Claude Bornél
Especial para O POVO
O famoso ogro chega à sua terceira aventura ainda em plena forma, mas dando sinais de que as próximas duas seqüências correm o risco de ser bem menos interessantes
07/06/2007 01:50

Um mito começou a se consolidar na indústria cinematográfica norte-americana. Todo filme que faz sucesso e vira franquia acaba derrapando feio na segunda continuação. Foi assim, por exemplo, com Matrix Revolutions e X-Men 3 - O Confronto Final e, mais recentemente, Spiderman 3 e Piratas do Caribe - No Fim do Mundo. Com Shrek chegando ao seu terceiro filme a expectativa era de uma baita capotagem. Felizmente, para toda regra sempre há uma exceção.
Shrek Terceiro, que estréia em Fortaleza, mostra o simpático ogro verde ainda em plena forma, com momentos hilários e aquele timming de piadas sutis que consagrou o personagem nas duas primeiras aventuras.
Desta vez Shrek comprova sua total incapacidade de se adaptar à vida na nobreza. Quer voltar para o pântano. Quando o rei Harold está no leito de morte e elege o ogro seu sucessor à frente do reino de Muito Muito Distante, Shrek instiste se não há outro jeito. Em uma cena divertida, o rei diz que existe um primo distante chamado Arthur (o rei Arthur, cuja dublagem é do cantor Justin Timberlake). É daí que partem para a busca o ogro, o Burrinho e o Gato de Botas.
O Príncipe Encantado volta como o grande vilão da trama. Ele quer assumir o trono a todo custo e para isso convence os demais malfeitores das fábulas infantis a ajudá-lo. Mas tudo o que ele quer, bem lá no fundo, é alimentar sua vaidade e apresentar uma peça teatral em que tira de Shrek o papel de herói.
O filme é bom, diverte e mantém a franquia em uma linha coerente. No entanto, mostra também que está ficando cada vez mais difícil para a DreamWorks manter o bom nível de surpresas para o espectador.
Uma das tramas paralelas do filme deixa isso bem claro. Shrek descobre que vai ser pai, fica totalmente apavorado e passa por algumas situações (um tanto piegas) até descobrir que pode virar um paizão. Quem já assistiu à comédia Nove Meses (1995), com Hugh Grant e Julianne Moore, vai perceber algumas semelhanças.
Bem, mas porque parte da história é datada não quer dizer que o filme, como um todo, percorra caminhos óbvios. Isso também fica evidente em algumas das opções feitas pelo diretor Chris Miller e o co-diretor Raman Hui. Por duas vezes eles tiveram a chance de repetir a fórmula de citar outras franquias de sucesso. Neste caso, Harry Potter e Piratas do Caribe. Quando o espectador já espera pela paródia ela não acontece, e quem sai ganhando é o filme.
E assim como todo bom comediante cede espaço para que outros personagens façam sua graça, tornando o filme mais interessante, em Shrek Terceiro alguns dos momentos mais impagáveis não estão exatamente concentrados no núcleo do ogro.
Ao contrário dos filmes anteriores, Cinderella, Branca de Neve, Bela Adormecida e Rapunzel ganham espaço e participam da trama com diálogos. Elas formam o chá de bebê mais engraçado que a princesa Fiona poderia ter. Outro momento que o espectador deve prestar atenção é na tentativa de Pinóquio para não mentir e revelar o paradeiro de Shrek ao Príncipe Encantado. Lembra um pouco aquelas esquetes do Chaves, mas por isso mesmo funciona.
Outro aspecto que favorece Shrek Terceiro é o tempo de duração ter sido mantido semelhante ao dos antecessores, de uma hora e 32 minutos. Desta forma a história preserva a narrativa ágil e dinâmica, valorizando os momentos de ação.
Com um filme mais curto a DreamWorks também evita queimar lenha para a fogueira das próximas duas seqüências de Shrek. A previsão é de que sejam lançadas a partir de 2010 e contem o passado do famoso ogro. Isso sem falar em um filme solo do Gato de Botas, que também está nos planos do estúdio de animação. Agora é esperar e ver se Shrek ainda será capaz de continuar surpreendendo sua legião de fãs.
Claude Bornél é jornalista e escreve a coluna Seqüencial no portal O POVO.COM.BR
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