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Vida & Arte

ASA BRANCA

Quando o verde dos teus olhos...

Há 60 anos, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, lançavam Asa Branca, considerada hino do Nordeste do País. Para lembrar a data, o Kukukaya abre exposição e promove shows de forró


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25/05/2007 02:10

Luiz Gonzaga lançou Asa Branca em 1947(Foto: DIVULGAÇÃO)
Luiz Gonzaga lançou Asa Branca em 1947(Foto: DIVULGAÇÃO)

Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Asa Branca, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (1947)


Um belo dia, o compositor cearense Humberto Teixeira estava no seu escritório de advocacia, na Avenida Calógeras, no Centro do Rio de Janeiro, quando o sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga o procurou pela primeira vez. Naquela tarde, das quatro horas até meia-noite, os dois discutiram o lançamento da música nordestina no Sudeste, o Baião, e compuseram os primeiros versos daquele que se tornaria o maior sucesso da dupla: Asa Branca. Só dois anos depois, em 3 de março de 1947, a música, que não é baião, mas uma toada, foi gravada pela RCA com o conjunto de Canhoto e lançada em maio daquele ano num disco de 78 RPM com a composição Vou Pra Roça.

No estúdio de gravação, o Rei e o Doutor do Baião tiveram de ouvir uma porção de caçoadas. "Mas, puxa, vocês depois de um negócio desses, de sucessos, vêm cantar moda de igreja, de cego, aqui? Que troço horrível!", diziam os músicos do conjunto. "Mal sabiam eles que nós estávamos gravando ali uma das páginas mais maravilhosas da música brasileira", relatou Humberto Teixeira, em entrevista para o pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, em 1977, publicada no O POVO, em 1994 e em 2000. Eleita pela Academia Brasileira de Letras em 1997 como a segunda canção brasileira mais marcante do século XX, empatada com Carinhoso, o choro que Pixinguinha compôs em 1917, e seguida apenas de Aquarela do Brasil, composta por Ari Barroso em 1939, Asa Branca completa aniversário de 60 anos e ganha homenagem no Espaço Cultural Kukukaya.

A exposição comemorativa, elaborada pelo pesquisador pernambucano radicado no Ceará Paulo Vanderlei Tomaz, reúne todas as capas de álbuns de Luiz Gonzaga, incluindo o disco de cera original da primeira gravação do clássico, fotos, documentos e objetos pessoais de Humberto Teixeira, além de filmes e documentários dos anos 40 e 50, como É com este que eu vou (1948) e E o Mundo Se Diverte (1956), com imagens do velho Lua dançando xaxado. Além da exposição, o evento conta com a participação da filha de Humberto Teixeira, a atriz Denise Dummont, radicada em Nova York, que vai falar do documentário O Homem que Engarrafava Nuvens, produzido por ela e dirigido por Lírio Ferreira, sobre a vida e obra do compositor cearense. Também haverá show do sobrinho de Luiz Gonzaga, Joquinha Gonzaga, e do ator e humorista João Cláudio, considerado um dos melhores imitadores do Rei do Baião.

A epopéia nordestina, segundo catalogação feita pelo pesquisador Paulo Thomaz, que há 18 anos coleciona material sobre Luiz Gonzaga, ganhou pelo menos 380 regravações nacionais e internacionais ao longo dessas seis décadas. "Certamente deve haver mais de 400", calcula o pesquisador. "Eu acho que para o Norte e Nordeste do Brasil essa é a música mais importante que já foi feita. Se o Nordeste fosse um país, Asa Branca seria com certeza o hino", acredita. O pesquisador, que ainda criança conheceu de perto Luiz Gonzaga, em Exu, Pernambuco, terra natal do músico, é dono do site Luiz "Lua" Gonzaga (luizluagonzaga.com.br), que reúne discos, vídeos, fotos, biografia, entrevistas e uma seção curiosa chamada "Causos do Rei", onde fãs e amigos contam histórias, pontuando a personalidade forte de "cabra macho", mas sempre com um jeitão muito amigo e afetuoso.

Para o pesquisador Nirez, o motivo de tanto sucesso para Asa Branca tem, entre outras explicações, o modismo em torno da música de origem sertaneja, que havia tido momentos de pico em 1922, com o conjunto Turunas Pernambucanos, e em 1928, com Turunas da Mauricéia, e foi retomado nos anos 1940. "A primeira gravação de Noel Rosa, Minha Viola, é sertanejo. Ele também embarcou nessa. Tudo o que era sertanejo era sucesso", conta. Segundo o pesquisador, nos idos de 1946, Ceará e Pernambuco estavam muito bem representados no cinema, rádio e música, no Sudeste, especialmente, no Rio de Janeiro, com Quatro Ases e Um Coringa, Vocalistas Tropicais, Gilberto Milfont e os compositores Valdemar Ressurreição e Valdemar Gomes e o locutor da Rádio Nacional, César de Alencar. Só para citar alguns. "Então juntou tudo isso e a música nordestina teve um impulso, exatamente dentro desse impulso que surgiu Asa Branca, Juazeiro", recorda. Mais tarde, a obra-prima inspirou nos anos 1970 a retomada da música nordestina, em geral, e o culto a Luiz Gonzaga, em particular, por iniciativa dos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil.(Juliana Girão)


SERVIÇO
Asa Branca: 60 Anos - Abertura da exposição comemorativa e shows com Joquinha Gonzaga e o humorista João Cláudio, além da presença da filha do compositor cearense Humberto Teixeira, Denise Dummont, a partir das 19 horas, no Espaço Cultural Kukukaya (Avenida Pontes Vieira, 55 - Dionísio Torres). Informações: 3227.5661. A programação conta ainda com show com Dorgival Dantas gravando seu primeiro DVD, hoje, e com Flávio José, amanhã (dia 25).

CAUSOS DO REI

O sanfoneiro pernambucano Dominguinhos é discípulo do Rei do Baião, desde meados dos anos 50 quando passou a tocar, cantar, fazer shows e participar de gravações e viagens ao lado de Luiz Gonzaga. A música Asa Branca faz parte do seu repertório de shows há anos. "Asa Branca é uma espécie de hino da seca, das dificuldades do nordestino, é como a Triste Partida, de Patativa do Assaré", acredita. Neste depoimento, ele conta como Luiz Gonzaga ficava "invocado", ao ser perguntado só sobre seu maior sucesso nas entrevistas para jornalistas.
"Asa Branca é de uma importância fundamental na saga de Luiz Gonzaga. Teve uma época que ele já avisava para os jornalistas: 'se for falar só de Asa Branca, não tem entrevista. Eu não sou autor de uma musica só'. Ele já ficava invocado, ele não gostava mais não. Eu vi isso na porta da gravadora RCA, que é a BMG de hoje. Ele não agüentava mais. Eu vi isso e outras coisas. Ele falava isso, mas cantava Asa Branca em todo show e emendava com A Volta da Asa Branca, que era o contrário da Asa Branca. Ele contava histórias, ele gostava muito de contar histórias, ele contava da seca, do sofrimento, para emendar com a Volta".


E MAIS

DICAS DE LEITURA
O Sertão em Movimento - a dinâmica da produção cultural, de Sulamita Vieira (Annablume, 2000). O livro se propõe a tratar não só do compositor Luiz Gonnzaga, mas do Sertão, do Nordeste, do Brasil e, especialmente, da condição humana.

Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga, de Dominique Dreyfus (Editora 34, 1996). O livro traça a trajetória do Rei do Baião. Traz diversas fotos da carreira do sanfoneiro.


CURIOSIDADES
Entre as diversas versões sobre a origem de Asa Branca, conta-se que a música é originada de um tema folclórico muito antigo, conhecido por Luiz Gonzaga desde a infância, através da sanfona do pai. Luiz Gonzaga teria levado o tema para Humberto Teixeira dar uma "ajeitada" na letra e na melodia, acrescentando-lhe versos. "Seu Januário, pai de Luiz Gonzaga, falava que a letra era dele. Ele disse para mim, uma vez, quando eu estava tocando para ele, no Araripe: 'Essa música é minha, ele (Luiz Gonzaga) me tomou essa música, depois apareceu'", lembra o sanfoneiro pernambucano Dominguinhos.

A temática sobre a seca intensa do Nordeste, a ponto de fazer migrar a ave na composição Asa Branca, é recorrente nas obras de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Por acaso, o cearense Humberto Teixeira nasceu no ano de 1915, em Iguatu, quando se registrou uma terrível seca no sertão do Estado. Outra coincidência: ele deixou Fortaleza e foi-se para o Rio de Janeiro, em 1932, ano de outra grande seca pelas bandas de cá. "A cada grande seca reflete no Sul e no Sudeste do país, nessa época, sempre saem grandes músicas", pontua Nirez.

A Asa Branca (Columba picazuro) é uma ave de arribação, que costuma migrar em bandos nos períodos que antecedem a seca, numa espécie de presságio, daí o verso "bateu asas do sertão". Da família dos columbídeos, tem coloração pardo-acinzentada, com penas brancas, o que lhe dá uma aparência escamosa. É uma das maiores pombas brasileiras.

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