Camila Vieira
da Redação
Inspirado no romance homônimo de Plínio Marcos e dirigido por Carlos Cortez, Querô será exibido amanhã, às 19h
02/06/2007 02:38

"Raiva é um negócio que ninguém tira da gente. Raiva, a gente não pede, a gente ganha”. As palavras de Querô - personagem-título do longa-metragem de Carlos Cortez - anunciam a emoção que o filme carrega durante toda a projeção. O ódio do protagonista é o fio condutor da narrativa, seja pela instabilidade das cenas feitas com câmera na mão, seja pelos constantes pesadelos que perturbam o personagem. Em exibição domingo, às 19h, na mostra competitiva de longas do 17º Cine Ceará, Querô é inspirado no romance homônimo do dramaturgo Plínio Marcos, que conta a história de Jerônimo da Piedade, o Querô, um adolescente pobre e órfão, que mora na zona portuária de Santos, em São Paulo.
Filho de uma prostituta que bebe querosene até morrer - daí vem o apelido Querô -, o protagonista perambula pelas ruas, cometendo pequenos delitos e acaba preso na Febem. O destino de Querô é definido pela própria situação de criminalidade e miséria que o rodeia. É o ambiente que determina sua propensão ao mal, ou melhor, sua transformação de “sujeito homem” para “bicho solto”. “Por que você me pôs no mundo, mãe? Eu sempre me fudi. Nunca fui nada. Isso me torna ruim, mãe”, diz Querô, chorando em uma das celas da Febem. “É o destino de milhares de jovens abandonados no Brasil”, diz o diretor Carlos Cortez.
Para garantir o naturalismo das cenas, o cineasta optou por selecionar adolescentes de escolas, casas, cortiços e ruas de Santos, São Vicente, Cubatão e Guarujá, que formaram boa parte do elenco. Dos 1200 garotos que fizeram os testes para o filme, 200 participaram de oficinas com o preparador de atores Luiz Mario Vicente, que selecionou 40 para integrar o elenco oficial de Querô. Com a colaboração de Bráulio Mantovani e Luiz Bolognesi, o roteiro de Cortez também teve interferência do jovem elenco. “Embora a linguagem do texto do Plínio seja atual, queria acrescentar algo novo, trabalhando com meninos que já conheciam essa realidade. Os garotos improvisavam em cima das intenções dramáticas do roteiro. Isso garante o naturalismo do filme”, explica Cortez.
Para contracenar com o núcleo de atores jovens, o filme contou com a participação de atores veteranos como Maria Luisa Mendonça (mãe de Querô), Ângela Leal (a dona do bordel, Violeta), Ailton Graça (Brandão) e Milhem Cortaz (Seu Edgar). Quem vive o protagonista é Maxwell Nascimento, filho de ambulantes, que cursa o último ano do ensino médio e tomou contato com a produção do filme quando jogava futebol em sua escola. No longa, boa parte da violência é retratada por meio dos pesadelos de Querô, como é o caso da agressão que o personagem sofre na Febem. Querô marca a estréia de Carlos Cortez na direção de longas-metragens de ficção. O cineasta começou a carreira como roteirista, além de diretor de documentários, entre eles, Forum (1992), Mulheres (1991) e Salário (1987).
SERVIÇO
17º Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema - Até o dia 8 de junho, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro (Praça do Ferreira), Casa Amarela Eusélio Oliveira (Av. da Universidade, 2591 - Benfica) e Espaço Unibanco Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 - P. de Iracema). Hoje, às 19h, exibição dos longas Chile 672 (Argentina) e Body Rice (Portugal). Amanhã, às 19h, Querô (Brasil) e La Edad de la Peseta (Cuba, Espanha e Venezuela). As credenciais podem ser adquiridas no Cine São Luiz mediante a doação de um quilo (1kg) de alimento não-perecível. A credencial permite a entrada em todos os locais de exibição do Cine Ceará, exceto encerramento. Info.: 3366.7772.
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