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Vida & Arte

ENTREVISTA

Engenheiro do samba

Em entrevista ao O POVO, um dos biógrafos de Noel Rosa, o músico Carlos Didier, discorre sobre a vida, a obra, os amores e as dores do poeta da Vila Isabel


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05/05/2007 14:21

CARLOS DIDIER, biógrafo do Noel Rosa, contou a história do poeta da Vila ao lado do jornalista João Máximo (Divulgação)
CARLOS DIDIER, biógrafo do Noel Rosa, contou a história do poeta da Vila ao lado do jornalista João Máximo (Divulgação)

Em 1965, o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro editou um long-play somente com músicas de Noel Rosa, cantadas por ele mesmo. O pai de Carlos trabalhava ali perto e, de volta para casa, comprou o LP e levou-o para os filhos. "Sou de uma família de pessoas que tocam violão. Mas o contato mais forte, embora ele já fizesse parte do repertório do meu pai, foi com esse disco que ele trouxe do Mis. Eu tinha 11 anos e fiquei vidrado naquilo. Comecei a tocar violão por causa daquilo", lembra o engenheiro que escreveu uma das mais completas biografias de Noel. "Nesse meu entusiasmo por Noel Rosa, resolvi fazer o conjunto Coisas Nossas, com meu irmão Aluisio Didier e o amigo Oscar Bolão (1975), só pra tocar Noel. E fizemos uma extensa carreira, chegamos a tocar mais de 100 músicas dele. Quando estava começando a perder força, em 1980, decidi que era hora de aprofundar ainda mais aquele trabalho de pesquisa. Já tínhamos entrevistado Ismael Silva, por exemplo, e tinha entrevistado um ex-colega do Colégio São Bento. Em 1980, entrevistei 12 figuras, dentre elas o Cartola, que ia morrer em dezembro daquele ano. No final de 1980, me foi apresentado o João Máximo".

Ao lado do jornalista João Máximo, o músico e apaixonado noelista Carlos Didier se dispôs a contar a história do poeta da Vila - mais tarde, Didier ainda escreveria materiais biográficos do cronista Orestes Barbosa e do compositor Abel Silva. Os árduos trabalhos de 1981 a 1987 deram resultado: Noel Rosa - uma biografia. Publicado pela Editora da Universidade de Brasília em 1990 e bem recebido pela crítica especializada e pelo público, o livro teve sua edição esgotada e, hoje, é artigo raro até em sebos. A ausência de reedição vem por bronca de dona Lindaura Martins, esposa de Noel, falecida em 2001. Ela teria se chateado com algumas passagens do livro, como a relacionada a seu casamento. Essa e outras histórias - como os bastidores da geração do samba carioca dos anos 1930, como as dificuldades de Noel em lidar com seu defeito no queixo, como o amor do carioca pela prostituta Ceci -, Didier compartilha na entrevista que segue. (Natália Paiva)


O POVO - Noel foi o primeiro compositor branco e de classe média a subir às favelas cariocas, a reunir os sambas do morro e do asfalto. Qual foi o papel de Noel na construção do samba como linguagem musical brasileira?
Carlos Didier - Ele teve um papel fundamental na construção do samba carioca. Exatamente porque ele amplia, alarga a utilização do samba. O samba do Senhor o tema era quase sempre o amor, o dinheiro, umas coisas assim, sambas lindos, mas quase sempre com essa temática. O samba do Estácio é tranquilamente em cima da vida do malandro. A mulher - as mulheres do mangue, que viviam associados a elas -, o jogo, a questão do dinheiro, a dificuldade da sobrevivência. Quando você observa o Com que Roupa, você percebe como ele alarga as fronteiras do samba, como ele introduz a crônica. Noel, pra mim, é o camarada que pra mim viabiliza a crônica no samba. E só isso seria uma contribuição sensacional. Mas tem outras coisas, como o humor, por exemplo. Toda vez que você vai ouvir o samba, por exemplo, do Moreira da Silva na década de 1940 e 1950, samba de breque, e os sambas eram humorísticos, eram crônicas, está ali um fruto dessa conquista do Noel Rosa. O Zeca Pagodinho hoje, a mesma coisa. Quando ele canta um samba engraçado, de humor, está ali algo que Noel Rosa abriu lá atrás. Isso pra citar uma coisa que ele fez, ele atuou também no samba-canção, samba romântico, uma questão mais existencialista. Tinha uma época, mas essas coisas algumas mais firmemente ligadas a ele. Evidentemente, estamos falando de uma época de grandes talentos, como Ary Barroso, Lamartine Babo, Cartola, Ismael Silva, Alcebíades Barcelos, o Bide. Essa turma não é brincadeira, todos construíram isso. Mas alguma coisa você identifica o dedo do Noel mais nitidamente.

OP - De que forma o lastro da obra de Noel permaneceu na música popular brasileira, nos anos seguintes ao seu aparecimento e até hoje? Como ele permanece numa roda de samba de hoje?
Carlos Didier - Quando é que ele não permanece? Quando a roda de samba é de partido alto bem tradicional, onde o tema do samba é simples e tal, você vai ver que Noel até fez isso em rádio... Noel leva uma roda de samba por muito tempo, com um samba que ele aprendeu no Estácio, com um sambista chamado João Mina. Com um refrão chamado De Babado: "De babado sim, meu amor ideal, sem babado não"... E ele ia improvisando isso. Aliás, ele acabou até registrando essa música em disco, ele mesmo cantando com Marília Batista. No programa de rádio, ele fazia essa brincadeira lá. Essa brincadeira do samba de partido alto - brincadeira porque é um jogo, uma diversão comunitária -, na mesa todos cantam o coro, e os improvisadores, um a um, vão inventando os versos ali na hora. Essa brincadeira é a matriz do samba carioca. É em cima disso que o Estácio trabalhou, em cima disso que Senhor trabalhou e em cima disso que acabou Noel Rosa trabalhando nisso também. Quando as festas hoje são em cima dessa coisa mais tradicional, você não percebe a mão do Noel. Mas se o samba que vai ser mostrando é um samba com desenvolvimento maior da letra, quase que certamente o dedo do Noel está ali. Ele mesmo era um grande compositor de música, um bom violonista, um compositor que usava modulações de tom, não permanecia no mesmo tom, tinha certo arrojo. É importante a gente sempre saber que tem uma história sendo construída, desde lá de trás, e que isso prossegue.

OP - Em sete anos de carreira, Noel compôs 252 músicas e passeou por praticamente todos os gêneros musicais do seu tempo, da embolada ao foxtrote, passando pelo samba, valsa, canção, choro etc. O que caracteriza a obra de Noel como única - em termos de originalidade e renovação - musicalmente, tematicamente, lingüisticamente e poeticamente?
Carlos Didier - Ele compôs, de fato, em diversos gêneros, como você está dizendo. Mas o gênero que ele investiu mais foi o samba, essa era sua paixão. Exatamente por conta dessa conexão com a música do morro. Mas também dos deserdados da sorte do asfalto. O Rio de Janeiro, na época, tinha dois carnavais. Um carnaval da Avenida Rio Branco, a avenida central, que era a mais elegante da cidade, e o carnaval na Praça Onze. Na avenida central, depois Rio Branco, as músicas mais representativas eram as marchinhas carnavalescas. Noel também compôs bastantes marchinhas, muito bonitas até. Pastorinhas é uma dela. Mas a música da Praça Onze, dessa população de menor poder aquisitivo, era o samba. E ele investiu mesmo nessa vertente. E depositou ali a sua genialidade. Se você pegar a produtividade dele nesses sete anos e meio, você vai ver que os compositores mais produtivos da música carioca, pra produzir 250 músicas, vão demorar muito mais que sete anos, três ou quatro vezes isso. Então, ele tinha essa questão do gênio, que espantava todo mundo na época e hoje. Acho que ele é um grande incentivador dos talentos atuais, por conta desse desempenho extraordinário. Ele tinha uma abordagem toda diferente dos temas. Uma das coisas que eu investiguei na pesquisa para biografia foi essa questão de ele ser chamado de o 'filósofo do samba'. Embora ele não tenha sido no sentido stricto um filósofo, ele era um pensador. E a turma da época, Cartola etc., reconhecia nele, dizia "Não, é muito justo. O negócio dele é superior e tal". Então, existe uma superioridade no pensamento do Noel que não é simplesmente uma questão estética. Porque a música popular, Orestes Barbosa, por exemplo, é altamente sofisticado. Mas Noel tinha um pensamento por trás. É esse pensamento profundo que faz com que surja a alcunha 'filósofo do samba' e que todo mundo reconheça isso. Isso tá demonstrando música a música. No final da vida, ele faz uma música linda, chamada Eu Sei Sofrer. Ele diz que "saber sofrer é uma arte, e pondo a modéstia de parte, eu posso dizer que sei sofrer". É um negócio diferente. Eu vejo esse tipo de coisa no Shakespeare. Quando ele está desenvolvendo a cena dele, de vez em quando os personagens dizem coisas superiores, filosóficas. É esse tipo de raciocínio por trás do poema que distingue Noel Rosa. Ele não vai fazer só o relato, fazer a crônica já seria extraordinário. Ele vai concluir. Além de tudo, sabia fazer versos amorosos. "Luto preto é vaidade, nesse luto de amor". É maravilha. Ele tá cantando um amor que está morrendo. A obra do Noel Rosa é atemporal. Ela não tem idade por conta desse vôo dele; saudade é saudade. Enquanto isso puder ser expresso em português, os versos de Noel vão permanecer.

OP - Há quem diga que a importância de Noel é superestimada, que em sua geração havia outros nomes mais dignos, como Cartola, Ismael Silva, Francisco Alves, Ary Barroso, Lamartine Babo. Ou que sua fama foi construída apenas nos anos 1950, quando se escolheu o sambista branco e de classe média pra representar toda aquela geração. Quais as dimensões dessas críticas?
Carlos Didier - (Risos). Primeiro, acho positivo que haja críticas. Mas eu não acho que nenhum desses outros tenha o talento que ele tinha. Noel foi o camarada, branco, que teve mais parceiros negros da história da música brasileira. Ele adorava ter parceiros. Adorava escrever um pedacinho, uma segunda parte. Praticamente todos daquela época foram parceiros dele, negros e mulados. Só o Pixinguinha, não sei bem por quê, não foi parceiro. Talvez porque ele estivesse fazendo mais arranjos, não estivesse compondo canções. Ele se aproxima disso espontaneamente. Recentemente, vi mais uma vez a minha entrevista com Cartola, em 1980. Em abri a entrevista perguntando a ele: "Cartola, o Jaci Pacheco, primeiro biógrafo de Noel, afirma que o Noel subiu o morro pra conhecer você. Eu não sei se você lembra disso, se isso é verdade..." E ele me disse com todas as letras: "Lembro muito bem, foi exatamente o que aconteceu. Ele foi subindo perguntando nas biroscas aqui e ali onde é que estava um cara chamado Cartola. E se apresentou, pediu pra mostrar umas músicas, pra ouvir minhas músicas e ficamos lá..." Foi uma amizade da vida inteira. Noel dormia lá, né? E quando ele sobe o morro, em 1932 pra conhecer o Cartola, já era o maior nome da música brasileira. Porque o Com Que Roupa já tinha acontecido. O normal seria que o Cartola fosse procurar o cara de sucesso. Embora eu já tenha visto essa crítica, inclusive focalizada na briga dele com o Wilson Batista, como se Noel fosse 'o branco' que venceu a polêmica com 'o mestiço'. Primeiro, o Wilson é de um talento extraordinário. Os fãs do Wilson têm direito de reclamar. Na polêmica, Noel se deu bem. Mas, no fundo, ele só fez isso: exaltar o samba que era uma arte dos mestiços da Praça Onze. Quem pôs todo seu talento a serviço da estética popular, ampliando, colaborando com a obra dos outros muitas vezes sem ser reconhecido como parceiro - como é o caso das quatro parcerias com Cartola que ele não quis assinar, pra deixar o amigo na frente (risos). Ele, por amigo, Cartola disse isso, tá gravado isso aqui. "Não, o samba é seu, fiz por amizade, não quero aparecer". Isso de o Noel ser o branco da classe média não acho uma visão correta. O Noel foi mestiço. Era branco porque era geneticamente assim. Culturalmente, Noel era mestiço.

OP - Seu nascimento foi complicado, o parto precisou da ajuda de fórceps, o que lhe rendeu uma paralisia parcial no rosto. De que forma esse defeito no queixo influenciava sua vida - tanto praticamente, na hora de comer etc. -, quanto na forma de ele lidar com sua auto-imagem, quanto em relação a sua própria criação?
Carlos Didier - Isso marcou a vida dele. Ou seja: tudo está marcado em Noel Rosa por esse acidente do nascimento. É algo que ele não podia esquecer porque doía. E dizem que ele foi crescendo, o defeito foi aparecendo e foi se tornando cada vez mais doloroso, fazendo com que os dentes da dentição definitiva nascessem encavalados, ficassem um por cima um do outro. Tinha de fazer operações pra retirar um. Diariamente, quando ele comia, isso era feito de maneira especial. O depoimento da esposa é de que os alimentos na casa da mãe de Noel eram especiais, "eram apresentados mastigados". Um filé de frango já era desfiado. E não tinha nem gosto. Segundo dona Lindaura, ele nem cultivava gosto pela comida. Comia só pra ficar vivo. Acho que isso é fundamental para entender o Noel Rosa. Na obra dele, o fundamental é o ponto de vista psíquico. O cérebro é a máquina. Ele aprendeu a fazer uma coisa de profunda sabedoria, que é brincar com seus problemas. Quando uma pessoa brinca com seus problemas, eles diminuem sua intensidade, para o próprio psiquismo da pessoa, e ao mesmo tempo destrói qualquer tentativa alheia de feri-lo com aquilo. Aliás, o Wilson Batista perde a esportiva, chama ele de frankstein da Vila. Ele brincava com isso se desenhando com o defeito. O maior número de desenho que a gente conhece é do próprio Noel brincando com aquilo. Já estabelecendo: "eu sou assim". Nas músicas, ele se dizia fraco, medroso, e essas coisas ele dizia com freqüência. É um tipo de humor que brinca consigo mesmo. Tem uma música chamada Tarzan, o Filho do Alfaiate. É uma expressão que quer dizer "eu sou Tarzan, eu sou forte, mas quem me fez forte foi o meu alfaiate, que fez um terno robusto". Essa música, gravada pelo Almirante em 1936, mais recentemente o Djavan e o Zeca Pagodinho gravaram. A figura esquálida que ele canta na primeira pessoa ("Quem foi que disse que eu era forte?/ Nunca pratiquei esporte, nem conheço futebol"), e no final quando ele vai disputar uma luta, um camarada diz que ele vai enfrentar um campeão de boxe. Quando ele tira o roupão, o empresário cancela o contrato pra evitar assassinato (risos). Essa é uma brincadeira extraordinária com a própria fraqueza. Acho que isso tudo é originário do acidente com fórceps. Acho que ele começa a ficar genial ali, não sei (risos).

OP - Noel abandonou a faculdade de Medicina ainda no primeiro ano, pra se dedicar às maravilhas do samba. Decerto, deve ter causado desgosto aos pais. Mas foi com os próprios pais que aprendeu a tocar bandolim e violão. Qual era sua relação com a família?
Carlos Didier - Era uma relação boa. Não me parece nada complicado, ficou ali até o final dos dias. Noel era um boêmio. O boêmio é aquele camarada que nasce num meio burguês, discorda dos valores burgueses e fica ali na contramão, vivendo em horários alternativos, tendo atitudes com maior liberalidade, convivendo com pessoas considerados não bem vistas na sociedade. A questão da medicina é interessante. Ele foi fazer medicina porque, até onde conseguimos informação da família, o primogênito era médico. Agora ele, no Colégio São Bento, apesar de inteligentíssimo, foi um mau aluno. E a partir de 1928, quando acabou o curso, ele não passa em todas as matérias. Mas tinha um recurso na época que você podia prestar exame no Colégio Dom Pedro Segundo. Ele fica prestando exame, passa em um, não passa no outro. Chega a Revolução de 1930, em outubro, e nesse momento o Noel Rosa ainda não passou no Pedro Segundo, não se formou no ginásio, portanto não podia tentar faculdade. Quando a revolução estourou, tornou-se um problema o que fazer com os estudantes. Foram interrompidas as aulas, o que fazer? Getúlio lavrou um decreto no qual todos os estudantes tinham passado. E Noel Rosa passou 'por decreto'. Em janeiro seguinte, viu a música dele Com que Roupa se tornar o maior sucesso do carnaval do ano. Esse camarada é que fevereiro/março entra na faculdade de Medicina. Deve ter tido dias incríveis. Sendo chamado pra tocar, pessoas escrevendo matérias sobre ele. Ele não chegou a fazer nem a prova do meio do ano, abandonou. O pessoal em casa pode ter achado ruim num primeiro momento. Mas o cara tá chegando ao sucesso rapidamente. No programa Casé, do qual ele foi um dos astros, de início o cachê era 50 mil réis para cantar. O programa era todo domingo, de início. Daí o cachê passou pra 100 mil réis, e depois passou a ter domingo, terça e quinta. Só aos domingos, dava 400 mil réis por mês. Uma família de classe média vivia bem com 500 mil. Então, isso virou uma profissão. E a carteira profissional dele era 'cantor de rádio'. Cantava, tocava e tinha uma graça toda especial. Eu vejo que o grande nome da música carioca era o Francisco Alves, o segundo era a Carmem Miranda e o terceiro era o Noel Rosa. A mãe gostava muito das músicas dele, o pai era uma pessoa inteligentíssima, tocava violão, homem sensível, caráter extraordinário. Mas acabou se matando, e isso marcou muito o Noel.

OP - Aos 17 anos, Noel teve seu primeiro encontro com a morte: encontrou a avó pendurada em uma corda, no quintal de casa. Em 1935, o pai se enforcou ao pé da cama. Qual era sua relação com a morte?
Carlos Didier - A morte marca muito o Noel. Pelo acidente do nascimento, que é uma forma de a morte se manifestar, precariedade da condição física já no instante zero da vida dele, e a avó. E depois, acabei descobrindo que o pai da avó tinha se matado. Até investiguei isso, li tratados de psicologia pra saber se tinha alguma coisa hereditária nisso. O bisavô se mata, a avó se mata, o pai se mata. O Noel ficou apavorado, e dizia isso pro pessoal: "Eu não vou me matar". Quando ele soube do pai, foi correndo pra casa do padrinho e chegou abalado, dizendo isso. O Noel gostava muito da vida. Houve um engano, do primeiro biógrafo dele, que dizia que isso era um suicídio a prazo, que a pessoa que se entregava à boemia estava se matando a prazo. Mas a pessoa se entrega à vida pra viver a vida, e Noel gostava daquele tipo de vida. Ele vivia de um modo muito intenso. Então, não tem a ver. Eu acho que isso é do ponto de vista psicológico. Você saber que o seu pai se matou não é brincadeira. Você fica com a tendência de jogar a toalha num momento mal. Mas Noel era profundamente apegado à vida. Tinha seus momentos de reflexão, era uma pessoa fascinante. Ainda estamos começando a conhecer Noel Rosa. Essa é minha opinião muito sincera. Mas ainda não chegamos lá, apesar de já ter se escrito tanto sobre ele. Umas pessoas dizem que ele é alegre, outras dizem que ele é triste. Mas ele na verdade era alegre e triste (risos). O ser humano tem muita dificuldade de abordar contradições, mas o caso do Noel é isso. Como grande pensador, era uma pessoa introspectiva. À noite ficava pensando, refazendo os versos. E existia o camarada alegre, que improvisava coisas e ria da vida.

OP - A mãe dele, dois anos depois da morte do filho, deu uma entrevista na qual conta um episodio em que ele caiu de uma ribanceira e tinha ficado entre a vida e a morte. Pra ela, isso teria sido uma tentativa de suicídio, por causa da perseguição de um professor.
Carlos Didier - Essa foi uma questão biograficamente complicada pra saber o que a gente ia dizer sobre isso. A gente não pode desmentir a mãe. Aí a gente pensou se isso não seria, talvez, uma brincadeira, de ter levado um tombo ou de ter sido uma grande molecagem dele. Essa história da dona Martha não cabe muito bem na história do Noel, porque ele sempre ridicularizou o colégio, brincava com os professores, fazia música de galhofa. Ficou reprovado com a maior tranqüilidade, uma vez, antes de 1928, e depois não se formava nunca. Como ele vai ficar impressionado com a perseguição de um professor? Ele que perseguia os professores. Esse era o Noel do Colégio São Bento. Os colegas que deram depoimentos diziam que ele era o grande gozador, enfrentava e ridiculariza os professores mais severos. E agora? O que aconteceu de verdade nessa história? Seria mais uma brincadeira dele, maneira de iludir a mãe? Ou isso aconteceu mesmo? Talvez a mãe esteja muito impressionada. "Menino se jogou, tentou se matar". A gente ficou entre essas duas coisas (risos), sem saber o que fazer. Porque não tem outro depoimento, outra coisa que complemente, dê detalhes. É fogo. Nos deixou numa sinuca de bico. Você vem narrando no colégio um cara galhofeiro, toca violão no recreio, fica reprovado, de repente uma cena de suicídio? Isso não faz o menor sentido. Se a partir daí ele tivesse ficado um cara encucado com isso, mas não... Vagabundo o tempo inteiro. Como esse camarada tem uma crise dessas? Não sei, não digo que não aconteceu. Talvez o negócio da avó, no meio do colégio São Bento, em 1927... Ficamos com a dúvida. É a mãe que tá dizendo. Mas tá dizendo num momento muito doloroso. Ela sentiu muito a morte do Noel, ocorrida dois anos depois da morte do marido. Ela sentiu tanto, que ficou logo com cabelos brancos e morreu em 1940, nessa esteira do sofrimento. Mas conto pra você com toda sinceridade: nós ficamos com a dúvida.

OP - Noel se casou em 1934 com Lindaura Martins. Com ela, quase teve um filho, mas Lindaura acidentou-se quando grávida. No entanto, sua paixão por Ceci lhe rendeu grandes sofrimentos e ótimos sambas. Que relações Noel tinha com essas mulheres?
Carlos Didier - Era relacionamento variado. Acho que casa bem com essa coisa da vida intensa dele. Ele era muito intenso. Ele tem uma namoradinha. E depois tem uma outra mais avançadinha. Depois tem uma no cabaré - Ceci e outras. E depois tem caso com uma operária, caso da Lindaura. Ele teve uma vida muito curta, então era uma vida muito intensa. E a Lindaura foi uma dessas figuras de quem ele se aproximou. Assim que ele ganhou dinheiro com a música, ele comprou um automóvel, numa época em que era um diferencial no namora. Você podia ir pro ponto mais distante. A narração dos colegas da época diz que esse banco de trás era disputado. E os dois casais iam namorar em algum ponto da cidade. Ele passava na fábrica, buzinava e as garotas gostavam. A Ceci é "a" grande paixão dele. Acho que na Ceci ele teve uma competidora à altura. Porque ela queria casar pra sair da vida de cabaré. Ele já não podia mais casar. É no meio desse conhecimento com a Ceci que ele é obrigado a casar com a Lindaura. Ele deixa de ser o príncipe dela, e a vida dela é liberal, tinha outros namorados, como o Mário Lago. As músicas feitas pela Ceci são O Último Desejo, a mais famosa, Dama do Cabaré, que foi simultânea, O Maior Castigo que Te Dou, que foi pra ela, Pra Que Mentir, maravilhosa música que relata o triângulo amoroso entre Ceci, Mário Lago e Noel.

OP - Por que ele foi obrigado a casar com a Lindaura?
Carlos Didier - Essa história me custou a amizade da dona Lindaura (risos). Mas o que eu posso fazer? A verdade tem que ser contada. E a fonte nossa é jornal da época e depoimento de vizinhos, pessoas muito próximas. Aconteceu o seguinte. Ele levou a Lindaura pra namorar, a gente acha que num quartinho. E depois do amor propriamente dito, ele dormiu. Quando ele acorda, já tá de manhã. Ele traz ela de volta pra casa, ela tinha de pegar no serviço cedo. De noite, quando a mãe dela viu que ela não tava em casa, foi à polícia e registrou que Noel tinha saído com a filha dela que era menor. O delegado foi saber o que foi acontecendo... E esse processo, a dona Marta disse que ia casar o cara. Era tudo gente de bairro. A dona Martha começa a tentar pegar o Noel pra casar. E o Noel começa a pular de galho em galho. A mãe da dona Lindaura expulsa ela de casa e ela fica com Noel, dormindo aqui e acolá. Esse ano de 1934 é uma aventura, ele leva a Lindaura pra tudo quanto era lugar, dormia em trem. Ele pegava um trem pra Campos com ela dormindo no banco do lado e ele escrevendo versos. Ele ia e voltava, quando voltava tava de dia. Deixava ela no trabalho e ia dormir em casa. Tem histórias assim incríveis. Até que ele fica tuberculoso e o médico diz pra ele respirar ar puro em Belo Horizonte, na casa da tia Carmen, irmã de Martha. A dona Marta diz: "Noel, na casa de Carmen só casando". Ele casa e leva Lindaura para Belo Horizonte. Depois volta, vão ficar na casa da mãe dele. Logo depois o pai se mata, passa a dormir no quarto dos pais e passa a deixar a Lindaura com a mãe. Aí ele vai pra boemia com a Ceci. Mas não como príncipe da Ceci, que queria casar para fazer as pazes com o pai, também de Campos. Ele continua a manter o relacionamento amoroso com a Ceci. Ele casou com dona Lindaura que é uma pessoa muito boa, muito doce, mas que não gostou dessa história (risos).

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