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Vida & Arte

CENA ALTERNATIVA

E Noise, como fica?

Amanda Queirós
da Redação

Primeiro foi o Domínio Público. Depois o Ritz Café. Agora é a vez do Noise 3D Club dar adeus. Por falta de apoio, o principal reduto da música independente de Fortaleza está prestes a encerrar as atividades


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04/06/2007 02:16

A despedida do Noise está marcada para o dia 30 de junho (Foto: Marcos Campos)
A despedida do Noise está marcada para o dia 30 de junho (Foto: Marcos Campos)

O filme já é conhecido e o desfecho dele não consegue mais ser surpresa para ninguém. Alguém com a melhor das intenções abre um espaço dedicado à música independente na cidade. No entanto, pouco tempo depois, por mais que todo mundo aplauda a iniciativa, o lugar fecha as portas e deixa uma legião de ex-freqüentadores se lamentando à espera do próximo mártir que vai se sacrificar por um ideal semelhante. Aconteceu assim, no fim dos anos 90, com o badalado Domínio Público e, um pouco mais tarde, com o Ritz Café. Agora é a vez do Noise 3D Club passar por essa situação. O clube, inaugurado no fim de 2004 e transformado no reduto favorito dos fortalezenses, anunciou a sua despedida da cena cearense no último mês. O motivo? Para além das dívidas, exatamente a falta de perspectiva e de motivação. No calendário, 30 de junho está marcado como o último dia de festa.

Ao lado do Hey Ho Rock Bar, o Noise é o responsável por movimentar a esquina das ruas José Avelino com Senador Almino no entorno do Centro Dragão do Mar. Enquanto o vizinho se dedica ao rock pesado e ao metal, o "clubinho" (como é carinhosamente chamado pelo público mais assíduo) se especializou em trazer novidades da música independente internacional e local, seja nas pick-ups dos DJs ou em shows de bandas de destaque na cena nacional como Moptop, Forgotten Boys e da cearense Montage, que despontou para o sucesso exatamente naquele espaço, assim como as bandas locais Telerama e Café Colômbia e uma série de novos DJs que tiveram "a primeira noite" também por ali.

Aos fins-de-semana, aquelas ruas entopem de gente. O problema é que a diversão de quem fica lá fora se dá às custas do som da festa que rola lá dentro. Muitos adoram o que toca dentro daquelas paredes - coisas do tipo brit-pop, rock alternativo e eletro-punk -, mas são poucas as dispostas a pagar o ingresso, na faixa de R$ 10, e entrar para curtir de perto as atrações. "Chegou ao ponto de, uma vez, uma menina que estava lá fora chamar alguém daqui e pedir para tocar cinco ou seis músicas que ela queria para 'animar aqui fora'", relata Marcel Pereira Pinto, que toca o espaço ao lado do irmão Marcos Aurélio e de Fernando Pinheiro, o DJ Dado.

Esse cenário é bem diferente dos primeiros meses de funcionamento da casa, quando o espaço era lotado de órfãos das festas de música de anos 80 e 90 realizadas no Ritz. Parte deles abandonou de vez o lugar com medo da insegurança que assola o entorno do Dragão. Depois desse momento, o público virou uma metamorfose ambulante, acompanhando o ritmo dos projetos do lugar. Hoje, só para se ter uma idéia, festa de rock gótico divide espaço com as de trash metal e uma geração de idade mais nova ocupa o espaço. "Isso faz com que o antigo público diga que não se encontra mais aqui. Esse pessoal novo consome muita internet e está sempre em busca de novidades", comenta Dado.

Com a diminuição da arrecadação na bilheteria, diminui também o valor acumulado com a venda de bebidas. Assim, manter o espaço tem se tornado cada vez mais difícil. "A gente tem os mesmos custos de uma casa grande, mas com a idéia de acreditar no produto independente", comenta Marcel. Por conta dessa filosofia, a casa respeita a meia-entrada e deixa que os pagantes entrem e saiam do local quantas vezes quiserem na noite, até para dar uma rotatividade nos dois cômodos apertados e abafados do local, que comportam até 200 pessoas. Com isso, muita gente também acaba consumindo do lado de fora nas barracas que infestam as ruas. "Tem gente que diz que a gente trata tão bem os clientes, que eles ficaram mal acostumados", desabafa ele.

Por enquanto, a única coisa que os faria suspender o encerramento das atividades seria alguma espécie de apoio que sinalizasse para o arrefecimento das dívidas acumuladas pelo lugar. O patrocínio de alguma empresa de bebidas ou de algum veículo de comunicação já ajudaria. No entanto, não há muito otimismo quanto a essa possibilidade. Enquanto isso, nas comunidades do site de relacionamentos Orkut, freqüentadores do lugar se mostram indignados com o iminente fechamento.

Nisso, a equação da música independente da cidade fica desequilibrada e é difícil saber quem culpar na história toda. Muitos reclamam que, sem o Noise, Fortaleza perde o seu único espaço alternativo. Ao mesmo tempo, parte delas diz que o clube "não é mais o mesmo" e que, por isso, não freqüenta mais. Afinal, o perfil do público mudou e o Noise não conseguiu acompanhar? Vale a pena manter um espaço desses como vitrine da cena independente local se o público não vai corresponder? O mesmo público que não freqüenta mais é o mesmo que vai lamentar a ausência dele depois? Nenhum dos três proprietários da casa sabe responder. "O público quer que continue? Então vão pra lá! A gente vai deixar aberto para quê? Já tou é vendo, no fim disso tudo, se a gente continuar aberto, ainda vai ter gente para chegar aqui e falar que tudo não passou de um jogo de marketing...", desabafo Marcos Aurélio.

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