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Vida & Arte

ENTREVISTA

Os caminhos de Santiago

Em entrevista a O POVO, o cineasta João Moreira Salles discorre sobre Santiago, seu novo filme, e sobre cinema documentário


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19/05/2007 15:43

João  Moreira Salles, cineasta, fala primeira vez à imprensa sobre o filme Santiago que só foi exibido em festivais (Foto: Agência Estado)
João Moreira Salles, cineasta, fala primeira vez à imprensa sobre o filme Santiago que só foi exibido em festivais (Foto: Agência Estado)

Tela preta. Enorme escuridão e o nome "Santiago". Logo, o primeiro plano: uma réstia de luz e um porta-retratos sobre a mesa, solitário num quarto vazio. A voz: "Há treze anos, quando fiz essas imagens, pensava que o filme começaria assim. Primeiro, uma música dolente - não essa, que eu só conheci mais tarde, mas algo parecido -; depois, um movimento lento em direção a três fotografias". A primeira delas mostra a entrada de uma casa muito grande, onde o cineasta cresceu. A segunda, a do quarto que era dele. A terceira é de uma cadeira solitária na varanda - isso porque, quando as imagens foram feitas, a casa de sua infância já estava vazia.

Santiago, de João Moreira Salles, é um documentário sobre um filme inacabado. É um documentário que, quase proustianamente, tenta sair em busca de um tempo perdido. Assim, as reminiscências que orientam a busca não pertencem a um "outro" documentado, mas ao próprio realizador.

Em 1992, João quis fazer um filme sobre o argentino Santiago Badariotti Merlo, ex-mordomo da casa de seus pais na Gávea, hoje sede carioca do Instituto Moreira Salles. Quando havia jantares de negócio ou grandes festas, João e os irmãos brincavam de servir os convidados. Nessa ocasião, era Santiago quem punha a bandeja na mão de Joãozinho e lhe ensinava a equilibrá-la. "Santiago havia trabalhado 30 anos para minha família, agora estava aposentado, tinha 80 anos,e morava num pequeno apartamento no Leblon. Em maio de 1992, fui à casa dele", conta João no filme, que acompanha o processo de construção e desconstrução de Santiago. Naquele espaço quase cênico, Santiago vivia acompanhado pelas mais de 30 mil páginas em que contou a história da aristocracia no mundo. Das fichas, datilografadas numa velha Remington e enfeixadas em maços lacrados com fitas vermelhas, saltavam os personagens - os Borgia, os Médici - que compartilhavam com ele sua solidão.

Depois de cinco dias de filmagem e nove horas de material bruto, João vai para a ilha de edição e, lá, percebe que as idéias que lhe pareciam interessante no papel simplesmente não funcionavam na tela. Passou 13 anos sem mexer nas imagens. "Em agosto de 2005, decidi tentar de novo. Era um modo de voltar à casa da minha infância, e a Santiago". Aí, o filme deixou de ser somente sobre o velho mordomo. Isso porque, nesse meio tempo, João Salles repensou a forma de fazer documentário. Em Santiago, questiona os próprios planos e métodos de antes: se uma folha cai na piscina, foi mero acaso ou foi obra de uma mão fora de quadro? Avisa: tudo que fez ali é preciso ser visto com desconfiança. Impiedoso consigo mesmo, expõe interferências e interrupções, repetições e encenações as quais submeteu o personagem. Em determinado momento, João admite que a relação entre ele e Santiago, durante aqueles dias de filmagem, era muito mais que documentarista/personagem. Era o filho do patrão e o empregado. Após os dez minutos iniciais de Santiago, a tela preta volta. Enorme escuridão e um punhado de palavras: Santiago - Uma reflexão sobre o material bruto. Esse foi o filme possível. Esse foi o filme necessário. Por e-mail, o Vida & Arte Cultura conversou com João. (Natália Paiva)


O POVO - Como a influência do cinema direto entrou na sua vida, nos anos 1990, e de que forma ela mudou a sua maneira de ver e fazer documentário? Foi paralela à descoberta de Yasujiro Ozu (cineasta japonês), que influenciou os planos bonitos de Santiago?
João Salles - Não, foi bem depois. Em 1996, eu e meu amigo Arthur Fontes decidimos fazer um documentário sobre futebol. Queríamos acompanhar a vida de um menino que fosse bom de bola e tivesse a ambição de se tornar profissional. Iríamos registrar todas as etapas do seu longo périplo pelas inúmeras peneiras da vida. Era uma história que se desenrolaria no tempo, nosso papel seria apenas observar. Sem saber, o que havíamos imaginado implicava num modo de filmar semelhante ao do cinema direto. No início, não deu certo. O filme não montava porque a gente não conhecia a gramática do gênero - como filmar, o que filmar, quando filmar etc. O jeito foi comprar alguns clássicos do cinema de observação e assisti-los com caderno e lápis, tentando destrinchar a linguagem. Foi o que fizemos.

OP - Seu primeiro filme como roteirista (Japão) e seus três primeiros filmes como diretor eram documentários expositivos voltados para universos estrangeiros. Em seguida, você se voltou para um ícone da brasilidade ao dirigir Jorge Amado (1992). Futebol (1998), Notícias de uma Guerra Particular (1999), Nelson Freire (2003) e Entreatos (2005) reiteram esse olhar para o País. Em que momento - da sua carreira como cineasta (e pessoa que reflete sobre documentário) - surge Santiago?
João Salles - Santiago é o resultado desse percurso que você descreve. Fiz documentário e, a cada filme, pensava um pouco mais sobre a minha profissão. Santiago é uma espécie de estação final, a chegada depois de tantas baldeações - ele exprime minhas idéias sobre o cinema não-ficcional, que são muito diferentes daquelas que eu tinha quando comecei a filmar.

OP - Você diz em carta aberta à imprensa que tomou consciência do tempo durante o processo em que realizou Santiago. Eu queria saber como se deu essa tomada de consciência e o que isso significou pra você, em nível pessoal.
João Salles - Não existe um momento específico, nenhum tipo de epifania. É aos poucos. À medida que a gente vai ficando mais velho, a idéia do tempo vai entrando na gente. A cada mês ela é mais presente, até o dia em que a gente se dá conta que existe mais coisa para trás do que sobra para frente. Foi quando decidi voltar ao material. Como digo no filme, era um modo de retornar ao meu passado, à casa em que cresci, de me lembrar dos meus pais, da minha infância, dos meus irmãos e, claro, de Santiago.

OP -De que forma Santiago é uma síntese do que você pensa hoje sobre cinema não-ficcional - em relação ao que pensava antes, em 1992?
João Salles - Não acredito mais em documentários feitos para ensinar. Não acredito em documentários que se propõem a consertar o mundo. Não acredito em imagens de ilustração. Não acredito mais na capacidade de mostrar o mundo tal como ele é. Não acredito mais na espontaneidade, mas isso não significa que aceito qualquer tipo de mentira. Não acho que existam recursos de linguagem proibidos, tais como locução, trilha etc. Por outro lado, muitas vezes a locução e a trilha são os sintomas mais evidentes da mediocridade de um filme. Não acredito em documentários cuja forma antecede o ato de filmar. Não acredito em documentários que não tentem propor algo novo sobre o próprio documentário. Nenhuma ortodoxia é boa, portanto não obedeço cegamente a nenhuma das coisas que disse acima. (Não peço desculpas por incluir em Santiago uma cena cuja única função é me permitir usar uma imagem de ilustração que acho bonita.)

OP - A questão do tipo de vínculo que o documentarista estabelece com o personagem do documentário é delicada. E isso é muito problematizado em "Santiago". Quais são, João, os caminhos e possibilidades de se estabelecer uma relação ética, humana, honesta entre documentarista e personagem?
João Salles - Existem muitos caminhos. Jean Rouch inventou o dele, Eduardo Coutinho também. Os dois fazem um tipo de cinema que a gente poderia chamar de cinema do encontro, no qual o filme não é apenas sobre o outro, mas sobre o encontro com o outro. Isso posto, a gente não pode ser ingênuo: o poder sempre pertencerá ao documentarista, nunca ao personagem.
Afinal, somos nós que enquadramos, que conduzimos a narrativa, que perguntamos (ou deixamos de perguntar), que deixamos essa ou aquela cena de fora. Portanto, o documentarista deve saber que toda decisão tomada pode trazer conseqüências para o personagem. Nisso reside a especificidade do documentário em relação à ficção. Somos responsáveis por quem filmamos. Lidamos com gente que existe fora do filme.

OP - Curioso que, por mais que você tenha orientado e provocado muitas intervenções sobre a postura de Santiago frente à câmera, ele é um personagem que resiste, que mostra sua tridimensionalidade. Você saberia dizer o que significou pra ele aquelas filmagens? Que contatos você teve com ele após os cinco dias de filmagem?
João Salles - Ele resiste, sim, e é isso que dá tensão ao filme. Não se trata apenas do mestre e do servo, de alguém que dá ordens e alguém que obedece. É mais complexo do que isso. Se não fosse, Santiago seria apenas objeto do filme. Acontece que ele também é sujeito. Santiago reage, recusa, interfere, corta. Ele próprio fornece a única pista sobre o que aqueles cinco dias representaram para ele: "vocês vieram aqui me embalsamar". No fundo, é o que todo filme faz com seus personagens. Acho que ele ficou feliz com a presença da equipe, com o fato de termos passado cinco dias ouvindo suas histórias. Há um reconhecimento nisso: "Você me interessa". Estive com ele muitas vezes depois do filme. Ele morreu um ou dois dias depois de eu visitá-lo pela última vez no hospital.

OP - No fim do filme, você fala algo genial e corajoso: que aquela relação, mais do que de documentarista/personagem, era, ainda, de filho do patrão e empregado. Em que momento você percebeu a premência da questão de classe?
João Salles - Sem nenhuma retórica ou falsa modéstia, afirmo que não tem nada de corajoso ou genial nisso. É o que está impresso no negativo. Era impossível fugir dessa questão, já que ela determinou a maneira como eu me relacionei com Santiago durante aqueles cinco dias. Ou se fala disso, ou não se faz o filme. Preferi fazer o filme. Por mais evidente que pareça hoje, à luz do documentário pronto, a noção de classe só aflorou dois ou três meses depois de iniciada a edição. É o tal óbvio ululante: um dia, Eduardo Escorel, Lívia Serpa e eu nos olhamos e dissemos quase ao mesmo tempo: "Opa, o que estou vendo aqui é um patrão se dirigindo a seu empregado".

OP - Será que, de alguma forma, isso pode ser uma metáfora para parte do cinema brasileiro (ficcional ou não) que olha os excluídos com certa má-consciência, numa representação meio autoritária e distante do "outro"?
João Salles - Não sei, sou meio arisco a metáforas. O máximo de generalização a que me permito é repetir o que já disse: toda relação entre documentarista e personagem é uma relação de poder, e o poder pertence ao documentarista. Santiago leva isso à última conseqüência.

OP - No meio de Santiago, aparece a única imagem colorida: a família Salles brincando na piscina da casa da Gávea. As imagens caseiras em super-8 estão ali meio que tateando um espaço, fora da música e do off que organizam a experiência das imagens do filme. O que essas imagens significam pra você ali?
João Salles - O que não volta nunca mais.

OP - Passei o filme inteiro achando que era você quem narrava. Mas a voz era do seu irmão Fernando. Como e por que ele assumiu esse papel? Ele, Pedro e Walter reconheceram, ali, o mesmo Santiago afetivo que você construiu?
João Salles - Eu disse que Santiago é o resultado do que pensei sobre documentário nesses anos todos. Pois bem, uma das convicções que descartei pelo caminho foi a idéia de que o documentário é feito de certezas - sua virtude estaria na capacidade de esclarecer e ilustrar. Hoje eu acredito que o filme será tão melhor quanto mais for hesitante e ambíguo. Ao invés de um ponto de exclamação, reticências. A voz do Fernando, falando por mim, introduz mais uma camada de ambigüidade num filme cheio de incertezas - não é à toa que às tantas eu digo que é preciso desconfiar de tudo. Além disso, é um modo de transformar minha memória na memória dos meus irmãos, uma operação de resto ilógica, uma ilusão, já que toda memória é radicalmente pessoal.

OP - Já vi você falar que, muitas vezes, quando estava editando, tirava sua voz porque pensava: "Meu Deus, que coisa estúpida eu acabei de dizer!". Em Santiago, foi o oposto. Do ponto de vista pessoal, o que passou pela sua mente ao tomar a decisão de se expor da forma que fez? E os receios da auto-exposição?
João Salles - Pois é. O problema é que Santiago não permitia o meio termo. A riqueza do material estava exatamente nessa exposição. Retire-se isso, e a gente volta ao filme de 1992, que eu tentei montar e não consegui. Como digo na narração, durante muito tempo hesitei em fazer o filme desse jeito. O problema é que os outros jeitos não resultavam em filme. Era isso ou nada.

OP - O que você queria ter perguntado a Santiago, mas não o fez?
João Salles - É gozado isso. Um material tão equivocado, uma maneira tão brusca de se aproximar do personagem - é exatamente isso que tornou o filme possível. Portanto, o filme é esse, não é outro, e no filme que está aí não faltou perguntar nada. Até mesmo quando Santiago me pede para falar do seu "núcleo de seres malditos", e eu digo que isso não interessa - a força do preto é muito grande, talvez maior do que a própria revelação. Santiago só existe por causa dos meus equívocos.

OP - Agora, qual o destino de Santiago, o filme? Ele deve ser lançado comercialmente?
João Salles - Ainda não sei. Por enquanto, ele está sendo exibido em festivais, aqui e fora do Brasil. É provável que venha a ser lançado comercialmente no segundo semestre, mas isso ainda não está decidido.

OP - O novo filme de Eduardo Coutinho, Jogo de Cena, deve embaralhar os conceitos de espontaneidade e encenação, questões-chave também de Santiago. E, aí,estamos falando que dois dos maiores documentaristas brasileiros estão debruçados sobre uma mesma questão. Quais são os caminhos e descaminhos do documentário brasileiro contemporâneo?
João Salles - Não sei se existe um denominador comum, mas é verdade alguns dos filmes mais interessantes exploram essa fronteira entre ficção e não-ficção. Maria Augusta Ramos acaba de montar um filme extraordinário sobre menores infratores, e por razões muito diferentes das minhas e das do Coutinho, ela também enfrenta essa questão. Talvez a gente esteja querendo embaralhar as coisas. Disso pode surgir algo interessante. Mas insisto em dizer que jamais deixaremos de lidar com a questão central do documentário: filmamos pessoas verdadeiras, que vivem fora dos nossos filmes - somos responsáveis por elas.

OP - No fim do filme, você lembra frase do Werner Herzog, dita no recente O Homem-Urso. Algo que revela como, muitas vezes, "o mais interessante de um plano é o que vem antes e depois da ação". Que abordagens, realizadores e documentários mais têm te atraído, ultimamente?
João Salles - Gosto dos filmes que ampliam as possibilidades do documentário. Trocando em miúdos, a forma me interessa mais do que o conteúdo. Para mim, a grande questão não é o tema, mas como narrar o tema. Toda vez que assisto a um filme que traz uma idéia nova - às vezes, confinada a uma só seqüência - saio feliz do cinema.

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