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Vida & Arte

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Uma trajetória de amor ao palco

Pioneiro da dança no Ceará, Hugo Bianchi fala do passado e fala sobre o cenário atual. A entrevista conta com perguntas enviadas por personalidades da dança atual, algumas inclusive ex-alunas do mestre


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27/04/2007 00:47

HUGO BIANCHI comemora seu aniversário anualmente promovendo festival que reúne bailarinas de diversas academias e convidados/ FOTO FCO FONTENELE
HUGO BIANCHI comemora seu aniversário anualmente promovendo festival que reúne bailarinas de diversas academias e convidados/ FOTO FCO FONTENELE

O POVO - Para o senhor, o que é necessário para ser um bailarino?
Bianchi - Em primeiro lugar, muita vontade de sofrer. Eu sofri muito no Rio de Janeiro. Depois vem humildade e muita disciplina. Não gostar de farra, porque pra ser profissional tem que ter no mínimo quatro horas de aula. Pra ser bailarino, tem que deixar muita coisa de lado. Foi o que eu fiz. Na minha academia, sempre estou ali em cima, olhando, e muita gente sai, porque não gosta da minha atitude. Acho que tem que ter disciplina. Hoje em dia todo mundo dá aula de qualquer jeito.

Claúdia Pires e Rosa Primo - O que o senhor destacaria na dança cearense atual?
Bianchi - Acho que a dança cearense está muito bem representada. O balé clássico é representado pela Goretti (Quintella), Madiana (Romcy), Mônica Luiza, a Academia Premius, Júlia Candida e outras mais. E pela parte contemporânea, tem a Rosa Primo, a Cláudia Pires, a Jane Ruth, a Andrea Bardawil... Tanto o balé clássico como a dança contemporânea estão bem representados. Quando é uma coreografia bem estruturada, acho a dança contemporânea boa. Tem gente que faz coreografia por fazer. Sem ligar pra ritmo, tempo de música. Mas há pessoas da dança contemporânea que fazem boas coreografias.

Rosa Primo e Goretti Quintella - Ao longo desses anos em que o senhor esteve ligado à dança, o que de bom ela perdeu e o que ela ganhou?
Bianchi - Acho que a dança só ganhou. Tanto a clássica quanto a contemporânea se reciclaram. Na minha opinião, a dança em Fortaleza tomou um espaço definitivo. Todo mundo trabalha. Em termos de articulação, sempre teve aquela velha história das academias trabalharem separadamente. Mas todas são amigas. Há a associação cearense das academias, com reuniões em que todos participam. Acho que não há inimizade. Eu gosto particularmente de todas essas bailarinas, seja do balé clássico quanto do contemporâneo. Porque elas me tratam bem e tem respeito por mim.

OP - Em algumas entrevistas, o senhor chegou a afirmar que o balé é uma arte de elite. No entanto, sua carreira foi inicialmente marcada pelo autodidatismo...
Bianchi - Peraí. Existe uma confusão aí. Eu nunca declarei isso. Inventaram essa história. Uma vez fiz uma entrevista e disse que o balé era uma arte dos nobres, porque foi criado pelo Rei Sol, na França. Mas nunca disse que era algo de elite. Fizeram essa confusão e todo mundo veio atrás de mim. Eu nunca disse isso. Imagina! Tanta gente boa que sai da periferia. Eu acho que o balé não tem preconceito. Todo mundo pode fazer. Agora precisa ter dedicação. Senão não faz nada. Nunca disse que era de elite. Todo mundo fez confusão por causa dessa história. Finalmente consegui esclarecer isso! (risos)

Cláudia Pires - Ainda hoje vemos que os bailarinos precisam sair do Ceará para se profissionalizar. Na sua opinião, qual a lacuna existente?
Bianchi - Em primeiro lugar, acho que não temos verba para segurar bailarino que quer se profissionalizar. Em segundo lugar, todo mundo tem que sair pra poder se reciclar, no Rio, em São Paulo ou no exterior. Mas nós temos potencial. Há grandes bailarinos cearenses viajando ainda por aí fora. Uma ex-aluna minha - a Solange Fernandes - está dançando na Itália. O financiamento é o que mais falta. Temos professores capacitados tanto para o balé quanto para o contemporâneo. Mas não se pode fazer nada sem dinheiro. Já houve uma tentativa interessante de formação, que foi o Colégio de Dança, mas parou por falta de apoio financeiro. É uma pena ter acabado. Teve um movimento de dança muito bom, naquela época.

OP - Em várias entrevistas, o senhor disse que se considera artisticamente realizado, mas financeiramente é um fracasso. Como é conciliar a vida de bailarino com a de administrador?
Bianchi - Agora já temos a Associação Hugo Bianchi de Dança, que é a nossa academia. Quem faz a administração todinha é Francisco Félix. Eu só vou à academia pra dar apoio. Tem uma equipe de cinco professores, uma secretária, o administrador que é o Félix. Mas antes, eu administrava tudo. De 10 anos pra agora, é que comecei a distribuir as tarefas. Eu já tinha trabalhado muito e estava muito cansado. Só de balé clássico tenho 60 anos. Financeiramente continuo do mesmo jeito. Melhorou um pouquinho, mas só dá pra sobrevivência. Não consegui guardar nada.

OP - O balé não dá dinheiro?
Bianchi - Não, não foi por isso. Talvez até tenha dado. Mas viajava muito na época. Não só circulei pelo Brasil, mas fui também pros Estados Unidos, pra Buenos Aires... Aquele dinheiro ia embora. E nunca me incomodei de guardar. Nem imaginava que ficaria todo esse tempo. Todos os meus contemporâneos foram embora. Acho que só tem dois ou três vivos da minha época. Um dos últimos foi o Dennis Gray, que morreu.

Rosa Primo - Se o senhor pudesse voltar no tempo, o que o senhor faria diferente em sua carreira?
Bianchi - Não sei. Pelo que sofri... No começo lá na Rio, sofri muito. Passei fome, dormi na rua. Mas se não fosse bailarino, queria ser jogador de futebol (risos). Porque ganha bem (risos). A única profissão que ganha bem é essa. Porque um professor de educação física ganha uma miséria. Professor de colégio tem que dar aula em tudo quanto é canto para ganhar um bocadinho.

OP - Mas o senhor chegou a gostar de jogar futebol?
Bianchi - Não. Nunca joguei (risos). Só vejo futebol pela televisão.

Goretti Quintela - O senhor tem algum arrependimento que não faria de novo na profissão?
Bianchi - Não tenho arrependimento nenhum, porque foi uma coisa que escolhi. Até contra a vontade da minha avó. Quando cheguei no Rio de Janeiro e consegui o primeiro emprego no teatro, mandei uma cartinha pra ela dizendo tudo. Aí ela respondeu: "Arranja um emprego que seja trabalho!" Ela achava que teatro era coisa de gente desocupada. Ela nem sabia que eu sofria lá. Morreu sem saber disso. Minha família nunca teve problema com isso, só ela que queria que eu fosse telegrafista. E acabei trabalhando aqui nos Correios. Já fui mensageiro, trabalhei no Palácio do Comércio como ascensorista. Trabalhei até em tabacaria. Só depois que eu fiz o serviço militar, veio essa companhia de teatro amador e não parei mais.

Goretti Quintela e Cláudia Pires - Hugo Bianchi é um homem realizado? Há algum sonho que o senhor não realizou?
Bianchi - Eu gostaria de ter ido ao Teatro Bolshoi, na Rússia. Não sei se vai dar tempo. Mas é a única coisa que tenho vontade. Todo o resto está bem direitinho. Tenho a amizade de todo mundo, principalmente das minhas ex-alunas. Só tenho muito orgulho desse povo que está muito bem e fazendo trabalhos importantes.


SERVIÇO
Dia Mundial da Dança - Neste domingo, a partir das 15h30, o Theatro José de Alencar (Pça José de Alencar, s/n - Centro) apresenta programação aberta ao público em comemoração ao dia mundial da dança. O 6º Festival Vida e Arte Hugo Bianchi começa às 18h30. Grátis. Info.: 3101.2596.
Associação Hugo Bianchi de Dança - Rua J. da Penha - 141 - Centro. Info.: 3226.3488.


PROGRAMAÇÃO DO DIA DA DANÇA NO TJA

Domingo
15h30 - 16h30
Visita guiada ao Theatro
16h - no foyer
Impressões Musicais - alunos do Curso de Música da Uece tocam música popular, erudita e contemporânea
17h - no pátio nobre
Cia. dos Pés Grandes - Grupo de sapateado com a direção de Heber Stalin
Intervenções de alunos do Curso Técnico em Dança (Secult/Dragão do Mar/Senac)
18h - no saguão
Coral do Sindicato os Trabalhadores da UFC - Regência: Jacqueline Sidney
18h30 - no palco principal: 6º Festival Vida e Arte Hugo Bianchi

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