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EXPOSIÇÃO

A dama da arte

A artista plástica Heloísa Juaçaba abre hoje, logo mais à noite, no La Bohème Restô, a exposição percursos. Nela, uma retrospectiva dos últimos 20 anos de sua criação artística

Regina Ribeiro
da Redação

31 Mai 2007 - 01h48min

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Heloísa Juaçaba apresenta 16 obras inéditas. A artista plástica está envolvida na cena cultural cearense há mais de 40 anos (Foto: Patrícia Araújo/Especial para O POVO)
Foi por saudade. Ela conta, sentada no ateliê, uma sala pequena no amplo apartamento à beira-mar onde mora, e diz que, às vezes, quando sente saudade de um tempo, volta às tintas e pincéis. Heloísa Juaçaba vai ao bloquinho de notas para contar os quadros. Ao todo são 16 que compõem a exposição Percursos, uma retrospectiva de sua obra, que será aberta hoje à noite, no Restaurante La BohÕme, na Varjota. Lá estarão as paisagens dos tempos em que a natureza de Guaramiranga foi parar nas telas, na fase impressionista da pintora, que narra sua história junto com a das artes plásticas cearenses dos últimos 45 anos. Lá estarão também as marinhas, pelas quais Heloísa esteve apaixonada por uma época. É que da varanda da sua casa, entre as esculturas do Cizin, o mar brinca e conversa embalando histórias que vão parar nas telas. "Ele me inspira com seu colorido e seus navios de carga que vejo daqui. A natureza é tão linda. Olhe, o próprio Raimundo Cela pintou tanto o mar, as jangadas, sua gente... É da natureza que tiramos os melhores temas", diz, tão calma naquele final de tarde da última segunda-feira, aquela senhora já na casa dos 80 anos, que carrega saudades e lembranças que saltam da memória e vão parar na vida de gerações de artistas.

É que, quando dona Heloísa largou os cadernos Rubens, onde rabiscava desenhos, o século XX já estava na metade. Antes disso, havia pintado o retrato da mãe, dona Hermínia, e deixou a família desconfiada do talento da moça para a arte da pintura, mas lá isso não era coisa que parasse o mundo. Foi já casada que tornou-se artista. Uma das poucas, contavam-se nos dedos, naquela época, as mulheres que tinham esse atributo antes do nome: artista. Ela fazia companhia para Maria Nice (a Nice, mulher do Estrigas), Lúcia Galeno, Dayse Montenegro. Participou da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (Scap), movimento que tinha à frente mais escritores que artistas plásticos, lembra. E foi lá que aderiu à "filosofia" das artes e recebeu influência de pintores como Mário Baratta. Sem esquecer o professor cubista Floriano Teixeira, de quem recebeu aulas. Floriano tornou-se uma referência do cubismo no Ceará e já era famoso por ilustrar os livros do escritor baiano Jorge Amado.

Enquanto pintava, criava cinco filhos. Ela mesma os levava para a escola. Do marido, o médico Haroldo Juaçaba, ganhou não apenas os primeiros pincéis e telas, recebeu o apoio que precisava para "harmonizar" a rotina doméstica e a criação do Centro de Artes Visuais, que depois se transformou em Casa de Cultura Raimundo Cela, que está completando 40 anos este ano. 1967, em plena ditadura militar, estava sendo criado em Fortaleza um reduto das artes. Dali saíram gerações de artistas gestados à base de cursos de formação oferecidos pela Casa, de experimento, de liberdade. "São mais de 30 ou 40 artistas que estiveram ali e que hoje são reconhecidos pelo seu trabalho nas artes. Eram quase meninos na época", recorda. Dona Heloísa fala de Sérgio Lima, José Guedes, Siegbert Franklin, Hipólito Rocha Júnior, Roberto Galvão, Descartes Gadelha, Jane Lane, Fausto Lima. A lista é longa. Ela fica aflita com a legião de outros nomes. Sem escola de artes no Ceará, a Casa Raimundo Cela terminou funcionando como uma escola e espaço de criação artística com influência dos modernistas numa época em que pintura não era vista como profissão. "Havia nas famílias uma preocupação de que pintura era coisa de quem não tinha o que fazer", conta sorrindo, lembrando-se de Aldemir Martins, que refutava a crítica dizendo que um homem pintor era o que mais trabalhava".

A artista esteve às voltas também com o Museu de Arte e Cultura Popular, que abriu com 920 peças do seu acervo particular. Nas andanças com o marido pelo Ceará ia conhecendo e arrebanhando peças produzidas por artistas populares que, segundo ela, são os que melhor traduzem a alma do povo. "Montei o museu junto com o Pedro Valadares numa época em que a museologia não era comum entre a gente, mas fizemos e Pedro dizia que aquele era o museu da verdade", conta. E sobre os novos tempos das artes? Dona Heloísa pára, vai buscar as palavras cuidadosamente: "Tem muita coisa boa e muita coisa espirituosa que reflete mesmo esses momentos de incertezas que se vive no Brasil em todos os sentidos, seja na política, seja na segurança, mas a arte ajuda a gente a viver". Atualmente a filha Ana Virgínia está inventariando os documentos dos feitos da mãe. Tudo artesanalmente, sem scanner, tudo em pastas com plásticos: papéis datilografados ou escritos a mão. E-mail? "Vixe! Não", dá risadas. "Ainda escrevo minhas cartas de próprio punho. Mas vou à casa de minha filha quando quero ver minha neta que mora nos Estados Unidos, conversar com a mãe dela no computador. Aparece tudo, eu acho incrível".


SERVIÇO

Percursos - Exposição da artista Heloísa Juaçaba no La BohÕme Restô, hoje, às 20h30. O restaurante fica na Rua Silva Jatahy, 1404 , na Varjota. Informações pelo telefone: 3242.6541.

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