Amanda Queirós
da Redação
De hoje até domingo, uma competição diferente toma o palco do Centro de Convenções. Bailarinos de oito estados do Norte e Nordeste disputam colocações na primeira edição regional do Festival Passo de Arte e sonham com a possibilidade de se tornarem profissionais da dança
10/05/2007 01:52

Nas academias, o treinamento é intensivo. Após espreguiçar as costas, alongar as pernas e aquecer os pés, começa a maratona de aulas e ensaios. Aí se vão quatro, cinco ou mesmo até seis horas diárias devotadas a um único objetivo: lapidar os movimentos do corpo. O que poderia muito bem se aplicar à rotina de um atleta se incorporou, desde o início do ano, ao cotidiano das escolas de dança da cidade.
O motivo para esse rebuliço todo tem nome e data para acontecer. De hoje até domingo, 700 estudantes de dança vindos de oito estados brasileiros se encontram no 1º Passo de Arte Norte/Nordeste, que inicia esta noite, às 19h, no palco do Centro de Convenções. O festival aproveita uma lacuna no calendário de eventos do tipo no Ceará e tenta ganhar espaço ao inserir um modelo até então pouco difundido por aqui: o da competição em dança.
Por conta disso, crianças e adolescentes têm dobrado o número normal de horas passadas nas academias em busca de uma premiação em modalidades que vão de solos em balé clássico a coreografias em conjunto de jazz e sapateado, passando também pela dança de rua, a dança contemporânea e as danças populares. Tudo avaliado de acordo com a faixa etária dos participantes por um corpo de jurados composto por profissionais da dança de todo o País. Quem obtiver nota acima de sete tem o passaporte carimbado para participar da edição nacional do concurso, que acontece em julho no interior de São Paulo.
Não é só a preparação dos bailarinos que se assemelha ao universo dos esportes. Quem for assistir às apresentações deve se preparar para lidar com uma platéia mais que calorosa. Praticamente torcidas organizadas vão estar a postos para aplaudir e gritar pelo seu grupo ao fim de cada coreografia e, principalmente, nos momentos mais virtuosos dela. É exatamente nesse ponto que se evidencia a controvérsia entre educadores em dança e os organizadores desses festivais sobre a validade desse tipo de evento para um público ainda em formação.
Segundo Marisa Piveta, presidente do Instituto Passo de Arte - responsável pelo concurso -, o formato escolhido é uma forma de estimular o aperfeiçoamento dos jovens bailarinos. "Nosso sistema de vida carrega uma característica competitiva muito forte. Veja uma audição para bailarinos de uma companhia de dança. Aquilo é uma competição. Se um bailarino não for para o palco, ele não vai estar preparado para ter presença de espírito e técnica boa. O nosso papel é justamente de trabalhar esse aspecto desde a infância. A arte está sendo bem feita por competidores também", coloca ela.
Há que discorde desse ponto de vista. O crítico e mestrando em Dança Joubert Arrais mostra-se reticente com a possibilidade do rankeamento de apresentações do tipo. "Geralmente, os parâmetros desse tipo de festival estão interessados no desempenho físico, que acaba remetendo muito à educação física e à idéia de uma dança desportiva. Assim, você acaba minimizando a expressão artística e a produção de conhecimento da dança, que permite a experimentação e estimula um caráter de autonomia para o bailarino enquanto criador", pontua o pesquisador.
Uma ponta desse receio é encontrada até mesmo em quem participa pela primeira vez desse tipo de evento, como os oito alunos da professora Goretti Quintela. Ela pondera a dificuldade em se fazer uma avaliação justa de um processo artístico. "O concurso é uma forma de estimular o bailarino a trabalhar mais, a ter mais consciência corporal. Mas julgar, realmente, é muito difícil. A dança é arte, sentimento. Cada bailarino tem a sua luz própria", diz.
Já a professora e coreógrafa Mônica Luiza enxerga mais aspectos positivos que negativos. Há três anos, ela estimulou as alunas a se aventurarem pelo universo das competições de dança. "Na primeira vez, levamos um susto grande. O nível técnico dos bailarinos era altíssimo e eles passavam por uma avaliação que ia do figurino à maneira de se portar no palco", afirma. O baque serviu de estímulo. A partir daí, a escola dela passou a se aprofundar na preparação das bailarinas para esse tipo de evento. Com isso, veio o aumento da carga horária de ensaios e dos custos com viagens para todo o País. "Elas cresceram comigo e fomos melhorando", diz.
É na perspectiva desse crescimento técnico que o festival oferece também cursos curtos em paralelo à competição com professores renomados como Toshie Kobayashie e Ricardo Scheir. É a outra forma encontrada pela organização para fazer os participantes trocarem informações e se reciclarem. "Muitas vezes é chato assistir a festivais, mas eles não são feitos para o público, são feitos para desenvolver os bailarinos. Ele não é o começo nem o fim. Ele é um meio para a carreira deles. O que a gente quer é fazer um barulho grande por aqui para as pessoas acordarem e verem os talentos que têm", conclui Marisa.
SERVIÇO
I Festival de Dança Passo de Arte Norte/Nordeste - de hoje (10) a domingo (13) no auditório principal do Centro de Convenções de Fortaleza (Av. Washington Soares, 1141 - Edson Queiroz). As apresentações iniciam sempre às 19h. No domingo, às 15h. Os bailarinos André Valadão e Carla Amâncio abrem a competição de sábado e domingo. Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$
10,00 (meia). Informações: (11)4979-5709.
PROGRAMAÇÃO
QUINTA-FEIRA - 10/05 - 19h
Solos Contemporâneos, Conjuntos Estilo Livre, Conjuntos de Sapateado e Conjuntos Dança de Rua
SEXTA-FEIRA - 11/05 - 19h
Duos e Trios Clássicos e Contemporâneo, Conjuntos de Contemporâneo e Conjuntos de Jazz
SÁBADO - 12/05 - 19h
Solos Clássicos, Grand Pas de Deux (Avançado), Conjuntos Clássicos, Conjuntos de Repertório e Conjuntos de Danças Populares
DOMINGO - 13/05 - 15h
Pas de Deux (Adulto)
Var. de Repertório (Pré, Juvenil, Adulto e Avançado)
CURSOS DE APERFEIÇOAMENTO EM DANÇA - De 11 a 13/05
Clássico (Intermediário/Avançado), com Toshie Kobayashi, das 9h às 10:30h;
Clássico (Juvenil/Intermediário), com Jane Dickie, das 9h às 10:30h;
Sapateado (Intermediário/Avançado), com Adriana Salomão, das 10:45h às 12:15h;
Iniciação de Repertório, com Ricardo Scheir, das 10:45h às 12:15h;
Jazz (Intermediário/Avançado), com Adriana Salomão, das 12:30h às 14h;
Composição Coreográfica, com Ricardo Scheir, das 12:30h às 14h.
Local: Faculdade Integrada do Ceará - FIC (Rua Eliseu Uchoa Becco, 600, Água Fria). Inscrições: R$ 70,00 (um curso), R$ 120,00 (dois cursos), R$ 190,00 (três cursos) e R$ 30,00 (aula avulsa). Informações: (11) 4979-5709.
SAIBA MAIS
Apesar de só agora chegarem a Fortaleza, os festivais competitivos não são uma novidade no Brasil. O boom deles ocorreu na década de 80, dando vazão ao advento do jazz e do sapateado na dança brasileira. No fim dos anos 90, os festivais evidenciaram a dança clássica e também deram espaço ao estilo contemporâneo. O Festival de Dança de Joinville, que este ano chega a sua 25ª edição, é o maior expoente desse movimento, que fez pipocar em diversas cidades do Sul e do Sudeste eventos semelhantes.
Com isso, a concepção da edição cearense do festival não nasceu do nada. Há quinze anos, um evento homônimo reúne bailarinos de todo o país no interior de São Paulo. Até o ano passado, grupos locais como o Studio de Dança Michelle Borges e a Academia Vera Passos haviam passado por ele de forma esparsa e obtiveram premiações. Em 2006, cinco escolas do Estado competiram. O episódio aguçou os olhos dos organizadores do festival para a região. "Os grupos de Fortaleza têm nos procurado muito e com uma dança de qualidade muito boa. O que mais nos chamou a atenção foi o esforço incrível que eles fazem para viajar em busca das informações que a gente coloca nesses festivais", comenta Marisa Piveta, diretora do Instituto Passo de Arte.
Para participar da edição paulista, os grupos costumavam enviar uma fita com a gravação das coreografias que pretendiam inscrever. A partir daí, os organizadores faziam uma triagem do que seria apresentado. Na edição cearense, não há seleção. Qualquer escola pode pagar a inscrição e participar. O desempenho delas aqui determina quem está apto à competição em nível nacional.
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