Depois do sucesso do Auto da Compadecida, a TV Globo realiza mais uma série tendo como referência a obra de Ariano Suassuna. Desta vez, seu incrível Romance d´A Pedra do Reino, com direção de Luiz Fernando Carvalho
02/06/2007 17:19

O que você verá em cinco dias, ou melhor: cinco noites, de 12 de junho, terça, até o sábado, 16 - dia do aniversário de 80 anos de Ariano Suassuna, demorou meses para ser filmado. A microssérie A Pedra do Reino, feita a partir do Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, dá início ao projeto Quadrante, à frente o diretor Luiz Fernando Carvalho. Sobre o projeto, ele escreveu: "É uma espécie de caravana que estou propondo para que a gente conheça um país - que, no meu modo de sentir, é muitas vezes desperdiçado em função de uma visão centralizadora do eixo Rio-São Paulo. Como artista, senti a necessidade de percorrer esses espaços que formam a infinita brasilidade, tentando vivenciá-la através dos encontros com os talentos locais. Esta é a minha alegria maior neste trabalho: me entregar ao mistério desses tantos encontros com as literaturas de autores de diferentes estados e os talentos locais".
Além do romance de Ariano Suassuna, o projeto prevê a adaptação de mais três obras literárias: a série Capitu, concebida a partir do Dom Casmurro, de Machado de Assis; Dançar Tango em Porto Alegre, do escritor gaúcho Sérgio Faraco, e Dois Irmãos, do livro de mesmo nome do escritor manauara Miltom Hatoum. Para transpor em imagens todo o imaginário d´A Pedra e suas quase 700 páginas, o diretor e os roteiristas - o escritor Braulio Tavares e o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, leram outros textos de Ariano, o folhetim As infâncias de Quaderna, publicado no jornal Diário de Pernambuco, o romance O Rei Degolado (que o escritor pretendia ser a continuação de sua trilogia, começada pela Pedra) e a novela mítica Ao sol da Onça Caetana. Visitaram, também, os dois rochedos gêmeos de São José do Belmonte, em Pernambuco, na divisa com a Paraíba, cenário real onde um certo João Ferreira vislumbrou o castelo encantado do rei D. Sebastião. Para desencantá-lo, comandou uma carnificina, que só não foi maior do que a mortandade das forças do governo e dos latifundiários que dizimaram, em meados do século 19, o grupo de "fanáticos".
Luiz Fernando Carvalho e equipe viveram, durante três meses, na cidade de Taperoá, sertão paraibano - cenário real e mítico de duas obras fundamentais de Ariano, o Auto da Compadecida e o Romance d´A Pedra do Reino. Taperoá, onde Ariano passou parte da infância e é o chão sagrado de sua família, se transmutou na Taperoá do personagem Quaderna. O elenco da microssérie é quase todo de atores nordestinos, a maior parte (até agora) desconhecida do grande público. O pernambucano Irandhir Santos dá vida a Quaderna, o personagem narrador do romance, misto de profeta, rei, poeta e palhaço. Com ele, atuam os paraibanos Luís Carlos Vasconcelos, Everaldo Pontes, Sôia Lira e Servílio de Holanda (que fazem parte do grupo de teatro Piolim). Também estão na microssérie os atores Cacá Carvalho (que faz o Juiz Corregedor), Marcélia Cartaxo (como a Tia Filipa) e Hermilla Guedes (de O Céu de Sueli). Todo o grupo teve aulas de cavalo-marinho com Mestre Salustiano e seu filho, Pedro Salustiano, que também encarnam personagens. Dois cearenses estão na trupe, o ator Nill de Pádua e a atriz e diretora Iziane Mascarenhas.
Iziane mora em Fortaleza, mas está no Rio de Janeiro para o lançamento da microssérie - que vai contar com aula-espetáculo de Ariano Suassuna, exposições e shows musicais. Ela faz três personagens. "Eu já conhecia o teatro de Ariano, todas as peças dele. Mas A Pedra do Reino nunca tinha lido. Eu estava no Cine Ceará, ano passado, quando soube da adaptação, comprei o livro pra ler. Preparei um material, currículo e mandei pro produtor de elenco. Eles me chamaram, pra uma entrevista em Taperoá. Quando fui, não sabia qual personagem iria fazer. Me surpreendi. Fiz três personagens, Clara Swendson - uma moça de cabelos louros e olhos azuis, uma cangaceira do bando de Ludugero Cobra Preta e a rainha Isabel, a degolada. A caracterização de Clara é linda", derrete-se Iziane, que diz que o visual da personagem foi decalcado na famosa tela Judith, do pintor Gustav Klint. Clara é "linda, gélida e sofisticada. Ela é uma cobra".
"Achei extraordinário isso do Luiz Fernando trabalhar com atores da região nordestina, que trazem nos seu corpo mais que uma história de vida - uma geografia humana", reflete. Iziane conta um pouco de como foi o processo de feitura da microssérie. "Primeiro, foi Fernanda Montenegro, lá, falar com a gente sobre delicadeza. Depois tivemos um encontro inesquecível com Ariano e fizemos aulas de cavalo-marinho e dança do ventre". Uma das cenas que mais marcaram Iziane é a do julgamento de Quaderna. "O diretor colocou todos os personagens em arquibancadas numa arena. Ele acredita que é isto mesmo, todos somos frutos da cabeça daquele homem de imaginação incrível".
Natural do Crato, no Cariri cearense, para Iziane, estar em Taperoá, nos Cariris Velhos da Paraíba, "foi uma volta às origens". Iziane, que também é jornalista, fez o curso de direção no extinto Instituto Dragão do Mar. Diretora do premiado O Céu de Iracema, ela é autora do argumento Lídia, sobre uma mulher do cangaço, que ganhou prêmio do Ministério da Cultura. Aqui, ela está concorrendo com dois editais para curtas, A Cangaceira, e outro com Rodger Rogério, Maria Parda. E está na batalha de captação de recursos para o longa Mar de Lama, roteiro dela e de Daniel Adjafre.
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