19/05/2007 15:43
1. Os primórdios
* Forçando um pouco a barra, alguns críticos apontam o próprio surgimento das imagens em movimento, captadas e exibidas pelos irmãos LumiÕre no final do século XIX, como as primeiras tentativas de um cinema documental. As cenas do cotidiano - em Saída dos Trabalhadores das Fábricas LumiÕre e A Chegada do Comboio à Estação -, apesar de terem somente um plano e durarem apenas poucos minutos (e não terem relato ou voz), já ofereciam uma janela para o mundo histórico.
* Em 1913, o explorador Robert Flaherty levou uma câmera para registrar sua expedição no Ártico. Como resultado, em 1922, Nanook, o Esquimó surgiu como "o primeiro grande documentário", que já trazia uma estética própria e mantinha uma linha narrativa sobre quem eram e como viviam Nanook e os inuits.
* No final dos anos 1920, o cineasta soviético Dziga Vertov definiu os princípios de uma representação poética, mas enérgica, da realidade operária cotidiana. Vertov defendia uma atitude de reconstrução poética dos registros do que a câmera 'via', e a montagem e o intervalo (efeito de transição entre os planos) formavam o núcleo de seu estilo de cinema de não-ficção, chamado "cine-olho". Veja: Um Homem com uma Câmera (1929), de Dziga Vertov.
2. A base
* Mas foi o escocês John Grierson que estabeleceu a base institucional para o que, ainda no fim da década de 1920, tornou-se conhecido como cinema documentário. Grierson formalizou o documentário como produto, atribuindo-lhe a função social de educação e formação da opinião pública. Fundamentou o que hoje chamamos de 'documentário clássico': o tipo expositivo, que enfatiza o comentário verbal e a lógica argumentativa, de forma bastante didática. Veja: Drifters (1929), de John Grierson.
3. Cinema livre
* Nos anos 1950, os praticantes do Free Cinema britânico buscaram um cinema livre da necessidade de propaganda do governo, do dinheiro do patrocinador e das convenções estabelecidas do gênero. No centro, a representação nua e crua dos operários, rompendo com convenções sociais e cinematográficas estabelecidas pela geração anterior. Veja: Everyday Except Christmas (1957), de Lindsay Anderson.
* Uma importante ruptura, nos anos 1960: a introdução das câmeras portáteis leves e com som direto possibilitou aos cineastas uma mobilidade para acompanhar o cotidiano de pessoas comuns. Um caminho foi o "cinema direto": observar, à distância, comportamentos íntimos ou críticos. Esse cinema observativo evita voz-over, efeito sonoro complementar, legenda, reconstituição e, até, entrevista. O isolamento do cineasta exige outro comportamento do espectador, que passa a determinar o que é ou não relevante em quadro. Veja: Crise (1963), de Robert Drew, que acompanha as eleições presidenciais dos EUA.
* Frente à ruptura tecnológica, outra opção foi a de interagir, de maneira mais diretamente participativa, com as próprias pessoas que representavam seus temas. O cineasta se transforma em ator social quase como qualquer outro - "quase" porque, ainda assim, continua com a câmera. Esse modo de filmar é o que o cineasta Jean Rouch chamou de "cinema verdade", tradução do kinopravda de Dziga Vertov. A idéia enfatiza que a "verdade" é o próprio encontro; trata-se de verdade como uma forma de interação - e não a verdade 'absoluta' ou 'manipulada'. Veja: Crônica de um Verão (1960), de Jean Rouch.
* Nos anos 1980, uma das fortes tendências passou a ser o documentário reflexivo, que chama atenção para as convenções que regem o próprio cinema documentário. Em vez de seguirmos o cineasta em seu relacionamento com outros atores sociais (cinema direto e cinema verdade), agora acompanhamos o relacionamento do cineasta conosco, falando não só do mundo histórico, mas também dos problemas da própria representação. Veja: Sobrenome Viet, Nome de Batismo Nam (1989), de Trinh T. Minh-ha.
4. Experimentalismo
- Essa reflexão gerou, inclusive, o crescimento dos pseudodocumentários ou mockumentaries (to mock: "ridicularizar", em inglês), como A Bruxa de Blair (1999) ou Borat (2006). Mas não é nova: desde Um Homem com uma Câmera existe essa auto-reflexão e esse olhar para si como construção, passando pelo mockumentary Terra Sem Pão (1932), do Luis BuÀuel, e pelo experimentalismo de Jean-Luc Godard em Letter to Jane (1972).
* Mais do que refletir sobre o próprio fazer cinema, os documentários contemporâneos trazem uma forte carga subjetiva. O chamado documentário performático sublinha a complexidade do nosso conhecimento sobre os aspectos do mundo, da sociedade - governo, igreja, família, amor e guerra -, ao colocar experiência e memória, valores e crenças como ponto de partida para a construção fílmica. Esse tipo de documentário aproxima-se do cinema experimental de vanguarda - mas sua dimensão expressiva acaba por conectar mais rapidamente o filme e o espectador ao 'mundo histórico'. Veja: Línguas Desatadas (1989), de Marlon Riggs.
Fontes: Introdução ao Documentário (Papirus, de Bill Nichols) e Teoria Contemporânea do Cinema - Documentário e Narratividade Ficcional (Senac, de Fernão Pessoa Ramos).
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