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Vida & Arte

Cadê a manteiga?

Natália Paiva
da Redação


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08/06/2007 01:36

Em Baixio das Bestas, quatro agroboys liderados pelas personagens de Caio Blat (Cícero) e Matheus Nachtergaele (Everardo) usam o espaço de um cinema pornô abandonado como ponto de encontro. O cinema-espaço é o local-mor das perversões de uma classe média bêbada e chapada, que se masturba frente às imagens em movimento ou ferra (para não usar verbo mais apropriado) as classes subalternas (estupra as prostitutas da região, entre máximas como "a pobreza é que nem o câncer"). Lá pelas tantas, Everardo - evidente alter ego do realizador - olha para a câmera (para o espectador) e solta: "Sabe o que é o melhor do cinema? É que no cinema tu pode fazer o que tu quer". Essa reflexão diz respeito, claro, à falta de limites tanto do cinema como local da projeção quanto do cinema como linguagem. Se a primeira instância diz respeito mais à diegese em si, a segunda extrapola: trata-se de uma visão de mundo e de cinema do realizador. Everardo tem desprezo pela humanidade e exerce com sadismo sua superioridade. É um perverso que parece ter lido Nietzsche e Dostoievski saltando as páginas, para depois vomitar idéias do século XIX sobre os limites da ação humana. Da mesma forma parece agir o realizador: a falta de limites - o respeito ao ser humano como um possível "limite" - é de quem? Das bestas da Zona da Mata pernambucana ou do realizador que exerce de todo modo sua superioridade?

É nessa confusão onde reside boa parte dos problemas de Baixio das Bestas. A perversão do desejo e a violência do corpo interessam a Cláudio Assis como dado cultural construído e observado narrativamente (problematizar personagens e situações de aviltamento); ou, despojadas de qualquer vitalidade para além do quadro, são próprias da realização, servem ali apenas como parte de uma proposta de expressividade estética? Exemplo: em um sofisticado plano-seqüência num prostíbulo, Everardo arrasta a prostituta Bela (Hermila Guedes) do bar a um quarto nos fundos. A câmera segue do alto. Enquanto Everardo sodomiza Bela, a câmera permanece olhando de cima. E é dali, ainda, onde vemos o rapaz pisar quatro vezes em sua cabeça e cuspir sobre seu corpo. Todos saem de quadro e permanece somente a mulher arquejante, por alguns segundos. Quem estupra Bela? Everardo ou a superior e excitada câmera-olho do realizador - e, em última instância, nós, condescendentes com essa proposta de cinema-faca, que corta e faz sangrar apenas pelo choque? Quando Auxiliadora (Teixeira) se despe no riacho e mostram-se seus seios e sua púbis de perto, realizador e espectador assumem ou não o papel dos voyeristas do início do filme?

Eletrochoque é a palavra de ordem (o close em depilação íntima feminina serve para quê?). Mas o pior é que o sentimento de superioridade do realizador é tanto, que discordar de seu cinema-faca, para Cláudio Assis, é cair em moralismo e conservadorismo absolutos. Ou, pior: é fechar os olhos ou ser condescendente com a triste "realidade" que o filme supostamente mostra. Ora, que "realidade" é essa? Baixio das Bestas se constrói sobre um paradoxo fundamental. De um lado, revela a necessidade de ser uma "denúncia social" - daí o prólogo remeter a degradação social/moral da região à desestruturação da economia local, sustentada antes pela usina de cana. Do outro, um formalismo excessivo e engessante, que traz sofisticados movimentos de câmera e cálculos de luz - mas que parecem pouco relacionados à dramaticidade das situações (ou, na pior das hipóteses, se revela mais perverso que as bestas do Baixio, como é o caso do estupro de Bela). No filme, não se problematiza, em nenhum momento, a forma e os limites de se representar uma realidade perturbadora e, de certa forma, inédita aos olhos da classe média urbana. Existe ética na imagem? Tudo já está dado: basta apenas que os conflitos e as contradições vitais da realidade e da apreensão do real (de um possível mundo) não atrapalhem o caminho estabelecido previamente pelo cineasta.

Cláudio Assis, assim como Luis BuÀuel, resolve seus filmes num terreno abertamente naturalista e anti-psicologista - grosso modo, são os instintos animais e a força do meio que determinam o comportamento da maioria dos personagens. Mas, definitivamente, não é do espanhol que Assis se aproxima de fato, mas sim de um Lars Von Trier da vida: tudo está dado a priori e, no fim das contas, o mundo está embutido nas velhas problemáticas católicas de salvação, humildade, castigo. Basta ver o fundamental primeiro plano-seqüência, que começa na garota e passa por seus exploradores, até chegar à cruz de uma igreja. Assim, o cinema de Cláudio Assis fica numa irresolução que acaba por olhar seus personagens com desprezo e crueldade. À aviltada Auxiliadora, tanto falta o olhar solidário despendido a Viridiana, por exemplo, quanto falta o olhar interessado dado a Grace (de Dogville, de Lars Von Trier). E ainda, após tudo, no fim portas se abrem. O velho é atropelado em casa pelo ritual alegórico do maracatu, a menina livra-se dele (ainda que, agora, tenha de labutar no cotidiano "tome-e-receba"), o cinema é fechado para reforma e o plano final termina com uma chuva purificadora que só vai engrossando. Por fim, basta dizer que o cinema de Cláudio Assis - sua busca e seus artifícios - pode ser sintetizado em assertiva fundamental de Everardo: "Eu quero é c*. Cadê a manteiga?".

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