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Vida & Arte

O legado do mestre

Carlos Newton Júnior
Especial para O POVO


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02/06/2007 17:19

Jackson Costa que interpreta Clemente,  criado por Ariano Suassuna 9Divulgação/TV Globo)
Jackson Costa que interpreta Clemente, criado por Ariano Suassuna 9Divulgação/TV Globo)

Às vésperas de completar 80 anos de idade, Ariano Suassuna é hoje um caso raríssimo - senão único - de escritor brasileiro que atingiu, em vida, a notoriedade de um astro de televisão. Nenhum outro, de fato, possui a sua capacidade de despertar euforia em platéias as mais heterogêneas que se possam imaginar, formadas por pessoas de todas as faixas etárias, de norte a sul do país.

Se tal fato pode ser explicado, num primeiro momento, pela divulgação da sua obra e da sua imagem, ao longo da última década, através dessa mesma televisão sobre a qual pairam alguns louvores e acusações as mais justificadas, é preciso que se reconheça, por outro lado, que a própria televisão curvou-se a Suassuna e a ele se rendeu de modo incondicional, permitindo que a unidade profunda da sua obra se desvelasse na tela em toda a sua plenitude, sem artifícios ou adaptações que pudessem sugerir qualquer concessão do autor a modismos ou às variações de um discutível gosto médio - tão obsessivamente procurado pelos que pensam a televisão a partir dos famigerados "índices de audiência".

Quer dizer: de modo diverso do que geralmente ocorre nesses casos, o sucesso que Suassuna atualmente vivencia, devido à sua exposição na mídia, foi antecedido pela realização de uma obra de enorme coerência interna, fruto de um projeto estético pacientemente burilado ao longo do tempo, uma obra autêntica naquilo que possui de mais radical, e que há mais de meio século vem recebendo, da crítica especializada, um reconhecimento à altura do seu valor.

É preciso diferenciar, em arte, "sucesso" de "êxito". Reflexo de uma crítica amplamente favorável, mas que nem sempre elege a beleza como critério decisivo, o sucesso, muitas vezes, reina no território do efêmero. Passam-se os anos e caem por terra todas as máscaras da contingência, aqueles adornos através dos quais os insensatos tentaram, em vão, sobrepor uma harmonia aparente a uma desarmonia real, como um reboco frágil cai de uma parede com ele revestida e expõe a alvenaria sem consistência de uma edificação pobre, desde o início condenada à ruína. O êxito, por sua vez, somente se revela ao longo do tempo, ligando-se àquelas obras cujos autores, demonstrando possuir a consciência secreta do seu valor, não temem os arbitrários juízos da sua época. O êxito, portanto, desenvolve-se lentamente, sem pressa, à margem de pompas e toques de clarins, mas sempre ultrapassando o limite das gerações para atingir o estágio de vanguarda permanente das grandes criações do gênio.

Não tenho a menor dúvida de que o êxito da obra de Ariano Suassuna começa a se delinear como algo inquestionável. Poucos se dão conta de que o Auto da Compadecida, sua mais famosa peça, foi escrita em 1955, quando o autor contava apenas vinte e oito anos de idade. Nada no texto envelheceu, de modo que, a cada leitura, nos sentimos renovados, como se tivéssemos bebido de um cantil de água fresca em meio à caatinga. Quanto ao Romance d'A Pedra do Reino, lançado em 1971 e ainda hoje a sua mais importante incursão no campo da prosa, as recentes adaptações que recebeu para o teatro e para a televisão só fazem confirmar a premonição de José Cândido de Carvalho, escrita em 1974: "Está trinta anos na frente da ficção nacional. Será ainda mais novo no ano 2000 do que agora".

Ao mesmo tempo, porém, o sucesso vem revelando, para Ariano Suassuna, a sua natureza bifronte de bem e de mal. Outro dia fui visitá-lo e me deparei com uma cena que seria risível, não encerrasse um aspecto terrivelmente doloroso. Em seu casarão do século XIX inteiramente fechado, no ainda aprazível bairro de Casa Forte, no Recife, Suassuna caminhava, a passos largos, ao redor da grande mesa da sala de jantar, impedido que se encontrava, devido ao assédio de que é vítima quando sai às ruas, de cumprir a prescrição do seu médico para que caminhasse na praça próxima à sua residência, como fizera durante anos. Trazia, num dos bolsos da calça, o da direita, várias pedrinhas, pedaços de seixo rolado que ele ia passando para o outro bolso, um de cada vez, a cada volta que completava, a fim de não perder a conta que indicaria a metragem previamente estabelecida para o exercício.

Lembrei-me ali, inevitavelmente, do tempo em que Suassuna fora meu professor na Universidade Federal de Pernambuco, no início da década de 80. Afastado da vida literária desde o seu artigo Despedida, publicado no Diário de Pernambuco a 9 de agosto de 1981, longe dos jornais, das entrevistas e dos lançamentos de livros, ainda distante da estréia de Uma Mulher Vestida de Sol na televisão, que somente ocorreria dez anos depois, o dramaturgo e romancista já então há muito reconhecido internacionalmente podia dar-se à liberdade de ir de casa para o trabalho de ônibus, como um cidadão comum, vestindo sua roupa de mescla cáqui e calçando rústicas alpercatas de couro.

Resignado diante dos inconvenientes que o sucesso traz a tiracolo, Ariano Suassuna não enfraquece nem vacila na defesa da Cultura brasileira. Assumiu, em janeiro passado, mais uma vez, o cargo de Secretário de Cultura de Pernambuco. Ei-lo novamente na liça, armado cavaleiro andante e lutando contra os moinhos de vento do colonialismo cultural.

E então, todas as vezes que o vejo, animado como sempre, extravasando, com o dobro da minha idade, uma energia que muitas vezes me falta, com aquele vigor que parece jorrar das suas veias como de um chafariz, penso na frase que um personagem de Tchékhov - o velho ator cômico Vassíli Svetlovídov - pronunciou, exultante, para o velho ponto que, não tendo onde passar as noites, dormia nos camarins do teatro:
"Onde há talento, Nikítuchka, não há velhice!".

Carlos Newton Jr. é poeta, ensaísta e professor da UFPE, autor do livro O Pai, o Exílio e o Reino, onde investiga a poesia de Ariano Suassuna.

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