Eleuda de Carvalho
da Redação
Thomaz Farkas, o criador da moderna fotografia brasileira, é o homenageado desta edição do XVII Cine Ceará. Junto com outros cineastas
08/06/2007 01:36

Logo mais, à noite, no chique salão do eterno Cine São Luiz, o distinto público vai ver imagens feitas há mais de meio século. Era o ano de 1954, e para a inauguração do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, foi convidado o já famoso músico Pixinguinha, que se apresentou com a Velha Guarda do samba carioca. O fotógrafo Thomaz Farkas, 30 anos, sem permissão de seu-ninguém, levou tripé e câmera e registrou o momento histórico. Hoje, de cabeleira e bigodes brancos, aos 83 anos de idade, este gênio das lentes vai ganhar o Troféu Eusélio Oliveira, como homenageado desta edição do Cine Ceará. Durante toda a semana, cerca de vinte documentários realizados por ele e seus amigos - Geraldo Sarno, Sérgio Muniz, Maurice Capovilla, Paulo Gil Soares, Guido Araújo, Eduardo Escorel, entre outros - foram apresentados no Cine Unibanco, do Dragão do Mar. Em preto e branco ou a cores, revela-se um Brasil que o Brasil não conhece, ou conhece muito pouco. Muito vivo.
Thomaz Jorge Farkas nasceu em Budapeste, Hungria, terra de seus pais, no dia 17 de outubro de 1924. Aos cinco, veio para o Brasil. Estudou engenharia mecânica e elétrica na famosa Escola Politécnica da USP. Com os colegas da Poli de modelos, realizou um conjunto de fotos surreais. O negócio dele era mesmo a imagem, talento estimulado desde cedo: o pai, ex-desenhista de armas na Hungria, foi o criador da primeira loja brasileira de câmeras e equipamentos fotográficos, a Fotoptica. A primeira exposição de Farkas - quebrando regras dos museus, que não expunham fotografias - foi em 1949, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, a convite do fundador, Pietro Maria Bardi, que percebeu, naquelas imagens concretas das ruas da cidade, o que elas representavam, de vera: a fotografia como arte. Em meados dos anos 60, Farkas bolou um projeto audacioso: registrar a cultura brasileira em documentários. O que ficou conhecido como Caravanas Farkas (nome dado por um dos integrantes da trupe, o cineasta Eduardo Escorel), era para servir às escolas, num pioneirismo de educação áudio-visual. O projeto gorou: não havia meios adequados. Mas ficou o registro deste Brasil do passado como um presente para o futuro.
Desde o último dia 5 de maio, aos sábados e domingos, o conjunto de filmes da Caravana Farkas vem sendo exibido pela TV Senado. O último programa da série, que irá ao ar neste sábado e domingo, apresenta dois documentários focados no cotidiano do Cariri cearense. Outras produções de Thomaz Farkas, inclusive as fotografias em que ele registra Brasília em construção, podem ser vistos nos sites www.macvirtual.usp.br e www.eca.usp.br/prof/josemarques/arquivos. No último sábado, depois da apresentação dos filmes Hermeto, Campeão, em que ele próprio registra um dia na casa do bruxo Hermeto Paschoal, entre inusitados sons, Vitalino Lampião (de Geraldo Sarno), e dois de Sérgio Muniz, da série sobre instrumentos musicais brasileiros, Farkas conversou com o Vida & Arte, no batente do Planetário do Dragão.
O POVO - Os filmes apresentados no Cine Ceará foram restaurados faz pouco tempo?
Thomaz Farkas - Houve duas restaurações. A primeira foi quando nós pegamos os filmes, em 16 mm. Sabíamos que havia uma deterioração do material e passamos para magnético beta, isto foi feito na RBS há muitos anos. A RBS nem existe mais em São Paulo. Quem fez isso foi Sérgio Muniz e eu. Passamos seis meses passando os 30 filmes, acho que em 1980. Agora passamos de beta pra beta digital e DVD, e agora não sei pra onde nós vamos...
OP - O mágico disso tudo é este registro...
Thomaz Farkas - ... são as pessoas. Porque venho aqui na mão desse pessoal que trabalhou comigo. Sérgio Muniz, Geraldo Sarno, Capovilla, o Guido Araújo, da Bahia... São estas pessoas que me trazem aqui, não sou eu só, são meus companheiros. E até hoje eu os cultivo. Paulo Gil morreu, mas ainda tenho contato com a viúva dele. Vocês vão ver cangaço, futebol. Fiz isto pra mostrar o Brasil pros brasileiros, entende? Porque nesse tempo não havia televisão que fazia isso.
OP - Então, foi um presente que você legou para o futuro.
Thomaz Farkas - Não, eu queria vender pras escolas. Mas as escolas não tinham equipamentos. Você tem que montar o projetor, botar uma tela, alto falante, não é fácil. Foi uma coisa dificílima. E os professores chegaram até a me dizer, bom, mas se vai ter filme, não vai ter necessidade de professor. Eles tiveram uma certa oposição. E tive que explicar pra eles que filme é que nem livro, você ensina pela imagem e pelo livro. Tanto que o que acabou com isso foi a dificuldade de projetar. Hoje acabou a dificuldade. Vamos agora tentar fazer um álbum com todos estes filmes e comentários de cineastas e críticos, este é o nosso projeto.
OP - Digo que foi um presente...
Thomaz Farkas - Mas eu pensei em ganhar dinheiro!
OP - Bem, queria que você lembrasse sua infância, suas primeiras visões do Brasil.
Thomaz Farkas - Meu pai tinha uma loja de fotografia em São Paulo. Meu pai era desenhista de armas na Hungria. Como a Hungria perdeu a Grande Guerra, de 1918, ele ficou desempregado. E ficou vagando por aí. O irmão dele disse, vá pro Brasil, que é o país do futuro. Ele veio pra cá em 1920. Eu sou de 1924, nasci na Hungria, minha mãe voltou pra lá pra eu nascer. Voltei pra cá em 30, com cinco anos e pouco. Daí que nasceu meu amor pela fotografia, que começou com a facilidade de mexer com as máquinas. Eu peguei as máquinas, comecei a mexer com isso, a de 8mm, a de 16mm, depois com 35. E agora, agora, agora acabou tudo isso porque veio o magneto.
OP - Mais ou menos entre o ano que você nasceu e o ano em que você voltou, o escritor Mário de Andrade saiu em caravana pelo Brasil, pra registrar a cultura popular do país.
Thomaz Farkas - Você precisa ver as fotografias! Seis por nove, que foram expostas há pouco tempo no Masp (Museu de Arte de São Paulo). É uma maravilha, foi isto que me inspirou. E a coleção de livros chamada Brasiliana. São coisas da minha mocidadde, tudo isso contribuiu pra me motivar e eu reunir esse pessoal todo que já começava a mexer com isso. A idéia era fazer documentários. Os filmes têm uma brasilidade que trago no meu coração.
OP - Como você montou a caravana?
Thomaz Farkas - Foi assim. Era uma perua Chevrolet C-14. A gente pôs um teto em cima e saiu andando. O som, quem fazia era Sidney Paiva Lopes. Tem o Sérgio Muniz, o Geraldo Sarno, que comandou muito tempo, o Paulo Gil Soares, falecido, tem o Edgardo Pallero, um argentino que trabalhou conosco. Iam duas pessoas na frente, explorar, durante um mês, dois meses. Vim pra cá, pro nordeste, ver o que era isso. Vim com o Paulo Rufino e o Geraldo Sarno, num jeep, saindo de São Paulo. Fomos até Baturité. Depois Sérgio Muniz voltou pra ver quem seriam os contatos. Havia, naquele tempo, uma repartição pública chamada Artene, a Sudene da arte, e existia um delegado da Artene em vários lugares, a gente contactava. Mandávamos os batedores na frente e depois íamos filmar. As filmagens duraram uns dois anos. Depois, montamos, é isso aí.
OP - E nesses dois anos, você rodou o Brasil todo.
Thomaz Farkas - Eu e a turma minha. Coisa que funcionou, por isso que digo que estou aqui pela mão dessas pessoas.
OP - E como foi fazer esses registros em plena ditadura?
Thomaz Farkas - A gente queria fazer filmes revolucionários. Mas aí o Eduardo Coutinho já estava aqui fazendo isso e a polícia caiu em cima dele. Eu disse, não, vamos inventar outro coisa. E aí inventamos de mostrar o Brasil pros brasileiros. Foi isso que nos motivou. Foi uma coisa de amor pelo Brasil.
OP - Como seriam estas caravanas, hoje?
Thomaz Farkas - A televisão mudou muito as pessoas. Você chegava antigamente numa feira, montava o equipamento, explicava o que era e ninguém se chateava, ninguém se assustava. Nós chegavamos com diplomacia, polidez, simpatia, pedindo licença. Além de ser fotógrafo, eu trabalhava na loja (Fotoptica) e isto me deu um dinheiro que permitiu fazer o projeto. Naquele tempo era mais viável. Hoje precisa a Petrobras, o governo ajudar... Vocês vão ver os que fazem a imprensa popular, o pessoal cantando coco na feira, o pessoal fazendo os livrinhos (cordéis), cantoria... A feira da banana, do Guido Araújo, rodado na Bahia. O filme é para mostrar como a feira da banana mudou com a vinda do caminhão. O pessoal não sabia o que ia acontecer, mas nós sabíamos. Foi o prenúncio. Isto tem um certo tempo, não é uma coisa que se pode continuar indefinidamente. Tem que parar, pensar. Talvez, refazer esta viagem hoje. Conversei com pessoas, novos cineastas: por que vocês não fazem? Você tá vendo documentário em tudo que é canto. Não sei se têm essa unidade, essa filosofia, mas está-se fazendo. E isto é muito bom.
OP - Você falou, no começo, das influências do Mário de Andrade, e também desse "olhar estrangeiro", da coleção Brasiliana...
Thomas Farkas - Fizemos isso foi da cabeça nossa, não fomos influenciados. Todo filme documentário não é objetivo, é subjetivo. É uma expressão do diretor, é a visão dele. Pode não ser tão real quanto ele gostaria que fosse.
OP - Dos filmes que você mesmo dirigiu, qual destacaria, qual lhe deu maior prazer?
Thomaz Farkas - Paraíso, Juarez, sobre um pintor baiano que decorou o saguão de um cinema, e ele conta como é que fez. Eu filmei isso, nós montamos, é um filme de 10, 12 minutos. O pintor se chama Juarez Paraíso. O outro que é meu é o do Pixinguinha. Filmei o Pixinguinha há 50 anos, e deixei lá, rolando, nunca mais peguei. E há dois anos eu tava vendo um negócio lá, vi, olha o Pixinguinha dançando! Vamos ampliar, vamos ver o que dá. Fiz também co-produção com o Geraldo Sarno em dois filmes que ele fez, o do Chico Buarque, que nunca foi editado, nunca foi mostrado. E o filme sobre Delmiro Gouveia, viemos aqui no Ceará filmar. Eu ajudei um pouco...
OP - Você viaja muito?
Thomaz Farkas - Sempre que posso, viajo. Mas com uma certa intenção, não é só turismo. Tenho minha casa em Paraty, onde não faço nada. Estas excursões, obedeço a algum tipo de necessidade, de vontade de fazer coisas. É isso. Tá bom? Obrigado pela paciência...
LEIA ÍNTEGRA DA ENTRVISTA:
www.opovo.com/vidaearte
VEJA FOTOS E VÍDEOS DA CARAVANA:
www.eca.usp.br/prof/josemarques
wwwwww.eca.usp.br/prof/josemarqu