Vida & Arte
CINE CEARÁ
Sonho da juventude
A 17ª edição do Cine Ceará começa sua programação amanhã, com a exibição do longa-metragem de ficção A Ilha da Morte, de Wolney Oliveira, às 20h, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro. O filme se inspira na história de jovens cineastas cubanos retratados em O Invasor Marciano, documentário de Wolney, que também é diretor do Cine Ceará
Camila Vieira
da Redação
31 Mai 2007 - 01h48min
Wolney aproxima a paixão pelo cinema do protagonista Rodolfo Salas (Caleb Rosas) com a do garotinho Toto, do filme italiano Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. "Estou longe de querer comparar, mas me inspirei bastante nesse filme. Rodolfo usa vários artifícios para conseguir fazer cinema. Qualquer pessoa que não tem sonho está morta". O encantamento, o idealismo e o romantismo dos personagens de A Ilha da Morte acabam sendo traduzidos de maneira formal no filme, principalmente nas cenas entre Rodolfo e a jovem por quem ele se apaixona, Laura (Laura Ramos).
Enquanto a mãe de Rodolfo - uma professora de violino - apóia a vontade do jovem em ser cineasta, o pai militante, Ambrósio, não quer ver seu filho envolvido com cinema, mas sim preocupado com a revolução cubana que ia de encontro ao regime opressor do ditador Fulgêncio Batista. "Se quer viver de arte, assuma as conseqüências", diz Ambrósio, personagem que representa uma figura oposta ao próprio pai de Wolney, Eusélio Oliveira, que sempre incentivou o cearense na sua formação como cineasta. "Na construção do roteiro, era fundamental que tivesse o conflito entre pai e filho. Estou fazendo cinema por imposição do meu pai, mas isso acabou virando meu sonho. Ambrósio é o típico guerrilheiro comunista, que queria impor a luta pela revolução no Rodolfo. Nesse ponto de imposição, ele se parece com meu pai. Por ter personalidade forte, meu pai queria que eu agisse como se fosse ele".
Apesar do sonho de fazer cinema seja a principal motivação de A Ilha da Morte, o filme não descarta o contexto político em que a história se situa. Na linha de frente da repressão, o coronel Duarte (Cláudio Jaborandy) afirma que "os artistas não devem se meter em política" e acaba censurando o filme mudo realizado pelos jovens cubanos, que dá título ao longa de Wolney. "A política tem relevância, mas fica em segundo plano em relação ao sonho dos protagonistas. Não queria tornar o filme panfletário, mas não tinha como não me reportar à revolução. Até porque os personagens reais que abordo em O Invasor Marciano passaram por isso, na década de 50 e 60".
Analisando os documentários que já realizou em sua carreira, Wolney acredita que todos já tinham uma "pitada de ficção", embora A Ilha da Morte seja de fato seu primeiro longa-metragem de ficção. Co-produzido entre Brasil, Cuba e Espanha, o filme passou por várias fases de roteiro, com a ajuda dos cubanos Manuel Rodríguez e Arturo Infante e do espanhol Alfonso Vilas. Boa parte do elenco conta com atores cubanos, mas há também cearenses como Zé Tarcísio, Antonieta Noronha e Rodger Rogério. "Como meu filme é falado em espanhol, tenho possibilidade de distribuí-lo em todo o mercado latino e espanhol. No cinema brasileiro, o grande nó ainda é a distribuição. Para lançar um filme no Brasil, é preciso ter no mínimo R$ 600 mil. E uma cópia com legenda em português não sai por menos de R$ 11 mil", diz Wolney, que pretende em breve realizar um longa de ficção inspirado no seu documentário Os Presentes de Dom José, de 1990.
SERVIÇO
17º Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema - De 1º a 8 de junho, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro (Praça do Ferreira), Casa Amarela Eusélio Oliveira (Av. da Universidade, 2591 - Benfica) e Espaço Unibanco Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 - P. de Iracema). Amanhã, às 20h, abertura do festival com a exibição de A Ilha da Morte, de Wolney Oliveira. Das 8h às 18h, as credenciais podem ser adquiridas mediante a doação de um quilo (1kg) de alimento não-perecível em postos de atendimento, no Centro Cultural Sesc Liz Severiano Ribeiro, Casa Amarela, Unifor e Centro Dragão do Mar. A credencial permite a entrada em todos os locais de exibição do Cine Ceará, exceto às solenidades de abertura e encerramento do Festival. Info.: 3366.7772.
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