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Vida & Arte

ARTE EM CRIVO

Poesia concreta

Eleuda de Carvalho
da Redação

O artista plástico Tunga, filho (e herdeiro estético) do poeta Gerardo Mello Mourão, esteve há poucos dias na cidade, para lançamento da biografia sobre seu pai. Na última sexta-feira, ele foi o convidado inaugural do novo projeto do Dragão do Mar, Arte em Crivo


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05/05/2007 02:51

TUNGA, artista plástico cearense, abriu o projeto Arte em Crivo, no Centro Dragão do Mar/ FOTO EDIMAR SOARES
TUNGA, artista plástico cearense, abriu o projeto Arte em Crivo, no Centro Dragão do Mar/ FOTO EDIMAR SOARES

Tunga esteve na cidade. Veio, com seu irmão Gonçalo e sua mana Bárbara, ao lançamento da biografia sobre seu pai, A Saga de Gerardo: um Mello Mourão, do escritor José Luís Lira. Demorou-se mais dois dias, antes de embarcar para Nova York, onde tinha agendada mais uma exposição. O artista plástico e curador do Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar, José Guedes, pegou a deixa e chamou Tunga para inaugurar um novo projeto do MAC, chamado Arte em Crivo - que vai trazer, diz Guedes, "artistas, críticos e curadores de relevância para a arte local e brasileira, para uma fala sobre seu trabalho e trajetória artística, sempre em consonância com a produção contemporânea". Antes da fala, às sete da noite, Tunga visitou a exposição Entre, a Obra está Aberta, de Amélia Toledo, na companhia de Guedes. Demoraram-se entre estas peças singulares, inquietantemente belas, esferas, colagens, jóias, fatias de horizonte, almofadas de cristal, imensas bolas transparentes com espuma, pedras, metais.

Todo de branco, calça jeans e camisa de linho, sapatos marrons, uma imensa bolsa preta. Maço de Marlboro e óculos de aros redondos dourados. Recostado nos almofadões em couro, na entrada da Biblioteca Leonilson de Artes Visuais. Cabelo gris, ao vento, ele diz: "Estou de carona do Gerardo Mello Mourão, que me fez redescobrir um outro Ceará, que se renova no Dragão do Mar, um espaço de quem é da terra e de quem não é, e se constrói à luz que incide sobre Fortaleza". Tempos que não vinha por estas bandas, "uns dez anos, mas vivi aqui parte da minha infância. A poeira que trago embaixo dos pés... Poeira, não Ipueiras", fala, fazendo um trocadilho com o nome da cidade em que seu pai nasceu.

Ele mesmo, de nome todo Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão, tem dois registros de nascimento. Um, de Palmares, Pernambuco, outro do Rio de Janeiro. Ele resolve a parada: "Sou venusiano, caí na terra por acaso". Arquiteto de formação, Tunga expôs, a primeira vez, uma série de desenhos, no Chile - no ano em que Allende ainda era o presidente socialista, um pouco antes do terror chegar à La Moneda. Dois anos mais tarde, em 75, criou a série Museu da Masturbação Infantil, uma instalação para o Museu de Arte Moderna do Rio. Em 1982, apresenta esculturas, na 41ª Bienal de Veneza. Os títulos de seus trabalhos dão uma idéia bem sugestiva do que ele se propõe: Xipófagas Capilares Entre Nós (de 1985), Vanguarda Viperina (1986), Preliminares do Palíndromo Incesto (1992). Em 2005, ano do Brasil na França, levou à pirâmide de vidro do Louvre uma provocação: À luz de dois mundos - numa balança, esculturas de cabeças do acervo do próprio Louvre, equilibrando sete crânios em bronze pendurados em tranças de cabelos. Tunga revela "o museu como uma grande pilhagem", diz o próprio, recostado no almofadão.

Tem Tunga no Museu de Arte Moderna de Nova York. Ele, performático, no Morumbi Fashion. Esteve na X Documenta de Kassel, na Alemanha - nos dez anos da tragédia de Chernobyl (criou uma paródia de acelerador de partículas). Laminadas Almas, no prédio do Arquivo Geral, dentro do Jardim Botânico: um laboratório imaginário, com inúmeras lâminas de vidro e viveiros translúcidos que deixavam ver culturas de rãs e de moscas. Com Erik Rocha, filho de Glauber, fez os filmes-experimento Medula e Quimera, este último, participou do Festival de Cannes e foi comprado para ampliar a coleção do Beaubourg de Paris. Tunga criou algumas capas para os livros do pai, entre eles, o épico Os Peãs. Ele mesmo lançou um livro, Barroco de lírios (Cosac Naify), um retrospecto dos principais trabalhos realizados entre 1981 e 1996, além de textos autorais e os temas recorrentes em sua arte - coisas como tacapes, ímãs e tranças de cabelo.

Artista plástico, diz, "é o termo que uso para falar de minhas atividades. Me considero um poeta. O que me interessa, fundamentalmente, é a poesia, este éter denso, a capacidade simbólica de prestar atenção a estes processos primários, onde a lógica que nos faz não cair num buraco na rua é alterada pela lógica de compreender que aquele buraco é o molde de uma escultura. Ter atenção. É preciso. Esta ascese de se concentrar nos processos". Acende um cigarro. "Muito do que faço, poderia não ser chamado de artes plásticas. Eu me interesso por tudo. Viajo mundo afora e vejo no Brasil uma potência criativa dentro das artes plásticas mais interessante que na cena parisiense, londrina ou noviorquina. A espontaneidade dessa explosão criativa, a liberdade das artes plásticas, duramente conquistada, que não encontra respaldo em outros elos. Os políticos têm sido incompetentes em compreender que um país muda a partir da educação, e não do consumo. O que me parece ser uma grande meta oficial hoje em dia. Infelizmente. Em arte, a gente não tem consumidores, tem co-autores participando do projeto de liberdade que aquele provocador originário propõe".

"Nunca tive ateliê. Quando me perguntavam, onde é seu ateliê?, eu sempre apontava para a rede. Meu ateliê é um território cinza, irrigado de vermelho e que balança. O cérebro, dentro de um corpo, numa rede". Fala, ainda: "O universo de signos que disponho não se refere a uma cultura precisa. O sino, o tacape, a trança - signos universais. Meu primeiro público sou eu. O segundo também. Exclua disso todo e qualquer narcisismo. Eu me reconheço no outro, o mistério mais profundo. A arte contemporânea anda esquecida disso. Não quero ter identidade. Isso é um falso problema dos europeus. Somos idênticos à mudança. O que faço é instauração. É da ordem do fenômeno. A luz é um fóssil. Os paradoxos me interessam". Ele voltará em agosto.


SERVIÇO
Barroco de Lírios. Livro de Tunga sobre sobre e outras criações. Cosac & Naify. Custa R$ 180


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