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REEDIÇÃO

Sem perder a graça

Eleuda de Carvalho
da Redação

A editora Desiderata tira do baú um dos mais instigantes jornais alternativos brasileiros, o famoso O Pasquim. Sérgio Cabral, Millôr, Jaguar, Henfil e muitos outros bambas botaram pimenta malagueta no olho dos generais de plantão, na década de 70


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06/06/2007 01:43


Parece que foi ontem... mas já faz tanto tempo. Era 1969, um ano depois da decretação do Ato Institucional 5, que cerceou ainda mais a liberdade de expressão no Brasil, quando um grupo de jornalistas, entre eles Sérgio Cabral, Jaguar, Ziraldo e Tarso de Castro, inventou um novo jornal, batizado de O Pasquim. Semanal, em formato tablóide, o jornalzinho incomodou o "coro dos contentes" com muito humor, textos de primeira, cartuns e tiradas que, se não desestabilizaram a ditadura, deixaram a dita cuja meio bamba nos coturnos. Faz quase 40 anos que saiu o primeiro exemplar, e embora muita coisa tenha mudado, no Brasil e no mundo, O Pasquim guarda o frescor das coisas eternas - não embolorou. Ao contrário dos generais! Pra tirar a prova dos nove, é degustar os dois volumes que a editora Desiderata preparou, reunindo o melhor do Pasquim, do final dos anos 60 até a década de 70. O segundo acaba de sair da editora e logo chega pelas bandas de cá.

Um dos responsáveis pela "criatura", Sérgio Cabral (pai do atual governador do Rio, Sérgio Cabral Filho), falou, por telefone, sobre esta aventura feita de inteligência mordaz e irreverente graça. Nascido no subúrbio de Cascadura, o carioca Sérgio Cabral começou a vida nas redações há meio século, como repórter policial do Diário da Noite. Escreveu, entre outros, os livros As Escolas de Samba - o que, quem, onde, como, quando e porque (1974), Pixinguinha, Vida e Obra (1977), uma biografia de seu amigo Tom Jobim, publicada em 1997, além de outras sobre Nara Leão, Elisete Cardoso e Waldir Azevedo. Escreveu ainda sobre a escola de samba Mangueira, o time do Vasco da Gama e diversos volumes sobre MPB. Recentemente, doou seu acervo sobre música ao Museu da Imagem e do Som, do Rio.

"Quando O Pasquim começou a fazer sucesso, a gente era muito procurado por jornalistas de revistas de São Paulo - aquela mentalidade empresarial paulista... E eles nos perguntavam sobre o planejamento do jornal. Que planejamento? Era tudo por acaso", recorda, com fartura de riso. Sérgio Cabral revela o "segredo do sucesso" do Pasquim: "Um jornal feito por amigos e sem patrão. Todos pensavam diferente, mas éramos de oposição, e isso unia todo mundo. Outra coisa que nos unia era a cultura. Eu era do samba, execrado pela maioria. E, tirando a mim, tinha o talento das pessoas. E a liberdade total. Só havia censura externa".

O jornal nem tinha completado um ano e os fardados assanhados, vendo comunista em todo canto, botaram a mira na turma do Pasquim. "Passamos dois meses na cadeia, não recomendo a ninguém", diz Sérgio Cabral, sem perder o humor que fez a fama do jornal que teve a audácia de entrevistar a linda e desbocada Leila Diniz - em cada asterisco da entrevista da musa, escondia-se um cabeludo palavrão. Recordando as grades: o primeiro a ser detido, lembra Sérgio, foi o Ziraldo. "A polícia já sabia onde era a casa dele". Sérgio Cabral, que estava em Campos, soube por sua mulher, Magali, que ligou apreensiva. "O exército invadiu O Pasquim", disse ela. Nessa leva, foram detidos ele, Jaguar e o dramaturgo Flávio Rangel. "O Paulo Francis já estava preso. O Jaguar era o subeditor, eu o editor".

Foram presos também, recorda Sérgio, "Carlos Maciel, Fortuna, José Grossi - o rapaz da publicidade, uma injustiça, não tinha nada com isso... Quem mais? Acho que foram nove. Tarso de Castro foi o último. Passamos dois meses no quartel dos paraquedistas. O comandante era um cavalheiro. Disse pra gente, 'olhe, se vierem tirar vocês daqui, vocês berrem. A extrema direita está seqüestrando presos políticos para matar'. Quando teve o seqüestro do embaixador alemão, saiu no jornal que uma das exigências era trocar pela gente. Pensei, vou pra onde? Pra Argélia. Depois vou viver em Paris. De quê? O Ziraldo, o Jaguar, se viram com o desenho. E eu, que só sei escrever em português? Ficamos bolando nosso futuro na França, pensamos em abrir um restaurante, o Le Pasquim"... Pois é, o que dá pra chorar dá pra rir, não é verdade?

O Pasquim, de inesquecíveis entrevistas. Sérgio Cabral relembra uma das mais marcantes: com o mítico Madame Satã. "Ninguém sabia por onde ele andava, se vivo ou morto. Foi um personagem da minha infância. Todos os meninos tinham medo dele... No final, perguntei a ele, mas, afinal, você é mesmo homossexual? - Com muita honra, ele respondeu". Outra foi com o escritor e filólogo Antonio Houaiss, com um dos entrevistadores entupido de uísque: o poetinha Vinicius de Morais. "O Houaiss falando de explosão demográfica e o Vinicius dizendo, 'eu como minha empregada'. As entrevistas eram feitas no Pasquim, no Antonio´s... A da Leila Diniz foi no apê do Tarso de Castro. O porre era geral em qualquer lugar", diverte-se.

Mas, diz Sérgio Cabral, a redação era como "outra qualquer". Com reunião de pauta, o telecoteco das máquinas de escrever, o tempo curto. Tarso de Castro foi o primeiro editor, "uma figura muito engraçada, um caudilho gaúcho. Uma vez, fomos decidir uma pauta por votação. Éramos oito, ele perdeu por sete a um. Disse, 'então, empatou'...". A redação, eclética, tinha gente do Brasil todo, os mineirinhos, os paulistas. Até cabeça-chata andou por lá. Sérgio Cabral recorda: "O Mino! Dá um grande abraço nele, a última vez que o vi foi no Maranhão, faz bem 30 anos". Pergunto a ele sobre a "segunda dentição" do Pasquim, já nos anos 80. "Foi um jornal criado para enfrentar a ditadura. Quando ela acabou, a gente ficou meio sem saber o que fazer. O Jaguar manteve até o início dos anos 90, só Deus sabe como. Era por amor. Analisando friamente, foi um ciclo. Quando mostro a coleção para jovens estudantes, eles ficam impressionados. Nada envelheceu. Talvez, um pouco de um certo humor".


SERVIÇO

O PASQUIM - antologia em dois volumes (de 1969 a 1971, e de 1972 a 1973). Editora Desiderata. Volume 1: R$ 69,00; volume 2: R$ 74,90. Informações: www.editoradesiderata.com.br

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