27/04/2007 00:47

O desejo de experimentar a pesquisa com base nas danças populares nacionais fez com que a coreógrafa paulista Ana Catarina Vieira tomasse duas decisões importantes. A primeira foi de não enveredar uma carreira como bailarina clássica internacional, quando negou o convite feito pelo seu professor de balé. A segunda, a saída da Companhia Cisne Negro, que se configura como uma das mais tradicionais de São Paulo, onde fez parte do corpo de baile durante cinco anos. O encontro com pernambucano Ângelo Madureira criou as raízes do trabalho. "Ele tinha uma pesquisa com as danças populares que eu levaria 20 anos para fazer", comemora. O trabalho dos dois bailarinos rendeu pesquisa e concepção em dança popular e dança contemporânea que está na quarta montagem, viajou pelo Brasil e para outros países. Hoje (27), a dupla de coreógrafos apresenta no Centro Dragão do Mar, os espetáculos Como? e Clandestino dentro programa Caravana Funarte.
Como?, terceira montagem da parceiria entre Ângelo e Ana Catarina, é classificada pelos coreógrafos como um documentário no palco. Metalingüístico, usa de imagens e depoimentos de figuras da dança popular, principalmente de pessoas que fazem ou fizeram parte do Balé Popular do Recife, para dar uma introdução da história da dança popular pernambucana, um dos temas da pesquisa da dupla. Traz o estudo de movimentos e o resgate de danças consideradas até então extintas, como o Galante e o Cavalo Marinho, que o Balé conseguiu reconstituir através de depoimentos. "Ele (o espetáculo Como?) dá uma introdução falando um pouco da história. A gente fala do nosso processo e temos que dá ferramenta para o público perceber as diferenças", conta Ana Catarina, ao que completa Ângelo. "Foi uma pausa que demos em nosso trabalho para observar historicamente o que já tinha sido feito do balé popular e traduzir nossa investigação de linguagem de dança contemporânea".
A ligação de Ângelo com o balé popular é meio que hereditária. Os pais e um tio fazem parte do Balé Popular do Recife. O pai, inclusive, é diretor do grupo. Ângelo, então, nasceu em meio a esse cenário e não se recorda quando começou a fazer parte do grupo. "Desde os três anos eu já espiava pelas coxias e imitava atrás do palco", conta.
Em Clandestino a dupla aprofunda os outros trabalhos. Agora, eles mostram os resultados de suas pesquisas de criação, a partir de seus movimentos corporais. Não é mais uma contextualização do trabalho, da pesquisa, mas a criação em si, a consolidação de uma linguagem própria. "Fomos além da pesquisa. Não era simplesmente pegar um passo e transformar em movimento, mas deixar claro o que eles significam", descreve Ângelo. A coreografia se combina com depoimento dos bailarinos, que refletem sobre a visão da dança no Brasil. A pressão que se tem no país, explica os coreógrafos, é que a dança deve ser romântica e virtuosa. "Existe uma visão sobre o que temos na dança brasileira, de que é algo que tem que ser colorido, sacolejante. E grupos que não fazem parte desses critérios não seriam considerados brasileiros", diz Ângelo. E vai além. Ele aponta que a própria dança contemporânea, caso não se encaixe em determinados padrões mercadológicos, causa estranhamento e pode até não ser classificada como tal.
O viés político também pontua Clandestino. Dentro disso, ele discute as estratégias de sobrevivências que os artistas da dança encontram no Brasil. O critério fundamental, segundo Ângelo, é se a dança é ou não reconhecida como profissão no Brasil. A partir daí, se discute uma série de outras coisas, como as estratégias de sobrevivência na dança. "A gente tem a impressão é que somos meio clandestinos por aqui", afirma.
Lúmen, do Grupo Experimental, de Pernambuco apresenta neste sábado e domingo. A coreografia usa de artifícios técnicos aliados à dança para a sua concepção. Bailarinos flutuam no palco pouco iluminado, ao som devozes, gritos e tiros a inspiração é o cinema. O grupo encerra as apresentações encerram da Caravana Funarte que, durante o mês de abril trouxe seis apresentações premiadas pela caravana.
SERVIÇO
Como? e Clandestino - Espetáculos de dança dos coreógrafos Ana Catarina e Ângelo Madureira dentro da Caravana Funarte. Hoje (27) no teatro do Centro Dragão do Mar (rua Dragão do mar, 81 - Praia de Iracema). Como? se apresenta às 17h e Clandestino às 21h. Sábado (28) e domingo (29), às 21h, se apresenta o espetáculo Lúmen, do Grupo Experimental, de Pernambuco. Ingressos: R$ 8,00 (inteira) e R$ 4,00 (meia). Informações: 3488.8600.