Vida & Arte
TEATRO
Casa dos sentidos
O grupo Ouse encena, nos fins de semana de maio, o espetáculo A Casa, baseada no livro da escritora cearense Natércia Campos. No teatro do Dragão do Mar
25 Mai 2007 - 02h10min
O menino Custódio demorou três dias para nascer. Enroscado no ventre, não queria deixar a mãe. Pequeno, esperava que ela dormisse e ia devagar descansar em seu seio, sem que ninguém percebesse. Crescido, continuou com a mania, até que um dia a mãe notou a presença do garoto. No susto, Custódio tampa-lhe a boca e tenta agarra-lhe. Em outra época, a tia Alma, moça velha, não casou por culpa da mãe. Ainda bebê, tomou o vento frio na cabeça. A mãe, cética, não acreditava nesses dizeres, era tudo invenção do povo. A teimosia da mãe deixou a Alma doente e, depois de estar entre a vida e morte, a vida venceu a luta, mas a morte deixou seu sinal: Alma cresceu abobalhada. Não casou, não teve filhos, foi fadada a uma vida longa e de solidão, embora cercada por sobrinhos que teimava em protegê-la do vento frio na cabeça. A dor de Alma, e o desejo e medo de Custódio foram sentidos pela Casa, que absorveu em suas paredes os sentimentos, anseios, esperanças e dores de várias gerações. Ela é a principal personagem de A Casa, montagem do grupo Ouse para o romance homônimo de Natércia Campos. Nele, a personagem central revive os conflitos dos moradores que abrigou ao longo dos anos. Em muitos acontecimentos, só ela foi testemunha.
Em cartaz aos sábados e domingos de maio, no teatro do Dragão do Mar, a montagem faz parte do projeto VesteTeatro, que transforma em obra teatral livros indicados para o vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC). O romance de Natércia Campos, um dos indicados de 2007, conta a história da colonização do Ceará numa perspectiva interiorana. Num casarão, erguido com esmero e arte, nascerem e morrerem gerações, passaram-se secas e chuvas, cavaleiros encourados e automóveis. A casa tem vida própria. Sente, vê e revive tudo que aconteceu nos cerca de 150 anos em que existe. A lembrança se dá quando um grupo de pesquisadores visita um grande casarão que será destruído para construção de uma barragem. Uma herdeira da família, Eugênia, acompanha a expedição e vai ao local reconhecer e relembrar as histórias vividas pelos seus parentes. A casa, há anos abandonada, reconhece Eugênia como membro da família resgatando da sua memória todos os causos acontecidos naqueles compartimentos.
"Causos"
A narrativa de Natércia é não-linear, cheia de digressões e flash backs. A partir disso, o grupo isoladamente montou o que chama de "causos" e é a participação do público que define a ordem das pequenas histórias. "A gente deixa o público deduzir ou imaginar que geração veio primeiro, os graus de parentesco". Aliás, a relação com o público é diferenciada até mesmo pelo espaço que ele ocupa na peça. Sentado sobre o paco, em semicírculo, a idéia é que eles também estejam dentro e façam parte da casa.
Composta por três alunos do curso de Artes Cênicas do Cefet-Ce, a peça lança mão de elementos do Teatro Pobre. A proposta é um teatro despojado de todos os recursos (cênicos, de figurino, maquiagem), em que ator é o principal elemento, em sua interpretação e corporalidade. A postura não é tão radical assim, mas dá destaque mais a atuação e opta só pelos elementos cênicos indispensáveis.
Jadeilson Feitosa, diretor do grupo, assegura que a pretensão não é substituir a peça pela leitura, mas mostrar uma segunda leitura da história. E, embora direcionada ao público vestibulando, a montagem não possui um didatismo, agradando a todo tipo de público. "Muitas pessoas não leram o livro e, quando assistem à peça, acabam se interessando pela obra. O inverso também é verdadeiro: pessoas que conhecem a obra e vão conferir de que forma ela foi para os palcos".
SERVIÇO
A Casa - montagem do grupo Ouse baseada na obra de Natércia Campos. Direção: Jadeílson Feitosa. Em cartaz aos sábados e domingos de maio no teatro do Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema), às 20h. Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). Informações: 3488.8600.
Em cartaz aos sábados e domingos de maio, no teatro do Dragão do Mar, a montagem faz parte do projeto VesteTeatro, que transforma em obra teatral livros indicados para o vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC). O romance de Natércia Campos, um dos indicados de 2007, conta a história da colonização do Ceará numa perspectiva interiorana. Num casarão, erguido com esmero e arte, nascerem e morrerem gerações, passaram-se secas e chuvas, cavaleiros encourados e automóveis. A casa tem vida própria. Sente, vê e revive tudo que aconteceu nos cerca de 150 anos em que existe. A lembrança se dá quando um grupo de pesquisadores visita um grande casarão que será destruído para construção de uma barragem. Uma herdeira da família, Eugênia, acompanha a expedição e vai ao local reconhecer e relembrar as histórias vividas pelos seus parentes. A casa, há anos abandonada, reconhece Eugênia como membro da família resgatando da sua memória todos os causos acontecidos naqueles compartimentos.
"Causos"
A narrativa de Natércia é não-linear, cheia de digressões e flash backs. A partir disso, o grupo isoladamente montou o que chama de "causos" e é a participação do público que define a ordem das pequenas histórias. "A gente deixa o público deduzir ou imaginar que geração veio primeiro, os graus de parentesco". Aliás, a relação com o público é diferenciada até mesmo pelo espaço que ele ocupa na peça. Sentado sobre o paco, em semicírculo, a idéia é que eles também estejam dentro e façam parte da casa.
Composta por três alunos do curso de Artes Cênicas do Cefet-Ce, a peça lança mão de elementos do Teatro Pobre. A proposta é um teatro despojado de todos os recursos (cênicos, de figurino, maquiagem), em que ator é o principal elemento, em sua interpretação e corporalidade. A postura não é tão radical assim, mas dá destaque mais a atuação e opta só pelos elementos cênicos indispensáveis.
Jadeilson Feitosa, diretor do grupo, assegura que a pretensão não é substituir a peça pela leitura, mas mostrar uma segunda leitura da história. E, embora direcionada ao público vestibulando, a montagem não possui um didatismo, agradando a todo tipo de público. "Muitas pessoas não leram o livro e, quando assistem à peça, acabam se interessando pela obra. O inverso também é verdadeiro: pessoas que conhecem a obra e vão conferir de que forma ela foi para os palcos".
SERVIÇO
A Casa - montagem do grupo Ouse baseada na obra de Natércia Campos. Direção: Jadeílson Feitosa. Em cartaz aos sábados e domingos de maio no teatro do Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema), às 20h. Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). Informações: 3488.8600.
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