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HISTÓRIA BRASILEIRA/ENTREVISTA

Herança maldita

Historiador e professor da Unesp, Paulo Henrique Martinez, afirma que a corrupção é uma herança do processo colonial brasileiro


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09/06/2007 14:33

O paulistano Caio Prado Júnior (1907-1990) tem seu pensamento revisto no ano de seu centenário(Foto: ARQUIVO/AE)
O paulistano Caio Prado Júnior (1907-1990) tem seu pensamento revisto no ano de seu centenário(Foto: ARQUIVO/AE)

"Quando apareces na madrugada,/ mal embrulhada na larga roupa/ e desgrenhada,/ sem fita ou flor;/ ah! que então brilha a natureza!/ Então se mostra tua beleza inda maior./ Fito os olhos na janela/ aonde, Marília bela,/ tu chegas ao fim ao dia."


Que semelhanças existem entre o Brasil do poeta Tomás Antônio Gonzaga, autor desses versos líricos que compõem o poema Marília de Dirceu, no século XVIII, e o de hoje? Muito mais do que se supõe. O processo de industrialização, de abertura de mercados e de urbanização não pôs fim às estruturas sociais que se firmaram no País desde antes de Marília, e que foram se consolidando depois dela, até se embrutecerem na atualidade. "As condições de vida e de trabalho dos cortadores de cana, seja em São Paulo ou no Nordeste, são como 'cenas vivas do passado´", afirma o historiador e professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Paulo Henrique Martinez, em entrevista, por e-mail, ao O POVO. Ele é um dos convidados do seminário Caio Prado Júnior - História e Historiografia ou o legado de um saber-fazer histórico, que acontecerá de terça (12) a quinta-feira (14), no Auditório Castello Branco, na Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC). O evento discutirá a vida e a obra de um dos mais importantes pensadores brasileiros.

Para Martinez "a pobreza, a marginalização e a violência, a destruição dos recursos naturais, a negligência dos governos e a insensibilidade social das camadas média e alta da nossa sociedade são características que se reproduzem secularmente no Brasil", afirma, atualizando o pensamento de Caio Prado Júnior que defendia traços perenes do colonialismo na sociedade brasileira na atualidade. Um desses traços é justamente a corrupção embrenhada em vários segmentos das instituições. "Seja no Judiciário, com a venda de sentenças, no Legislativo e no Executivo, com propinas e obras superfaturadas, a corrupção alimenta e oculta estruturas de poder econômico e político que asseguram a reprodução do quadro de desigualdades sociais, regionais e étnicas no país. Este padrão de acumulação de capital é tipicamente colonial e altamente eficaz, razão pela qual ele se perpetuou e segue em expansão. Isto explica a sua presença tão ostensiva no cotidiano político nacional", afirma.

São esses reflexos do passado, no espelho do presente, que se tornaram uma das principais interpretações do País construídas pela historiador Caio Prado Júnior que completaria 100 anos em fevereiro último. Filho da elite econômica brasileira, com quem, de alguma forma, passou a vida inteira em conflito, Caio Prado, propôs uma nova leitura para o País ao inserir o método dialético de Marx para interpretar a formação social, econômica e política nacional.

Apesar da militância política, o historiador Caio Prado Júnior manteve uma independência política que, se por um lado causou incômodo no meio intelectual, por outro, tornou mais rico o debate nacional. De acordo com Paulo Martinez, seu trabalho e postura influenciaram uma geração de historiadores e cientistas sociais que surgiu a partir dos anos 60. (Regina Ribeiro)


O POVO - Eu queria começar falando sobre a vida do pensador Caio Prado Júnior. Ele foi um menino rico, legítimo integrante da classe burguesa que se tornou um pensador do "proletariado nacional", com toda a sua complexidade. O que o senhor considera que estimulou o historiador para esse caminho?
Paulo Henrique Martinez - Há dois aspectos. Em primeiro lugar, a sua militância política antes da adesão ao movimento comunista e ao marxismo. Foi um período de três anos de militância, desde 1928, no Partido Democrático, crítico do regime republicano, depois na Aliança Liberal, que apoiou a candidatura de Getúlio Vargas à presidência da República, a participação no movimento armado de 1930 e no governo provisório chefiado por Vargas. As desilusões políticas com esta experiência política, de cunho liberal e dentro de sua classe social de origem, foram depuradas com a entrada no Partido Comunista, em 1931. Em segundo lugar, é preciso lembrar que o reconhecimento público e o prestígio intelectual de suas interpretações do país, mesmo no interior do movimento comunista e da esquerda brasileira, como intelectual marxista ocorreram a partir da década de 1960. O que estimulou a passagem de uma posição política para outra foi a dinâmica social do Brasil, que reproduziu, e segue reproduzindo, mazelas como a concentração de renda, autoritarismo político, destruição do capital natural, violência e pobreza.

OP - O que significou para a intelectualidade da época o pioneirismo da interpretação da realidade brasileira baseada no método marxista?
Paulo Martinez - Em termos intelectuais significou que o país havia adquirido feições de organização social e de produção econômica típicas da sociedade de classes. Portanto, esta nova configuração demandava categorias explicativas e analíticas mais rigorosas e precisas. As teorias sociológicas, políticas e do conhecimento histórico em voga nas décadas de 1920 e 1930 foram mobilizadas pelos nossos intelectuais, nesse momento, para explicar a trajetória passada e o tempo presente no Brasil. Um grande número dessas teorias, não só o marxismo, foi experimentado pelos pensadores nacionais, com variações do positivismo, da sociologia francesa e norte-americana, da historiografia francesa, da geografia alemã ou da teoria política italiana, entre outras.

OP - A geração de intelectuais que surgiu plenamente identificada com o marxismo no Brasil nos anos 60 teve alguma inspiração dele?
Paulo Martinez - Sim, bastante. No Brasil dos anos 60 houve uma frenética reacomodação intelectual. Estas mudanças foram traduzidas pela busca de conhecimento e inspiração em novas experiências sociais, como a revolução cubana e a chinesa, as rebeliões contra o colonialismo europeu na África, a crítica da conduta opressiva da União Soviética sobre os países do leste europeu, como a Hungria e a Tchecoslováquia, os movimentos de 1968, o militarismo e o imperialismo na guerra do Vietnã. A crítica de Caio Prado Júnior aos rumos políticos da esquerda no Brasil, sobretudo do PCB, com a publicação de A revolução Brasileira, em 1966, inscreve-se neste contexto de revisão e readequação dos projetos políticos ao mundo que emergiu da Segunda Guerra. O balanço que fez da trajetória do movimento comunista no Brasil colocou em evidência as obras que publicara em anos anteriores e que passaram a ser largamente reeditadas até a década de 1980.

OP - Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre, Antônio Cândido, Sérgio Buarque Holanda deram aos brasileiros uma interpretação de Brasil que até hoje é a nossa referência. O que une e separa esses pensadores?
Paulo Martinez - O que os une, e poderíamos agregar outros nomes, como Celso Furtado, Florestan Fernandes e Raymundo Faoro, por exemplo, é o fato de construírem interpretações gerais da sociedade brasileira, um exercício de formulação, adaptação e aplicação de grandes teorias sociológicas, econômicas, antropológicas, políticas e históricas. Há também muitas diferenças entre eles, de cunho analítico, de abordagem, de períodos da história que estudam. Caio Prado, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre estavam muito atentos ao passado colonial. A geração seguinte, Celso Furtado, Antonio Candido e Florestan Fernandes foram marcados pela ditadura do Estado Novo e pelo desenvolvimentismo industrializante na América Latina e no Brasil. Também havia diferenças políticas consideráveis. Gilberto Freyre foi simpático às ditaduras de Salazar, em Portugal, e a dos militares no Brasil. Caio Prado foi militante comunista, enquanto Antonio Candido e Florestan Fernandes aderiram ao PT.

OP - A idéia de homem cordial, de Sérgio Buarque de Holanda, se contrapõe à interpretação de classes do Caio Prado Jr. Como eles dialogavam entre si sobre as idéias um do outro?
Paulo Martinez - Não há um debate público e especifico que permita uma avaliação como essa. É possível e desejável, sim, análises comparativas, como as reconstituições e interpretações que formularam sobre o passado colonial ou a transição política para os regimes monárquico e republicano. Os estudos das dinâmicas da ocupação territorial também possibilitam comparações e complementaridades. Por exemplo, em O extremo oeste, Sérgio Buarque de Holanda recorre a Caio Prado Júnior para repensar a ocupação do interior da América do Sul por portugueses e espanhóis. Eu diria que, mesmo em momentos e com abordagens distintas, a leitura das suas obras é antes complementar do que divergente. Ambos procuraram com a pesquisa histórica conhecer as bases do autoritarismo político e da dominação social no Brasil. Por caminhos, fontes e perspectivas teóricas diferentes, ainda que politicamente estivessem próximos.

OP - Caio Prado Júnior fazia uma interligação indistinta entre o presente e o passado tornando atual a idéia formação nacional. A noção de uma história brasileira como um processo é um legado do autor?
Paulo Martinez - Não acho que seja deste ou de qualquer outro autor, especificamente, mas do método de análise do passado em questão, no caso, o materialismo histórico. Há outros intelectuais que recorreram aos mesmos métodos de pesquisa e análise, obtendo maior ou menor sucesso analítico. Bastaria lembrar Nélson Werneck Sodré, Manuel Correia de Andrade, Mário Pedrosa, Jacob Gorender e, sobretudo, Fernando Novais. Não há dúvida, porém, de que a obra de Caio Prado apresenta traços de maior perenidade e de argúcia analítica. Estando mais próximo a ele, em termos teóricos, a interpretação de Fernando Novais também demonstra aspectos de grande vitalidade, como ao sublinhar os vínculos que ataram a dinâmica sócio-econômica brasileira ao conjunto do capitalismo.

OP - Euclides da Cunha denunciou a nova República brasileira no início no Século XX. Em meados do mesmo século, Caio Prado Júnior vai buscar as raízes das imensas desigualdades do País e afirma que o Brasil vive, em alguns aspectos sociais, num atraso colonial. O senhor acha que o historiador faria uma revisão dessa constatação hoje?
Paulo Martinez - Acredito que não. Pelo menos não o fez até 1977, ano em que escreveu um longo comentário, publicado em anexo ao livro A revolução brasileira, um de seus últimos textos analíticos. O elemento colonial que não teria sido superado era a organização estrutural da produção econômica e as relações que engendrava ao orientar-se predominantemente para o mercado exterior. Esta estrutura demanda, sim, uma organização produtiva destinada ao mercado interno, e ela existiu. O próprio Caio Prado Júnior apontou e a mapeia, ou seja, localiza no espaço colonial, lugares em ela se estabeleceu e adquiriu expressão econômica, como em Minas Gerais. As condições de vida e de trabalho dos cortadores de cana, seja em São Paulo ou no Nordeste, são como "cenas vivas do passado". A pobreza, a marginalização e a violência, a destruição dos recursos naturais, a negligência dos governos e a insensibilidade social das camadas média e alta da nossa sociedade são características que se reproduzem secularmente no Brasil.

OP - Ele dizia ainda que os problemas brasileiros estavam postos há mais de 100 anos e que "inutilmente" o Brasil buscava saída, entre elas, para as desigualdades sociais crônicas. Como a corrupção é mãe e criada da pobreza, o senhor considera que esse aspecto nacional torna o Brasil um crônico projeto de nação "inacabado"?
Paulo Martinez - Não acredito. A corrupção é parte de um processo de acumulação de capital que se realiza por intermédio de órgãos estatais e com a atuação destes. Seja no Judiciário, com a venda de sentenças, no Legislativo e no Executivo, com propinas e obras superfaturadas, a corrupção alimenta e oculta estruturas de poder econômico e político que asseguram a reprodução do quadro de desigualdades sociais, regionais e étnicas no país. A população e o patrimônio público são esbulhados pelo lucro rápido, fácil e volumoso. Este padrão de acumulação de capital é tipicamente colonial e altamente eficaz, razão pela qual ele se perpetuou e segue em expansão. Isto explica a sua presença tão ostensiva no cotidiano político nacional. Um tema caiopradiano da nossa história, sem dúvida alguma. Uma organização social renovada, atenta às necessidades reais da população, da vida urbana sustentável, e da expansão da atividade econômica, terá, inevitavelmente, que distribuir renda e disciplinar as formas de sua geração e apropriação.

OP - Caio Prado Júnior trabalha com a idéia de uma história total, mesmo quando analisa uma parte. Fala de uma linha mestra que persegue o contexto histórico. Como esse método é analisado hoje, tendo em vista o vigor da obra do historiador?
Paulo Martinez - Esta interpretação foi muito marcante entre as décadas de 60 e 80. Outras contribuições empíricas e teóricas foram sendo elaboradas, ao longo deste período, pela própria dinâmica nos meios intelectuais brasileiros, como a expansão dos programas de pós-graduação em Ciências Humanas, incrementando a pesquisa histórica sobre o Brasil do século XIX, da colonização, da vida republicana, além do crescimento do mercado editorial brasileiro, com muitas edições, reedições e traduções. A obra de Caio Prado tem algumas fontes que alimentam esse vigor: 1) a dimensão da pesquisa, ainda que realizada, predominantemente, a partir de fontes secundárias e oficiais; 2) os temas abordados, como o Estado nacional, as relações sociais de produção e a dominação política, a condição do Brasil diante dos demais países, ou seja, temas atuais e recorrentes; 3) a interpretação crítica de problemas sociais graves e longevos, como as desigualdades sociais, a pequena participação política das camadas populares, a destruição do patrimônio natural ou o desequilíbrio social na distribuição dos resultados do crescimento econômico como traços característicos de nossa história.

OP - Por que o historiador, editor, intelectual brasileiro passou um tempo esquecido nas universidades brasileiras?
Paulo Martinez - Hoje as suas interpretações concorrem com as de muitos outros autores de destaque e sobra pouco espaço para uma leitura mais sistemática e o debate mais pausado de suas idéias, mas elas são necessárias. Na última década, suas obras continuaram sendo reeditadas e ainda quando seus temas tenham perdido poder de atração para a pesquisa, particularmente entre as gerações mais jovens, não se pode entender o século XX, no Brasil, e a sua história intelectual e política sem conhecer a obra de Caio Prado Júnior. É necessária a edição crítica de seus principais livros, a publicação de sua correspondência e a reunião de artigos em jornais e revistas. Também a sua atividade como editor, durante mais de 30 anos, mereceria ser mais bem estudada.


SERVIÇO
Caio Prado Júnior - História e Histografia ou legado de um saber-fazer histórico - Seminário sobre a obra do pensador paulista. De 12 a 14 (terça a quinta-feira) no auditório da Reitoria da UFC, com início às 9h. Inscrições gratuitas no Nudoc, que funciona no prédio no Departamento de História, da UFC, na avenida 13 de
Maio. Informações: 3366.7741.


PROGRAMAÇÃO

Terça, 12/6
HISTORIADOR E A OBRA - 9h-12h
Conferência: Silva Dias (PUC-SP)
Conferência: com Paulo Teixeria Iumatti (IEB-USP). Mediador: Almir Leal de Oliveira (UFC)

Quarta, 13/6
MARXISMO À BRASILEIRA - 9h-12h
Conferência: com Bernardo Ricupero (USP)
Conferência: Caio Prado com Márcia B. Mansur D´Álessio (PUC-SP). Mediador: Frederico de Castro Neves (UFC)

Quinta, 14/6
O INTELECTUAL E SEU TEMPO - 9h-12h
Conferência: com Paulo Henrique Martinez (UNESP-Assis)
Conferência: Caio Prado Júnior, com Adelaide Maria Gonçalves Pereira (UFC). Mediador: Antonio Gilberto Ramos Nogueira (UFC)

Auditório Castello Branco, na Reitoria da Universidade Federal do Ceará (Avenida da Universidade, 2853 - Benfica).


Estante básica de Caio Prado Júnior

Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior
Esse livro teve primeira edição publicada em 1942 e nele o autor analisa as raízes da sociedade brasileira a partir da colonização do País. Editora Brasiliense. R$ 63,00

História Econômica do Brasil, de Caio Prado Júnior
Lançado em 1933, a obra apresenta, do ponto de vista marxista, as características
estruturais da sociedade brasileira. Editora
Brasiliense. R$ 60,50

A Revolução Brasileira. Perspectivas em 1977, de Caio Prado Júnior.
A primeira edição do livro saiu em 1966. Em 77, sai em nova versão
com uma atualização do autor.
O livro analisa os partidos
de esquerda no Brasil.
Editora Brasiliense. R$ 44,00

Sobre Caio Prado Jr.

Diários Políticos de Caio Prado Júnior, de Paulo Teixeira Iumatti.
Nesse livro, o historiador Paulo Iumatti publica os diários de Caio Prado Júnior sobre o ano de 1945. Editora Brasiliense. R$ 40,60

Caio Prado Jr. e a Nacionalização do Marxismo no Brasil, de Bernardo Ricupero
O livro mostra como Caio Prado Júnior utilizou o método dialético marxista para analisar a sociedade brasileira.Editora 34. Só em sebos.


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