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ARTEPOSTAL

Vanguarda e cartões postais

Os artistas Paulo Bruscky, Hélio Rôla e Lupin apresentam suas coleções de arte via correio (seja o convencional ou eletrônico), em exposição no CCBNB, a partir de amanhã. O pernambucano Bruscky também ministra curso de apreciação da arte, participa do projeto Nomes do Nordeste e lança livro que sintetiza sua provocante trajetória de criador

Eleuda de Carvalho
da Redação

14 Mai 2007 - 01h44min

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Que tal, se você encontrasse em meio aos anúncios do jornal, classificados assim: "Ruídos adventícios da ausculta pulmonar" - um convite a (im)possíveis patrocinadores para um concerto em que, no lugar dos instrumentos, a platéia ouvisse ruídos vindos de brônquios, traquéias, pulmões? Ou, então, o anúncio de uma Composição Aurorial, em que é proposta a criação de "uma aurora tropical artificial colorida" nos céus de Recife? E ainda este, na seção de compra e venda, oferecendo aos interessados o projeto de uma máquina de filmar sonhos? Bem, eis algumas das intervenções do artista pernambucano Paulo Bruscky, que está em Fortaleza para série de eventos no Centro Cultural Banco do Nordeste: a exposição coletiva Artepostal, reunindo as coleções dele e dos cearenses Hélio Rôla e Lupin; um curso de apreciação da arte, lançamento de livro sobre ele e conversa no projeto Nomes do Nordeste.

"Tem esta palestra, o curso, a visita guiada", resume, do lado de lá da linha, o inquieto Paulo Bruscky. "Nada vem do nada, a gente é tudo que veio antes", diz ele, buscando a síntese para o curso Os Multimeios: do Futurismo à Contemporaneidade, que vai ministrar esta semana, também no CCBNB (e que termina com a visita guiada à exposição). Serão "pinceladas rápidas" sobre dadaísmo, futurismo, o grupo Gutai, do Japão, o coletivo Fluxus, "até chegarmos nas experiências atuais, num percurso representativo da arte de vanguarda". Ele vai chamar a atenção para nomes pouco conhecidos ou não, mas que tenham trabalhos instigantes e mesmo geniais. Bruscky cita, daqui, entre outros, José Tarcísio, "que é um cara importante da vanguarda brasileira", e Sérvulo Esmeraldo, "um dos mais importantes artistas, um injustiçado". Na conversa rápida, frases certeiras feito um tiro na mesmice.

"Minha vida e minha arte são uma coisa só. Adoro as coisas inúteis. Que coisa boa olhar as coisas que não servem para nada", fala Paulo Bruscky, que não se importa em ganhar dinheiro ou não com seu trabalho. Funcionário público aposentado e também jornalista, a arte, para ele, é uma forma de expressar-se e de interferir no tempo/espaço que lhe foi dado viver. "Liberdade, a única coisa que sei fazer. Não tenho medo de ninguém. Sempre enfrentei a crítica. O artista tem que ser contemporâneo de sua época. A história nunca é real".

Uma das coisas que o artista vai fazer por aqui é lançar o livro Paulo Bruscky - arte, arquivo e utopia, organizado pela crítica de arte Cristina Freire. As páginas iniciais do livro são uma metonímia do próprio artista, o seu ateliê: dois quartos, uma espécie de cozinha, área de serviço e banheiro ocupados totalmente com papéis dispersos, canos de PVC, um televisor, fotografias, quadros, tubos de tinta, pincéis, pedaços de metal, uma vara de bambu, luvas de lã, pedras, lamparinas, sacos plásticos. Um coração de Jesus cercado de flor, relógios de pulso na parede, velhos calendários, copos de vidro, caixas de comprimido, ex-votos na janela de basculante, um cartaz de Cafiaspirina. Nas caóticas prateleiras, dá pra ver o título de alguns livros (muitos, muitos) e inferir interesses do dono. A Nova Música, Brasil Musical, História da Música no Brasil, Balanço da Bossa. Marinetti. Maranhão: São Luís e Alcântara. Blocos Carnavalescos do Recife. Mam - do modernismo a Bienal.

O ateliê foi transposto, idêntico, para a 26ª Bienal de Arte de São Paulo, em 2004. O curador até queria levar o trabalho pra Europa, mas Bruscky não aguentou muito viver no seu espaço vazio - todos os seus signos a quilômetros do Recife. Desde os anos 60, ele se propôs como artista em projetos multimídia, performances, poética visual, arte postal, xerofilmes, cinema e arte em outdoor.

Uma arte com gente, parte essencial do trabalho, como largar barquinhos de papel no Capibaribe ou, mais recente, tal o projeto Engenho do Imaginário, de 2002, quando convidou o povo a pintar bodes e cavalos e ergueu birutas coloridas no agreste pernambucano. Uma arte conceitual. Política. Provocante.

Por conta, foi preso algumas vezes, durante os anos 70, auge da ditadura. Cutucar a onça com vara curta, feito o cartaz-gravura de 1997, "a sua atitude política é mais importante que os políticos", encimado pelas palavras "Brasil deputado$", esta última, com as duas sílabas centrais em letras bem grandes. É isso.

Em 78, o artista pendurou um cartaz no pescoço, com as perguntas: "O que é a arte? Para que serve?". Dessa época e até início dos anos 80 é a série Arte Classificada, como aqueles exemplos do começo, anúncios publicados em jornal. Daí veio também o trabalho com arte e correios, os filmes em super-8, o trabalho com xerox (que lhe rendeu uma bolsa para estudar durante um ano em Nova York). Mimeógrafo, heliografia, "fac-similarte", "fax performance", "xeroperformance". "Nadaísmo": uma coletiva de 50 artistas na galeria Nega Fulô - totalmente vazia. Os que já estavam se danando nos anos 80, devem lembrar da mostra Esculturas Efêmeras, no Parque do Cocó. Bruscky "aqueceu" a exposição com sua fogueira feita de gelo em barra. Veio outra vez há três anos, a convite de Ricardo Resende, para o Dragão do Mar.

Quem for conferir a coletiva Artepostal, vai se deparar com as coleções de Bruscky, do também múltiplo e inquietante Hélio Rôla e de Lupin, com curadoria de Maurício Coutinho. Nelas, um elenco de artistas daqui (Sérvulo Esmeraldo, Leonilson, Bené Fonteles, Sérgio Pinheiro...) e alhures - Yoko Ono (Japão), Joseph Beuys (Alemanha), Leon Ferrari (Argentina), o transnacional Grupo Fluxus, e mais de 100 outros, dos EUA, da Lituânia, França, Uruguai. Até quando sair de cartaz, no final de junho, muitos mais poderão estar presentes nesta "obra aberta", que vai receber contribuições pelo e-mail artepostal2007@gmail.com. O fluxo continua.


SERVIÇO
Artepostal - reunindo as coleções de Paulo Bruscky, Hélio Rôla e Lupin. Curadoria: Maurício Coutinho. Abertura: 15 de maio. Em cartaz até 30 de junho.
Os multimeios: do futurismo à contemporaneidade - curso de apreciação de arte ministrado por Paulo Bruscky, nos dias 16, 17 e 18 (15h às 18h), e 19 (de 10h às 13h).
Nomes do Nordeste - Paulo Bruscky entrevistado por Augusto César Costa, dia 15, às 19h. Em seguida, o artista autografa o livro Paulo Bruscky - arte, arquivo e utopia, da crítica de arte Cristina Freire (edição CEPE, 2007).
Centro Cultural Banco do Nordeste - rua Floriano Peixoto, 941, Centro. Inf.: 3464.3108, 3464.3177 ou no site www.bnb.gov.br/cultura. Todos os eventos são abertos ao público.


MÍNIMAS DO PAULO BRUSCKY

"A revolução se faz pela estética, não pela agressão, pela violência ou pela contra-violência".

"As massas vão consumir nosso biscoito fino" (durante reportagem para o Jornal Hoje da Rede Globo, em 1983. Diante do repórter, ele tomava leite e enchia a boca com bolachas de maisena para falar a frase).

"Quem sabe faz, quem não sabe teoriza".
"O problema da contemporaneidade na arte é a adequação da idéia ao meio ou à mídia".

"Gosto de fazer coisas que não servem pra nada".

"Você tem que minar as estruturas. Implodir, não explodir".

"Sou um livre-atirador".

"É preciso deformar para formar".

"Leonardo da Vinci foi legal, mas passou. Cada época tem sua escrita. E é isso que se deve ver numa obra".

"Quando você tem determinada idade, você sabe como alcançar um objetivo. Mas que objetivo é esse?".

"Meu problema é que eu não tenho uma obra pra mostrar, só tenho os conceitos".

"Ultimamente tenho pensado só em viver".

"Beber é a única coisa que sei fazer na vida. E foder, claro".

"Esse negócio de direito autoral...".

"Eu sou tudo que veio antes de mim: futurista, dadaísta. Não existe ninguém que não tenha influências. Eu sou um conjunto de informações".


Fontes: Cine Esquema Novo 2006, Porto Alegre (www.cineesquemanovo.org.br) e Jornal do Commercio on line (www.jc.uol.com.br).

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