Natália Paiva
da Redação
Elevado à categoria de verdade absoluta, o gênero documentário é tema de debate entre estudiosos, cineastas e produtores
19/05/2007 15:43

Manhã de sábado, sessão do Cinema de Arte. "Esse filme é a realidade nua e crua", avalia Francisco de Oliveira Jr., 44, professor universitário. Na tela grande, as imagens projetadas apresentam depoimentos de estudantes de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, de faixas etárias e classes sociais distintas.
Vemos os conflitos, as angústias e as privações que atravessam todos aqueles jovens corpos dispostos a encarar a câmera. A narrativa de Pro Dia Nascer Feliz,de João Jardim, em cartaz no Multiplex UCI Ribeiro, é costurada por meio de depoimentos e cartelas explicativas, que indicam dados sobre a educação brasileira e sobre o destino dos jovens estudantes,
entrevistados em 2004. "Você sabe que não é um 'filme', que não foi feita uma produção pra representar alguma coisa. Não. É aquilo, é fato, é real. Você vê imagens, vê personagens do dia-a-dia, vê dados", aponta o educador Hildemberg Lima, 41, ao sair da sala escura de projeção. A que tipo de filme esses cinéfilos de arte assistiram? "A um documentário", disseram prontamente. Mas o que isso significa?
Todo filme é um documentário. Afinal, mesmo a mais bizarra das ficções evidencia a cultura que a produziu e reproduz a aparência das pessoas que fazem parte dela. Quem provoca é o teórico estadunidense Bill Nichols, em Introdução ao Documentário (Papirus). De acordo com Nichols, os filmes se dividem em "documentários de satisfação dos desejos" (chamados de "ficção") e "documentários de representação social" (ou, simplesmente, "documentários"). Para o professor Fernão Pessoa Ramos, da Universidade de Campinas
(Unicamp), a tentativa de definição do documentário trabalha com dois conceitos-chave. O primeiro é o de "proposição assertiva", que aponta o discurso documentário como carregado de asserções sobre a realidade, sobre o universo que designa. Daí a possibilidade de, no fim da sessão de arte de Pro Dia Nascer Feliz, promoverem-se produtivos debates sobre o
sistema educacional brasileiro. Outro conceito é o de "indexação". Nós, espectadores, assistimos a um documentário sabendo que se trata de um documentário. Pressupomos seu status de não-ficção, e, portanto, fazemos certas suposições acerca de seu provável grau de objetividade, credibilidade etc. "É o modo 'documentarizante' de ver um filme", afirma.
Como estatuto de uma verdade absoluta e como re-apresentação da realidade. É assim que boa parte do público ainda encara a narrativa de não-ficção. A professora Consuelo Lins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que há um quase-consenso entre documentaristas contemporâneos de que o filme é uma construção, uma "visão parcial e fragmentária" da realidade. "Mas eu fico muito impressionada com o fato de essa idéia de o documentário representar o real ainda ser muito forte junto ao público. Por mais que o Eduardo Coutinho diga 500 vezes que o que ele faz não é o real, é criado no momento da filmagem, do
encontro, não adianta". Para Amir Labaki, crítico de cinema e diretor-fundador do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários, o documentário contemporâneo tem se firmado ao se assumir como discurso autoral, em contraponto à idéia de neutralidade e objetividade que por tanto tempo engessou o gênero. "Um documentário existe não para explicar uma faceta do mundo ou ensinar algo. Um documentário existe como discurso de um cineasta - éessa sua motivação ímpar e essencial", completa.
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