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Vida & Arte

ENTREVISTA

De Quaderna a Dom Pantero

Eleuda de Carvalho
da Redação

Ariano Suassuna diz, nesta conversa exclusiva, que é secretário da Cultura de Pernambuco desde 1946, fala sobre a microssérie baseada no seu Romance d´A Pedra do Reino, as festividades programadas para os seus 80 anos


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02/06/2007 17:19

(Dvulgação/TV Globo)
(Dvulgação/TV Globo)

Finzinho de março. Saímos cedo, sob chuva fina, para Recife, 800 km. De moto. Desta vez, viagem apertada, não deu para visitar Ariano Suassuna em sua morada, no bairro da Casa Forte, nem houve tempo pra ir à Várzea, ver a estranha e enigmática beleza da fábrica/oficina de Francisco Brennand, artista armorial. Na agenda, apenas o encontro, previamente marcado, por telefone, com Ariano Suassuna, lá mesmo no seu ambiente de trabalho, a Secretaria da Cultura, alojada, provisoriamente, numas salas em reforma da Fundarpe, a Fundação de Patrimônio Artístico e Histórico de Pernambuco - a Secretaria, recriada agora no governo de Eduardo Campos, havia sido extinta na gestão anterior, de Jarbas Vasconcelos. Antes de chegar ao endereço - rua da Aurora, bairro da Boa Vista, beira do oleoso Capibaribe, antes das pontes, à vista do centro histórico de Recife - o táxi pára num sinal, ao lado da praça Euclides da Cunha, com paisagismo de Burle Marx. Também conhecida por Cactário da Madalena, devido às plantas da caatinga que a ornam e ao bairro onde está encravada. O busto do autor de Os Sertões, livro tão caro ao mestre Ariano Suassuna, espia a paisagem, com seus sonhosos olhos de bronze.

No fim da rua da Aurora, o prédio, como dito, em reforma. Um entre o conjunto de casarões conjugados do século 19, com escadas de madeira e amplas salas repartidas por tabiques de fórmica, que deixam vazar todos os barulhos. Zunzum de vozes, uma música de banda, que ensaiava no térreo, pontuando a sinfonia dos martelos dos operários, uma leve poeira por todo lugar. Na ante-sala ampla, algumas pessoas já esperavam, em poltronas de outros tempos, a hora de ser atendidos pelo secretário. Chegou nossa vez. Ariano Suassuna à frente de uma mesa simples, a cadeira em que estava sentado com um remendo no espaldar, salinha apertada, sem avios (a não ser, no final, com o presente que levamos para ele, antecipando a comemoração do seu aniversário de 80 anos, um painel em couro, com motivo afro-brasileiro, do artista gaúcho Sílvio Rebelo). Abraços, tanta saudade, digo, e ele, gentil cavalheiro, se põe à disposição.

Na salinha, além de mim e Chico Hardt - de máquina fotográfica em punho, registrando as expressões do artista, durante a hora e meia da conversa, o subsecretário Carlos Newton Jr., poeta, professor da UFPE e ex-aluno de Ariano, e a assessora de imprensa, jornalista Adriana Victor (que anotava tudo num caderninho). Ariano falou de seu trabalho como secretário de Cultura - encargo que ele assumiu, ainda rapazinho, quando realizou sua primeira aula-espetáculo. Disse da emoção ao ver A Pedra do Reino adaptada pelo teatrólogo Antunes Filho e contou sobre a versão para tevê feita por Luiz Fernando Carvalho, que estréia no dia 12.

Ao final, revelou, pela primeira vez, o título do livro que ele vem escrevendo há um bom tempo, todo manuscrito e ilustrado. Quando acabou a entrevista, fomos visitar o novo ponto cultural de Recife, a Livraria Cultura, um mundo!, anexa ao belo prédio que abriga o Paço da Alfândega, com seu piso decorado por mosaicos criados pelo artista Guilherme da Fonte, inspirados nos desenhos que Ariano fez para o seu Romance d´A Pedra do Reino. Cada um dos ambientes do Paço leva o nome de uma das obras dele. No pátio central, exposição de óleos sobre tela do artista plástico e dramaturgo Romero de Andrade Lima. Numa mesa do café, diante de uma xícara vazia, de óculos amarelos, o músico Fred Zero Quatro. (Eleuda de Carvalho)


O POVO - Soube que estão sendo programados diversos eventos, em Recife e no Rio de Janeiro, para celebrar seu aniversário, em 16 de junho. Como é que você vai dar conta de tanta festa?
Ariano Suassuna - Minha filha, eu tava dizendo: se eu soubesse que completar 80 anos era um crime tão grande, tinha morrido com 79! Vou lhe dizer uma coisa, tô pagando uma pena grave. Inventaram de fazer o que você imaginar e o que você não imaginar. E eu estou preocupado, porque vou ter que procurar um dom que só Deus tem, o da ubiqüidade. Vou ter que estar em dois lugares ao mesmo tempo, pelo que tô vendo...

OP - Por falar em festa, assim que cheguei em Recife me contaram da festa de sua posse como secretário da Cultura.
Ariano Suassuna - Dei uma aula-espetáculo, dando início oficial às atividades da Secretaria. Resolvi fazer no teatro Santa Isabel porque, como eu disse lá no dia, Eleuda, aos 19 anos de idade assumi, por minha conta, o cargo de secretário de Cultura do Pernambuco, e nunca mais larguei, esteja nomeado ou não. E, nessa condição, assumi também uma defesa da cultura brasileira, em geral, e da cultura popular brasileira em especial. No dia 26 de setembro de 1946, eu tinha então 19 anos, levei, pela primeira vez, para o palco do Santa Isabel, um poeta popular e três cantadores, e demos a primeira aula-espetáculo da minha vida. Então, queria começar as atividades da Secretaria lá. Quando fui secretário da outra vez, fundei, juntamente com um músico chileno que mora aqui, Rafael García, que tinha participado do Movimento Armorial como violinista, agora ele é regente, com ele fundei um grupo de música jovem, chamado Camerata Armorial. Quando foi agora, chamei novamente Rafael pra gente reativar a Camerata. Aí juntamos muitos músicos, eu organizei um programa, com músicas de Jarbas Maciel, de Clóvis Pereira, de Capiba, Guerra Peixe, e fizemos uma grande aula-espetáculo, usando dois bailarinos, uma moça com formação em dança contemporânea e um dançarino negro de origem popular, aqui da favela Chão de Estrelas. E este bailarino, além do grande artista que é, é um herói. Porque ele criou um centro social lá, com a ajuda de um, de outro. Enfim, ele criou um centro cultural lá, chamado Daruê Malungo, que é uma secretaria de cultura! Chamei ele pra exercer um cargo aqui na Secretaria, ele está trabalhando com a gente. Chama-se Gilson Santana, o mestre Meia Noite, como mestre da capoeira que ele é. A bailarina chama-se Maria Paula Costa Rego. Então, juntei os dois, para dançar o Bolero de Capiba. Repare: a aula começou com várias músicas, depois teve o Bolero de Capiba tocado e dançado, e terminamos com uma história que escrevi, acompanhada com música, chamada A Onça, os Guinés e os Cachorros, baseada em temas de ternos de pífano. No dia, estava presente Ciro Gomes. E ele ficou entusiasmado, e quer levar pro Ceará. Eu disse a ele, vai sair muito caro, tem muito músico... Ele disse, dá-se um jeito! E eu tô pensando no seguinte... Em Fortaleza tem orquestra sinfônica, não tem? Ele leva o regente, que vou sugerir que seja Clóvis Pereira, os dois bailarinos e eu. Sai mais barato e é muito mais fácil. E a gente apresenta!

OP - É verdade que a Secretaria de Cultura tinha sido extinta, no governo anterior?
Ariano Suassuna - Foi. Ficou a Fundarpe, ligada à Secretaria de Educação. Agora, quando o governador Eduardo Campos foi eleito, resolveu recriar a Secretaria e me chamou, mas eu não queria aceitar, tá certo? Porque, eu digo, não aguento mais não aquelas confusões, é muito papel pra assinar. Mas ele insistiu, disse, vamos fazer o seguinte - deixa a Fundarpe onde ela está, vou mandar pra Assembléia o projeto recriando a Secretaria, diretamente ligada ao meu gabinete, você não lida nem com verba nem com papel, vai fazer somente seu trabalho criador. Aí achei que ficou uma coisa razoável, pelo seguinte - e isso aí eu disse mesmo a ele, ó, você se lembre que nem todos gostam de Ariano Suassuna e estão de acordo com as idéias de Ariano Suassuna. Então, vamos fazer o seguinte: a Secretaria fica somente pra fazer o que eu e você achamos que procede. Agora, a Fundarpe continua atendendo a outras pessoas que tenham outras idéias. Tanto que, no dia (da posse), eu só soube depois, na hora não vi. Fui chamado de tirano. Mas não sou tirano não, tanto assim que a gente combinou isso, as pessoas de todas as tendências têm um atendimento por parte do governo, só que não é através da Secretaria, na Secretaria a gente faz o que acha que deve ser feito. Eu seria um tirano se criasse um empecilho, mas isso nunca fiz. Na outra vez (no segundo governo de Miguel Arraes, 1994-1998)já era assim, só que não era oficializado, tá certo? Eu, na Secretaria, fazia o trabalho que acho que deve ser feito e ele próprio, Eduardo Campos, que era o secretário da Fazenda, através da Fundarpe - que era dirigida por Raimundo Carrero, por indicação minha - atendia essa outra parte. Veja que coincidência curiosa. Completei 70 anos como secretário de Cultura do doutor Arraes. Vou completar 80 como secretário de Cultura do neto dele.

OP - E trabalhando com pessoas próximas, amigas, como Carlos Newton Jr., por exemplo...
Ariano Suassuna - É claro! Tenho que trabalhar com gente que se entenda comigo, inimigo meu é que não vou botar aqui, que não sou doido!

OP - Você esteve em Taperoá, acompanhando as filmagens da microssérie baseada em seu romance?
Ariano Suassuna - Estive. Só fui duas vezes, porque estou muito ocupado, Virgem-Nossa Senhora! Pois bem. Estive lá, antes mesmo de começar a filmagem, passei uma semana lá, com Luiz Fernando Carvalho. Naquele momento, ele estava procurando lugares pra filmar. Mas estive lá sobretudo pra combinar a adaptação. Ele foi, com os dois adaptadores que trabalham com ele, Braulio Tavares, que você conhece, e Luís Alberto de Abreu, que conheci só aí, mas com quem me entendi muito bem, inclusive, achei um homem de muita sensibilidade. Ele já tinha trabalhado com Luiz Fernando naquela série Hoje é dia de Maria. Então, passei uma semana lá e escrevi inclusive um final, especialmente para o seriado. Porque tem aquelas coisas que ficaram inconclusas n´A Pedra do Reino. Escrevi um pequeno texto, não sei como ele aproveitou, porque eu não quis ver a adaptação, pra ter um impacto...

OP - Mas este texto final...
Ariano Suassuna - ... está inédito. Hoje (26 de março) assinei uma autorização, porque parece que Luiz Fernando vai fazer um livro com estas coisas laterais. Vai ter texto dele e parece que vai sair o meu texto até manuscrito, dei o manuscrito a ele. Terminei, por exemplo, a história da morte de D. Pedro Sebastião, até deixei Braulio muito frustrado. Porque uma das paixões de Braulio é romance policial, e ele disse que passou estes anos todinhos quebrando a cabeça pra saber como é que D. Pedro Sebastião tinha sido assassinado. E ele até me disse uma coisa que eu não sabia, que aquilo é uma situação emblemática do romance policial, chama-se "crime em quarto fechado". Agora, eu, por acaso, tinha lido, quando era menino, um romance policial onde tinha um crime desse. Aliás, li dois romances policiais que tinham crime em quarto fechado. Um chamava-se Na pista de um alfinete novo, o outro, A pista da vela dobrada (ambos de Edgar Wallace). Não sei se você se lembra, mas tem uma brincadeira com isso n´A Pedra do Reino. Tem uma hora que o corregedor pergunta a Quaderna, "mas não ficou nenhum indício?", e ele fala, "com indício, aí é besteira! Aqui é um enigma brasileiro".

OP - E como foi que você resolveu o enigma da morte de D. Pedro Sebastião?
Ariano Suassuna - A solução que eu dei, porque era assim que eu havia pensado, é a seguinte: os dois gaviões da Morte Caetana... Porque a torre tem umas seteiras, mas pra passar uma pessoa não dá. Então, os gaviões entram pela seteira, lá dentro se transformam em dois arcanjos sinistros, um com um longo punhal na mão, o outro com um ferro incandescente. O do punhal mata D. Pedro Sebastião e o do ferro ferra ele no ombro. A solução é essa. E também escrevi um começo, que não sei se Luiz Fernando usou, e dei a ele um texto, que foi publicado somente no Diário de Pernambuco, As infâncias de Quaderna. Pois bem. Ele pegou este texto e sei que usou alguma coisa. E escrevi a morte de Arésio, irmão de Sinésio. Porque você se lembra que Sinésio sai com Quaderna na busca do tesouro. Um dia, quando eles estão num determinado trecho, de repente Sinésio tem uma espécie de premonição e sai de mata a dentro. Quando percebem a falta, o pessoal sai atrás, preocupado, quando chegam, ele está com o irmão, todo alanceado, todo ferido, com os mesmos ferimentos do pai (D. Pedro Sebastião). Sinésio está sentado no chão, Arésio deitado, com a cabeça no colo do irmão. E escrevi também o primeiro encontro de Sinésio com Heliana, ainda ela com 12 anos ou 13, em 1930. E escrevi um final... Quem denunciou Quaderna foi o próprio Quaderna, rá-rá-rá! Com medo de não ter importância, ele manda aquela carta anônima, se apresentando como um sujeito altamente perigoso. Agora, no fim, o Corregedor o absolve. Disse: - Olhe, você é é doido! - Não faça uma desgraça dessa comigo! - Mas não vou condenar você. - Mas então, pelo menos deixe eu ficar vindo aqui na cadeia, porque ouvi dizer que Cervantes terminou o D. Quixote preso, quero terminar meu livro preso também. Aí o Corregedor dá licença de ele ficar vindo. Então, escrevi este final também, e concluo com um texto de Olavo Bilac sobre Os Sertões, mas ele aplicando a ele mesmo, Quaderna.

OP - E como foi seu encontro com os atores da microssérie?
Ariano Suassuna - Depois dessa semana que passei lá com eles três, Luiz Fernando pediu que eu voltasse, já depois de ter convocado todo o elenco. Ele queria que eu tivesse uma conversa com os atores. Ele levou Fernanda Montenegro, que deu uma demonstração de generosidade enorme, deu uma aula de delicadeza. Levou também um psicólogo, chamado Roberto Byington - é pai de uma cantora, Olívia Byington, e de uma atriz, Bianca. Eu nem sabia, depois me encontrei com ele na Bahia, e ele aí me disse que tinha estado em Taperoá, unicamente pra falar sobre os arquétipos junguianos, a especialidade dele. E fui, conversei com cada um.

OP - E o ator que faz Quaderna, o pernambucano Irandhir Santos. O que você falou pra ele?
Ariano Suassuna - Não vi nada da representação, das filmagens. Pra mim também vai ser uma surpresa... Agora, tive uma impressão excelente dele. Ele deu uma entrevista e disse que, na visão dele, toda a busca de Quaderna era a busca de Deus, pronto. Fiquei satisfeitíssimo com isso, porque ele entendeu que, por trás de toda aquela fumaça, aqueles fogos de artifício que Quaderna costuma soltar em redor de si mesmo, era no fundo a busca de Deus. E ele nem me conhecia pessoalmente. Li esta entrevista antes de conversar com ele. No dia da aula lá eu disse isso pra ele, em público, que tinha certeza que ia sair bom porque ele tinha mostrado uma compreensão enorme do personagem.

OP - Sua confiança na equipe...
Ariano Suassuna - Confiança total. Conheço Luiz Fernando Carvalho. Me perguntaram outro dia, você acha que vai ter o mesmo sucesso do Auto da Compadecida? Aí eu digo, olhe, sempre faço uma distinção entre êxito e sucesso. O sucesso é uma coisa que pode vir ou pode não vir. Agora, tenho certeza que vai ser uma grande obra de arte e, portanto, um êxito artístico. Porque conheço Luiz Fernando, conheço a moça que faz os figurinos, Luciana Buarque, que já trabalhou com Romero (de Andrade Lima), é ligada a nós demais. Trabalhou com Luiz Fernando, em outras ocasiões. Agora, eu, pessoalmente, acho que não vai ter o sucesso do Auto da Compadecida não. Primeiro, porque o Auto é uma obra mais popular. A Pedra é uma obra muito mais complexa e não acredito que o público comum vá acompanhar completamente. Mas às vezes surpreende... Veja bem, a gente tem que distinguir. Mesmo dentro do meu próprio trabalho de escritor. Porque a minha poesia, por exemplo, não tem o mesmo sucesso que o Auto da Compadecida. Nem pode ter, nunca. Pela ordem, o Suassuna mais popular é o dramaturgo. O romancista já é menos e o poeta, menos ainda. A experiência que vamos fazer agora é com o romance, que é mais popular que minha poesia, mas muito menos que meu teatro.

OP - Estive em 1998, no teatro Santa Isabel, vendo o recitativo d´A Pedra do Reino...
Ariano Suassuna - Não foi no Santa Isabel, foi no Teatro do Parque. Um recitativo criado por Romero de Andrade Lima, ele escreveu. Foi vaiado, você estava lá, viu.

OP - Metade aplaudiu, metade vaiou.
Ariano Suassuna - Foi! Até fiz uma brincadeira com isso. No novo romance que estou escrevendo, digo que foi uma nova "Batalha do Ernani". Esta famosa batalha foi quando o romantismo estava nascendo na Europa, então Victor Hugo, um jovem representante do romantismo, escreveu uma peça chamada Ernani (1844). E no dia da estréia foi uma briga, entre os favoráveis e os contrários. E ficou conhecida como a Batalha do Ernani. Foi o começo do romantismo na França. Eu então disse que aquela noite lá foi uma nova "Batalha do Ernani".

OP - E a montagem d´A Pedra do Reino, do diretor Antunes Filho (2005)?
Ariano Suassuna - Ficou excelente! Olhe, eu tinha a impressão de estar vendo uma peça minha! Lança luzes, inclusive, sobre meu teatro. Agora, é completamente diferente do trabalho do Luiz Fernando. O ator que fez o Quaderna é ótimo. Ele fez de Quaderna um quase João Grilo, que é um personagem teatral. O ator é ótimo, um goiano de nome muito estranho, Lee Thalor. É excelente, uma dicção excelente, uma presença de palco extraordinária. Vi e gostei muito, gostei muito mesmo. Vi duas vezes. Fui no dia da estréia, mas estava nervoso, porque era uma incógnita pra mim, e eu tinha medo, um romance de 700 páginas reduzido pra uma hora e meia de teatro, não é? E, além do mais, o ambiente de estréia é muito tumultuado e o público é diferenciado, a gente não pode saber, quase todo mundo de teatro. Teve muito êxito. No primeiro dia, gostei. Mas depois voltei a São Paulo, uns dois meses depois, e assisti sozinho. E gostei mais ainda. Porque aí eu vi sossegado e ri com o público, que era um público comum. Tá vindo pra cá pro Recife, pelo que eu soube.

OP - Espero que chegue até Fortaleza... Mas, me conte sobre o livro novo.
Ariano Suassuna - Eu já estou desacreditado, ninguém acredita mais em mim... Não quero dizer mais nada...

OP - Mas você continua escrevendo o livro.
Ariano Suassuna - Aos trancos e barrancos, e agora ainda mais, com esta loucura de aceitar a Secretaria...

OP - E ainda tem as viagens. Você está chegando de Minas Gerais...
Ariano Suassuna - Dei uma aula em Brasília, de Brasília peguei um avião pra Belo Horizonte, de Belo Horizonte peguei um carro, fiz uma viagem de quatro horas pra Tiradentes, dei uma aula, voltei de carro pra Belo Horizonte, esperei duas horas de atraso no aeroporto, cheguei em Brasília, esperei mais tempo, cheguei em casa às duas e meia da manhã, era pra chegar às dez da noite. E comecei a viagem às dez da manhã! Mas teve uma coisa proveitosa. Finalmente, vi os Profetas de Aleijadinho, que eu falo tanto e nunca tinha ido. Pense, num homem emocionado! Fui eu, lá em Congonhas.

OP - Sim, e o livro...
Ariano Suassuna - Vou voltar ao plano original. Vou incluir A Pedra do Reino, no geral, e vou concluir. Inclusive, baseado nesta conclusão que escrevi lá pra Luiz Fernando. Com isso, concluo a odisséia...

OP - Vai ser incluída também a poesia, marco inicial de sua trajetória como artista?
Ariano Suassuna - Estou fundindo o meu teatro com a minha poesia e com o romance, neste livro que estou fazendo... Vou lhe dizer uma coisa que não disse a ninguém ainda, vou lhe dizer. O conjunto chama-se A Ilumiara ou Romance de Dom Pantero na estrada do descaminho. E o primeiro romance chama-se O jumento sedutor.

OP - Que horas você escreve?
Ariano Suassuna - De manhãzinha. Mesmo quando não estou secretário. Eu não escrevo à tarde, nem de noite, senão perco o sono. Só escrevo de manhã. Acordo cedo, sossegado, com a cabeça descansada. E escrevo disciplinadamente, todo dia.


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Publicado em 02.02.2007, JORNAL DO COMMERCIO, caderno especial 10 anos da morte de Chico Science

O Rio Beberibe divide a Campina do Barreto, no Recife, de Peixinhos, Olinda. Uma localização geográfica típica da Região Metropolitana, onde os limites entre as cidades que a formam são confusos. Por isso é que geralmente se situa em Peixinhos a comunidade Chão de Estrelas, onde funciona a organização não-governamental Daruê Malungo, que na realidade fica no bairro da Campina do Barreto.

A Daruê Malungo existe desde 1984 e, oficialmente como ONG, desde 1988. Foi idealizada por Gilson Santana, o mestre Meia-Noite, ex-integrante do Balé Popular do Recife, para trabalhar com menores carentes de Chão de Estrelas: "Gilmar, Toca, Canhoto, Gira tocavam no Lamento Negro. Era uma época em que a percussão estava badalada, porque o bloco baiano Olodum estava no auge, muita gente se interessava. Então Chico passou a freqüentar o Daruê Malungo, os ensaios do Lamento Negro, mas dando uma direção para a música que ele pretendia fazer", relembra Meia-Noite, mais conhecido na comunidade como Chau.

A ONG fica na Rua Passarela,

aula-espetáculo No reino da Pedra Verde (Sagração nº 1), com a qual ele deu início à sua segunda gestão à frente da Secretaria de Cultura, do governo do Estado, sexta, à noite, no Teatro de Santa Isabel.

O concerto da Camerata Armorial (formada por jovens músicos do Centro de Criatividade Musical, na Rua da Aurora), passeou por meia dúzia de peças que foram apresentadas, há 37 anos, no Pátio de São Pedro, pela Orquestra Armorial, no concerto que deflagrou o movimento. A gênese de cada composição foi explicada de forma didática pelo secretário. No Reino da Pedra Verde, por exemplo, de Clóvis Pereira, foi baseada num aboio do repentista Zé Vicente da Paraíba. Sem lei nem rei, de Capiba, é título de uma obra de Maximiano Campos (pai do governador Eduardo Campos). O bolero, de Capiba, teve a participação dos bailarinos Maria Paula da Costa Rêgo (do Grupo Grial de Dança), e Gilson Santana música incidental de Clóvis Pereira, cujo leit motiv é A briga do cachorro com a onça, Cangati, o vira-latas, com cuja ajuda é capturada a onça, que comia os guinés da fazenda, é o mesmo João Grilo do Auto da Compadecida, que representa o Brasil real. O pedante e frouxo cão de raça, Twinkle, metáfora dos integrantes do outro Brasil.

Depois da leitura do texto, que acaba com um "Para a grandeza do povo brasileiro, agora e para todo o sempre, amém", Ariano Suassuna declarou a aula por encerrada, e sua gestão por iniciada, sob aplausos da platéia, que lotou o vetusto teatro.

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