 páginas, R$ 31,00
O deserto de Neguev é também, segundo a Torá, o cenário no qual o homem encontrou Deus e encontrou-se com Deus. É lá que Abraão se comunica com o Senhor e que também, séculos mais tardes, Elias, o profeta, se dirige à Montanha para um encontro com o Criador. Durante muitos séculos este deserto foi uma região de passagem aos beduínos que, lentamente, foram trocando a vida nômade pelo assentamento, quando surgem as pequenas vilas. David Ben-Gurion (que hoje dá nome a universidade onde Amós Oz dá aulas de literatura hebraica), fundador do Estado de Israel, disse que o Neguev representava o futuro de Israel. Hoje, esta é uma região praticamente urbana nos seus cerca de 13 mil km, quase 60% do território do país. Com um formato interessante, a de um triângulo invertido, estica as suas fronteiras à Península do Sinai e ao Wadi Aravá, ao Egito e à Jordânia.
As narrativas de Amós Oz, como uma linha que tende ao infinito, são a fulguração do deserto e, muito, do deserto onde vive, este lugar de conflito e da tragédia que aponta, o Neguev. E esta percepção do deserto é uma possibilidade de tocar a história em sua ficção, o deserto não apenas como região, mas como lugar afetivo construído pela literatura para uma violência: uma contra-violência numa hiper-radicalidade que pode remeter à frase de Walter Benjamin, em um texto de 1920/21, "Para a crítica da violência", quando tinha 28 anos: "a resolução não violenta dos conflitos só é possível na medida em que não se exclua, de antemão, a violência." Assim, deslocar a posição da palavra, como profecia, a tal palavra profética, para uma outra, como faz Amós Oz, não é em nenhum momento provocar o apagamento de suas fulgurações, mas ampliar o enlace. O seu último livro publicado no Brasil, pela Cia das Letras, toca insistentemente, mais uma vez, esta questão. O bosque, nesta encantadora narrativa quase-fábula, é o desvio do deserto, como palavra e como afecção, e aparece como uma paisagem de proibição, uma doença punitiva, um vazio: a um lado, a outro, a qualquer lado.
Esse livro de Amós Oz diz de uma pequena aldeia sem animais, todos foram embora; o que há deles é apenas a memória aflitiva que existe como uma pontuação da loucura nos habitantes da tal aldeia. A professora Emanuela que resiste em desenhar e contar dos bichos ao seus alunos que acreditam que estes seres que ela apresenta desenhando não passam de fantasmagorias trazidas por sua solidão. Almon, o pescador, cultiva um pomar porque não há mais peixes, e afirma sempre: teve um cão, Zito. Solina, a costureira; Lília, a padeira; Guinom, que vive no fundo de sua doença do esquecimento; Danir, o consertador de telhados; Nimi, que virou potro e pegou a doença do relincho para experimentar não ser e assim experimentar de fato a liberdade; e Nehi, o demônio do bosque; e Mati e Maia, as crianças que tomam senso para enfrentar o bosque, e que são o verdadeiro encantamento da diferença proposta pela narrativa de Amós: "Por causa do segredo, e também por culpa da gozação de que eram alvo, Maia e Mati se sentiam muito próximos um do outro e igualmente isolados, os dois, porque se o segredo fosse conhecido pelos outros, a zombaria seria muito pior, as provocações e piadinhas duplicadas. Pois todo aquele que de alguma forma não está disposto a se adaptar e a ser como nós, então é porque adoeceu de relincho, ou de uivo, ou do que quer que seja, e que não se atreva a se aproximar de nós, que guarde distância, por favor, que não nos contamine."
Na aldeia, quem se lembra dos animais é alvo de deboche, quem se cala, se cala, diz Amós. Nehi se pergunta se vale a pena voltar a aldeia, viver ali para se contaminar do deboche e do desprezo: a alegria da volta dos bichos pode ser também o recomeço de seus sofrimentos. Amós propõe, como utopia simples, uma mudança nas almas. "É preciso contar a todos", diz Mati a Maia. E Amós termina a narrativa com uma simples palavra, numa fala de Mati, apontando para um quando começarão a contar a descoberta do bosque: "Amanhã." Esta palavra profética é também, em todo o trabalho literário de Amós Oz, uma reivindicação muito poderosa, muito profunda e quase muito convincente: amanhã.
Manoel Ricardo de Lima é escritor. Professor de Literatura Portuguesa, UFSC. Autor de Entre Percurso e Vanguarda (Annablume), entre outros. Escreve quinzenalmente neste espaço.
SERVIÇO
De Repente, nas Profundezas do Bosque, de Amós Oz. Tradução: Tova Sender.
Cia. das Letras, 144 páginas, R$ 31,00
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