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CINEMA

Em busca do Olimpo

Os 12 Trabalhos, segundo longa-metragem de Ricardo Elias, gravita ao redor de Heracles (Sidney Santiago), jovem recém-egresso da Febem que tenta trabalhar como motoboy pelas ruas de São Paulo


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11/05/2007 01:45

OS 12 TRABALHOS ganhou mês passado cinco prêmios no Cine PE, inclusive de melhor diretor (Divulgação)
OS 12 TRABALHOS ganhou mês passado cinco prêmios no Cine PE, inclusive de melhor diretor (Divulgação)

A voz em off sobre a tela preta marca o início: "A gente tem vontade de mudar as coisas". Plano fechado sobre Heracles (Santiago), close-up em seu olho. Jovem negro da Vila Brasilândia, periferia de São Paulo, e recém-egresso da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), o moço se explica. Em entrevista, aponta a necessidade de emprego. Por indicação de seu primo Jonas (Bauraqui), passa a trabalhar como motoboy na Olimpo Express. Antes dos créditos iniciais, pronto: já está feita a introdução à personagem e se apresenta, de cara, a câmera subjetiva, curiosa a partir do olhar do protagonista, que irá nos guiar pelos próximos 90 minutos. Tempo que sintetiza o primeiro dia de Heracles no novo emprego, no qual ele precisa realizar uma série de entregas (12 percalços, entre tarefas e obstáculos no meio do caminho), enfrentando preconceito, burocracia e trânsito conturbado. Esse é Os 12 Trabalhos, segundo longa de Ricardo Elias - o primeiro foi De Passagem (2003, que conta a história de dois amigos, Jefferson e Kennedy, em busca do corpo de um terceiro companheiro, Washington).

O filme todo - narrativa e esteticamente - gira em torno de Heracles. Sua inocência (ignorância em relação ao trabalho) e sua perplexidade (em relação aos ambientes e situações) passam pela subjetividade do corpo do ator Sidney Santiago - que trabalha bem olhares e pequenos gestos -; mas tem força maior na câmera que perscruta, que procura e segue figurantes, que se perde em detalhes, que trepida sobre a moto em movimento pelas artérias sangrentas de São Paulo. Aliás, o filme é extremamente paulistano - não apenas pelo fato de a própria figura do motoboy remeter à velocidade e aceleração da grande metrópole, mas pela apresentação singular (veloz) de praças, monumentos, modos de andar, gesticular e falar. Elias tinha um tema absolutamente interessante e pouco explorado: o motoboy como símbolo maior da aceleração e das trocas na atualidade; o motoboy como transgressor de uma lógica de trânsito (para além dos automóveis nas ruas, trânsito no sentido de deslocamento, do ir e vir na cidade em suas diversas formas); o motoboy como radicalização dos seres invisíveis que compõem a malha urbana e a cidade afetiva.

Em Os 12 Trabalhos, Elias radicaliza a proposta iniciada em De Passagem: por meio de simbologias nada sutis, tenta olhar para a juventude marginalizada paulistana. Se, no primeiro, os personagens assumem a 'identidade' de ex-presidentes dos EUA, em Os 12 Trabalhos Elias se propõe a fazer uma 'atualização' do mito de Hércules, o deus greco-romano da força, que foi obrigado a realizar 12 tarefas para atingir o Olimpo. No filme, o motoboy semi-divino passa por 12 tarefas para merecer um lugar na Olimpo Express. Tudo bem que o simbologismo não chega a comprometer o filme, mas a relação com a mitologia grega é totalmente dispensável. O filme tem uma história bem contada - embora o fim soe meio deus ex-machina, com uma morte de certa forma deslocada, forçada para empurrar goela abaixo um desfecho meio Os Incompreendidos (de François Truffaut). E a própria construção do protagonista (que, em geral, é um cara interessante) se mostra às vezes meio equivocada, como o fato de ele precisar ser um ótimo desenhista amador ou refletir em off sobre a vida dos outros (reitera-se uma suposta 'sensibilidade'). E aí, entra o grande problema de Os 12 Trabalhos: além de essa reflexão em off ser uma estrutura um tanto repetitiva, que, depois de certo momento, fica sacal e nada adiciona, a narração também se mostra fatalista (como quando apresenta o 'íntimo' de uma moça que gostaria de ser modelo, mas nem suspeita que está condenada a permanecer vendendo pastéis) e, às vezes, moralista ("algo quebrou dentro dele" é dito para um urbanista viciado em cocaína). Mesmo assim, Os 12 Trabalhos é filme bom de assistir. E honesto, mesmo em seus equívocos.


SERVIÇO:

OS 12 TRABALHOS (BRA, 2007)De Ricardo Elias. Com Sidney Santiago, Flávio Bauraqui, Vera Mancini, Vanessa Giácomo, Francisca Queiroz, Cynthia Falabella, Cacá Amaral, Lucinha Lins e Luiz Baccelli. 90 min. Estréia no Espaço Unibanco 1, às 15h30, 19h50 e 21h30 (todas as sesões não exibem seg).
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=tO5uYZPa9YI
Site oficial: www.os12trabalhos.com.br


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