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Vida & Arte

NOEL ROSA

Malandro da vila

Natália Paiva
da Redação

Setenta anos atrás, o bairro carioca de Vila Isabel chorava. E acompanhava, nas lágrimas, qualquer um que não fosse ruim da cabeça ou doente do pé. É que um dos maiores compositores da história da música popular brasileira tinha dado seu último suspiro. Aos 26 anos de idade, o também letrista e violonista Noel Rosa deixava este mundo. O vazio ficou preenchido somente pelas suas mais de 250 músicas


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05/05/2007 14:21


Nos fundos de um chalé de madeira no bairro carioca Vila Isabel, deitado na cama da alcova, ele recosta a cabeça no colo de Lindaura. Busca aconchego. Suspira. Ela cutuca o esposo, mas ele já não mais responde. Não mais faz graça, nem tira onda, nem bebe cerveja, nem cantarola, nem dedilha o violão. Nem mais noelroseia. Na casa de frente, um chorão chamado Vicente Sabonete comandava uma festança. Anos depois, esses últimos momentos de uma vida seriam recontados de forma mítica, envoltos pela fantasia criada ao redor do homem-mito-sem-queixo: do pulmão boêmio de Noel Rosa, a última lufada de ar teria se esvaído ao ouvir De Babado, tocada pelos vizinhos festeiros. Doente de tuberculose, ele teria usado seus últimos instantes pra batucar, na cama de madeira, seus versos sobre o vestido de babado de um amor ideal... Mas nem foi assim. Noel de Medeiros Rosa morreu, num dia escuro de 4 de maio de 1937, como um passarinho. Feito um tangará novinho que, de repente, perde o ar. E foi no silêncio dos fundos da casa da Rua Teodoro da Silva, no mesmo quarto onde nascera 26 anos antes.

O parto do segundo filho de dona Martha e de seu Manoel de Medeiros Rosa foi complicado, teve-se de apelar para o fórceps (espécie de pinça cirúrgica usada para extrair a criança do útero). Resultado: o menino teve afundamento e fratura do maxilar. Agora, o defeito no queixo iria lhe acompanhar por toda a curta vida - e doía, e era feio... Mas também era matéria-prima de produção artística, era fogo de energia criativa.

Depois das primeiras aulas na escola da mãe, professora, Noel matricula-se, em 1923, no Colégio São Bento. Mau aluno. Mas bom de ouvido, bom de dedilhar violão - aprendeu as posições iniciais com o pai, depois de passar pelo bandolim ensinado pela mãe - e de inventar poemas musicados.

Aos 14 anos, já bom violonista, compõe pela primeira vez: Cumprindo a Promessa. Com Almirante, Braguinha, Alvinho e Henrique Brito, forma o grupo Flor do Tempo. "Esse grupo foi se apresentando em festa do colégio e, depois, fora também. Conseguiu uma apresentação no rádio, que estava engatinhando, e pra isso tiveram de reformular o conjunto e puseram o nome de Bando de Tangarás", conta o pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez. Do seu acervo de mais de 22 mil discos de cera, ele mostra um especial: Com Que Roupa, delicadamente arranhado pela agulha do gramofone, que evidencia a voz esquisitamente deliciosa de Noel.

No Carnaval carioca de 1931, pela elegante Avenida Rio Branco e pela baixaria da Praça Onze, o povo só se fazia uma pergunta: "Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?". Gravada originalmente na Parlophon em 1930, pelo próprio Noel Rosa, logo a música ganhou a cidade e o País. A música pôs em curso o projeto Noel, que em pouco mais de sete anos iria marcar a ferro e fogo a música brasileira. Impressionavam a sofisticação do modo de compor a partir da matriz popular - casamento do morro e do asfalto - e o espírito lírico e humorístico para falar de qualquer assunto - da crônica da cidade, dos amores, das mazelas nacionais. "O legado de Noel passa pela experimentação em termos poéticos e musicais. Ou seja, ele criou um modelo de canção extremamente sofisticado, que foi retomado por vários compositores de gerações subseqüentes", aponta Santuza Naves, professora do Departamento de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Hoje, pela Vila Isabel, se caminha na ponta dos pés. Como quem pisa nos corações que rolam dos bares e cabarés, por ali se pisa, distraidamente, em sambas imortais. Grande Noel.



SAIBA MAIS

NO YOUTUBE
* Raríssimo vídeo de Noel Rosa se apresentando com o Bando dos Tangarás (2'07'')
http://www.youtube.com/watch?v=26GAxh6_aKI

* Trailer do filme Noel - o Poeta da Vila
http://www.youtube.com/watch?v=MkCiAPYOsOY

* Samba no Bar do Arlindo: trecho de Com Que Roupa
http://www.youtube.com/watch?v=riYJYJdAer8

* João Gilberto canta Feitiço da Vila
http://www.youtube.com/watch?v=8gR5niHQkSI


LIVROS
- Noel Rosa: Língua e Estilo. Os professores Castelar de Carvalho e Antonio Martins de Araújo decifram, em análise lingüístico-estilística, as letras de suas composições. Editora Thex, 1999, 165 páginas. R$ 20.

- Noel Rosa: uma Biografia. Nessa biografia, os jornalistas Carlos Didier e João Máximo passeiam pelos grandes compositores dos anos 1910, 1920 e 1930 até chegar em Noel Rosa. Reconstituição histórica da produção artística e da vida do compositor carioca. Lançado pela Editora UnB/Linha Gráfica Editora, em 1990. Atualmente esgotado. Resta os sebos.

- Auxílio Luxuoso: Samba símbolo nacional, geração Noel Rosa e indústria cultural. O pesquisador Wander Nunes Frota discorre sobre o campo de produção cultural e artística da música popular no Rio de Janeiro, nos anos 1920 e 1930.

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