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LITERATURA

Censurado por Roberto Carlos, escritor promove "aulas-show"

Jotabê Medeiros
da Agência Estado


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07/06/2007 01:50

Te cuida, Ariano Suassuna! Outro autor brasileiro, dessa feita um baiano de Vitória da Conquista, está fazendo escola na seara das "aulas-espetáculos" que celebrizaram o paraibano de Privado de sua obra, que levou 15 anos para escrever, restou a Paulo César um único trunfo, o de recontar a história, e ele faz isso com habilidade, ironia e presença de espírito.

É hilariante sua teatralização dos encontros entre Roberto Carlos e seus advogados. O advogado lia o livro, louco para iniciar uma ação por calúnia e difamação, grifava alguma coisa que lhe parecia cabeluda e levava a Roberto. "Isso aqui é mentira, Roberto?", perguntava o rábula. "Não, bicho! É verdade...", responde Araújo, imitando Roberto Carlos, e a platéia desaba em risadas. Ao final, restou outra alternativa à defesa do cantor senão iniciar um processo por "invasão de privacidade" generalizante. "Os advogados dele tiraram leite de pedra."

Autor também do livro (referência à Galeria Alaska, famoso ponto de "pegação" no Rio). "Timóteo, pouca gente sabe, é botafoguense doente. Dizem que ele assiste a todas as mesas-redondas de futebol, e é capaz de, se alguém falar muito mal do Botafogo, ele pegar o carro e ir até a estação de TV para tentar dar um refrega no comentarista."

No dia do lançamento do livro, dia chuvoso no Rio de Janeiro, eis que entra na livraria um sujeito de capa todo encharcado, tira o capuz e pergunta em voz alta: "Quem aí é o Paulo César?" Era Timóteo. Araújo já se via nocauteado no chão. Mas o cantor o abraçou. Viera para elogiar o livro, "muito respeitoso", e pedir autógrafos em exemplares para ele, Silvio Santos e Raul Gil.

O escritor levantou aspectos de consumo de drogas na obra de Odair José, falou da violência já premente na obra de Lindomar Castilho (que matou a mulher numa boate com três tiros) e ninguém o perturbou. "Coube a Roberto Carlos, sem homossexualismo, sem assassinato, sem maconha, partir com tudo para cima de mim. E ele resolveu inovar: veio com dois processos: um cível e um criminal", bradou, no único momento queixoso do encontro. "Só trato de aspectos pessoais da vida de alguém em meus livros se isso contribuir para o entendimento da obra", afirmou o autor que, aos 16 anos, recém-chegado da Bahia, ia de Vila Maria a Santana para trabalhar como operário. Foi parar no Rio de Janeiro atrás de uma namorada, onde se estabeleceu.

Araújo começou sua aula-espetáculo lembrando da primeira entrevista que fez, ainda estudante da PUC do Rio, ao iniciar sua pesquisa sobre a MPB. Ligou de um orelhão para o maior ícone da música brasileira, Tom Jobim. O próprio Tom atendeu, e cansado de perder o interlocutor porque a ficha acabava, Tom o convidou a ir à sua casa. Depois, Araújo ligou para Caetano Veloso. "Era uma época em que o Caetano também atendia o telefone", brincou. "É, quando ele não tinha mulher chata ainda", emenda alguém na platéia.

Na platéia, cerca de 50 sem-livro, gente que se viu privada do direito de ler a história do maior cantor popular brasileiro por conta de decisão judicial. Participação especial: o escritor Marcelino Freire, que leu o anárquico manifesto A platéia desabou na risada.

"O mundo está perplexo. Me ligam de Portugal, do México. Agora mesmo estou indo aos Estados Unidos para um debate. Lá, todo dia sai uma biografia não-autorizada, e ninguém censura. Tem mais de cem biografias só do Frank Sinatra", disse Paulo César, que também é estrela da Feira Literária de Paraty, a Flip.


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