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Vida & Arte

ARTIGO

A arte de encantar o futebol

Maria Aparecida Lopes Nogueira
Especial para O POVO

A escritora Cida Nogueira apresenta uma outra face de Ariano Suassuna: o torcedor do Sport Club do Recife. Tanto que seu "traje esporte fino" é uma roupa de linho preta e camisa vermelha - as cores do time do coração. E conta uma aventura dele no estádio, em dia de final


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02/06/2007 17:19

Irandhir Santos e Malaquias Hill de Pádua durante as filmagens da microssérie que leva á TV a obra de Ariano Suassuna (Foto: Divulgação/TV Globo)
Irandhir Santos e Malaquias Hill de Pádua durante as filmagens da microssérie que leva á TV a obra de Ariano Suassuna (Foto: Divulgação/TV Globo)

Segundo Ariano Suassuna, o cotidiano é transfigurado em poética por meio da imaginação criadora. As imagens acrescentam alma às coisas. Por isso, não cansa de reinventar a vida, divinizá-la, na tentativa quixotesca de escapar da dura e cruel ordenação do mundo imposta pela lógica desencantada desses tempos de globalização. Quando ainda era estudante do Colégio Americano Batista, no Recife, jogava futebol. "Era um péssimo jogador!", recordou. Conseguia ser escalado para integrar um dos três times do colégio, por ser o melhor amigo de Isaac Barreto Ribeiro (hoje, médico), capitão de um dos times. "Era escalado como médio-esquerdo para marcar o ponta direita."

Um dia, durante um jogo, pegou uma bola, não tinha ninguém por perto e deu um chutão para a frente. Em seguida, deu as costas e foi voltando para seu lado do campo. De repente, todo o time correu para cima dele, abraçando-o calorosamente. Isaac repetia, aos gritos, que ele fizera um gol: o gol da vitória!... "Eu tive uma emoção tão grande que vomitei". Torcedor do Sport Club do Recife, Ariano é daqueles que vão a campo, devidamente uniformizado, para vibrar por seu time. O traje esporte fino, que usa em ocasiões especiais, é uma homenagem ao Sport. Trata-se de um conjunto preto de mangas compridas, em linho, com uma camisa vermelha social de mangas compridas, por dentro, também em linho. Para completar o traje, meias vermelhas e sapatos pretos.

Outra homenagem ao time do coração é prestada por meio de sua criação de cabras na fazenda Carnaúba, em Taperoá, cidade do sertão da Paraíba, que tem como objetivos: a preservação e regeneração da cabra nativa do sertão nordestino. Lá, juntamente com o primo e sócio, Manuel Dantas Vilar - o Manelito - cria três raças: as vermelhas, as brancas e as negras-azuis. As vermelhas possuem uma lista preta no dorso: tal qual Ariano, são também rubro-negras, do Sport. Nosso poeta opera por metáforas, expressão de uma sabedoria que vem acumulando ao longo de seus primeiros 80 anos de idade. Por isso considera as cabras semelhantes a nós, humanos; tem por elas um grande apreço.

Em 2007, o Sport lhe presenteou com o bicampeonato, com duas rodadas de antecedência. Belo presente de aniversário. Naquele primeiro de abril, quando chegou ao setor das cadeiras, foi ovacionado pela torcida: "Ero, ero, ero. Ariano é rubro-negro". Ecos de mitos que se impõem como verdades por meio da repetição. Só conseguiu lugar para sentar-se porque um torcedor cedeu sua cadeira, indignado com o fato de "um escritor, um homem tão importante, sentar no batente?!". O Sport ganhou com um placar folgado: 3x0. Novamente, em coro, a torcida reconheceu que "Ariano é pé quente".

Como estava sozinho nessa tarde-noite, proeza que conseguiu a muito custo, depois de implorar a Zélia - sua esposa -, após o término do jogo nosso poeta ficou à espera de um táxi, em frente ao estádio. Dois rapazes se aproximaram: "Esse lugar aqui é muito perigoso. Nós não vamos permitir que o senhor corra riscos". Ariano respondeu, gentilmente: "Eu agradeço a preocupação de vocês. Estou bem". Retrucaram os rapazes: "Desculpe, mas não está". Após alguns instantes retornaram com dois policiais para escoltá-lo: "Agora, sim, o senhor está seguro". Envergonhado, Ariano agradeceu. Os policiais decidiram que a melhor solução seria levá-lo, na própria viatura, até um táxi. E assim o fizeram. Depois de muitas recomendações, o motorista pode, enfim, conduzi-lo de volta para casa.

Ao chegar, nosso torcedor comemorou com a mulher o título de bicampeão pernambucano invicto, por antecipação. Após narrar toda a aventura para Zélia, comentou: "Está vendo?... Nunca fui cercado de tanta segurança como no jogo de hoje!". Mesmo o futebol exibe a alma poética de Ariano. O Sport é uma imagem cara; desperta nele um sentimento longínquo do humano, aquele que atravessa a vida adquirindo seu chão a cada discreto movimento.

Em campo, os jogadores ficcionam a vida durante preciosos 90 minutos. Revestem-se do inusitado por meio de dribles, bicicletas, jogadas de efeito, do gol. No templo do futebol, parece que o melhor está no Outro, no jogador que nos seduz ao ampliar a criança que brinca em cada um de nós. Talvez essa seja uma das formas mais belas de exercício da tolerância e encontro com o Outro.

"Ariano é melhor que 4 Fumagalli", o craque do time. Grita da arquibancada um dos torcedores. Os olhos curiosos do poeta buscam, em vão, localizar aquele cantador perdido no meio da multidão. Embalados pelo ritmo do jogo, gesticulam, gritam, cantam, choram, riem. Falam sem parar uma gramática explosiva, desregrada, aberta, sentimental. Palavras raras para dizer o indizível. São instantes de abandono à arte do futebol. Tempo ritual, quando as cores e formas incorporantes capturam todos os presentes. É a magia do futebol transfigurando a realidade em sonho. "Cazá, cazá, cazá. A turma é mesmo boa. É mesmo da fuzarca. Sport! Sport! Sport! Viva o Sport! Viva Ariano!"

Maria Aparecida Lopes Nogueira é escritora e professora da Pós-Graduação na UFPe. Seu livro mais recente é uma coletânea feita para homenagear Ariano Suassuna, em seus 80 anos.

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