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Vida & Arte

HOMENAGEM

O senhor da dança

Camila Vieira
da Redação

Neste domingo (29), a partir das 18h30, o Theatro José de Alencar homenageia o bailarino e coreógrafo cearense Hugo Bianchi, dentro das comemorações ao Dia Mundial da Dança. Em entrevista ao O POVO, Bianchi faz uma retrospectiva de seus 81 anos de vida e 60 de balé clássico


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27/04/2007 00:47

HUGO BIANCHI comemora seus 81 anos e 60 de balé clássico sendo homenageado, domingo no Theatro José de Alencar/ FOTO FCO FONTENELE
HUGO BIANCHI comemora seus 81 anos e 60 de balé clássico sendo homenageado, domingo no Theatro José de Alencar/ FOTO FCO FONTENELE

Pelos corredores do Theatro José de Alencar, ele passeia tranqüilamente como se estivesse em casa. Quando o relógio anuncia 10 horas, os funcionários do TJA já aguardam Hugo Bianchi. Por trás de óculos de aros grossos, os olhos azuis do bailarino e coreógrafo cearense sondam os ambientes para encontrar alguém conhecido. "Sempre digo que o Theatro é o meu lar. O pessoal daqui tem um carinho todo especial comigo. Não sei se mereço", brinca. É nesse espaço afetivo de longa data que acontece neste domingo, às 18h30, a sexta edição do Festival Vida e Arte Hugo Bianchi, uma homenagem não só ao Dia Mundial da Dança, mas ao bailarino que há 40 anos já faz parte da casa. "Freqüento o TJA desde 67, quando montei minha primeira academia de dança, a Eros Volúsia". Foi a partir daí que Hugo Bianchi consolidou seu nome como um dos pioneiros do balé clássico no Ceará.

Só para ilustrar a importância de Bianchi no cenário da dança cearense, basta saber que a maior parte das donas de academias de dança de Fortaleza já foram suas alunas. Goretti Quintella, Madiana Romcy, Janne Ruth, Mônica Luiza, entre outras bailarinas e coreógrafos, tiveram suas primeiras aulas sob a rígida disciplina de Bianchi. "Pra ser bailarino, tem que deixar muita coisa de lado. Foi o que eu fiz", comenta em entrevista a O POVO, no palco principal do TJA, onde as bailarinas das academias irão homenageá-lo com apresentações de espetáculos de dança em seqüência. Por coincidência, a data do Dia Mundial da Dança (29 de abril) é a mesma do aniversário de Bianchi. É como se o destino do bailarino já estivesse reservado ao palco. Uma escolha que contrariou a vontade da avó. "Ela achava que teatro era coisa de gente desocupada. Minha família nunca teve problema com isso. Só minha avó queria que eu fosse telegrafista", recorda.

E foi uma longa jornada até Bianchi se firmar como bailarino. No final dos anos 40, começou como autodidata numa companhia de teatro amador, que circulou por todo o Brasil. Depois, partiu para o Rio de Janeiro, onde finalmente teve as primeiras aulas formais de dança, após anos de sacrifício. Ao voltar para Fortaleza, Bianchi procurou repassar seu conhecimento para suas alunas. Até hoje ainda é assim. Com 81 anos de vida e 60 de balé clássico, o cearense mantém a Associação Hugo Bianchi de Dança, mas deixa a administração a terceiros. "Comecei a distribuir as tarefas. Eu já tinha trabalhado muito e estava muito cansado", afirma. Para a entrevista com Bianchi, o Vida & Arte convidou três nomes da dança - Rosa Primo, coordenadora do Núcleo de Dança da Funcet; Claúdia Pires, da diretoria da Associação dos Profissionais de Dança do Ceará (Prodança); e Goretti Quintella, presidente da Associação das Academias de Dança do Ceará.

O POVO - Como o senhor despertou o interesse pela dança? A partir de que momento ela começou a fazer parte da sua vida?
Hugo Bianchi - Inicialmente, era no colégio Inácio Santa Maria, que existia aqui em Fortaleza. Eu comecei a fazer dança lá, em 1946. Era autodidata. Não era balé que fazia. Eram aquelas danças de cigano, de pastoril. Depois, eu comecei a montar a Protofonia do Guarani, a história de um índio que estava caçando e, na floresta, era atingido por outra tribo. Esse foi o meu trabalho de batalha. Dancei aqui, em São Luiz, Teresina, Belém, Manaus... Em 48, fui ao Rio de Janeiro. Foram 12 dias de viagem! Cheguei lá e comecei a trabalhar em teatro. E viajei pra São Paulo, voltando a Fortaleza em 51. Fiquei aqui até 54, quando inaugurei o Salão Nobre do Náutico, lançando a Protofonia do Guarani, que também foi lançada na Marinha, no Clube dos Oficiais da Aeronáutica. Aí fui novamente pro Rio de Janeiro. Só em 66, voltei a Fortaleza para montar A Valsa Proibida, do Paurillo Barroso. Fiz a coreografia e dancei. No Rio, já era funcionário do Serviço Nacional de Teatro. Lá tive aulas com Eros Volúsia, que foi minha madrinha lá no Rio e fez tudo por mim. Esse início no Rio foi muito difícil. Quando viajei pro Norte, era numa companhia de teatro. Tinha teatro e um ato de variedades. Depois da peça, cada artista fazia um número. Eu já fazia número de dança, mas era autodidata. Toda a minha formação foi lá no Rio.

OP - Ser um dos pioneiros do balé clássico no Ceará foi uma empreitada difícil? Ao dar as primeiras aulas de balé aqui, havia uma demanda que correspondia as suas expectativas?
Bianchi - Aqui só tinha a Tereza Bittencourt e a dona Regina Passos, que tinha uma academia de dança. Eu e a Tereza ficávamos aqui no Theatro José de Alencar. Nossa academia era lá no foyer. Quando a Tereza foi embora, eu fiquei só com a academia, que na época se chamava Eros Volúsia. Ali se formou Ana Virgínia, Goretti Quintela, Mônica Luiza, Madiana Romcy, Júlia Cândida, e por aí vai. Quando trabalhava aqui no teatro, formei duas turmas. A primeira foi essa que falei. Depois, veio Cecília Leite, Ana Célia. Foram muitas bailarinas que formei. Fui a primeira pessoa a montar balé de repertório. Balé clássico pode ser qualquer coisa, de valsinhas a minuetos. Agora balé de repertório, como Lago dos Cisnes, Giselle, Sherezade, Dom Quixote, Romeu e Julieta, todos esses balés, eu montei primeiro. E havia público pra assistir isso. O teatro sempre foi lotado.

OP - Agora voltando ao início da sua carreira, de que maneira sua vivência com o teatro amador em viagens por todo o Brasil acabou influenciando sua formação de dançarino?
Bianchi - Não sei. Eu gostava de teatro também. No início, foi assim: chegou uma companhia aqui no TJA, que precisava de um ator jovem para fazer o segundo galã. Aí me chamaram pra participar e fui contratado por essa companhia, que era de uma cearense em Juazeiro, a Marquise Branca. Aí na década de 50, no Rio, trabalhei com o Circo Mágico Thiany. Em 66, quando já estava em Fortaleza, Thiany chegou aqui com o circo. As bailarinas dele passaram por aqui, ouviram música de balé e subiram no foyer. E aí me reconheceram. Eles precisavam de bailarino e coreógrafo. Então, fechei a academia e rodei o Brasil de novo com eles. Em Campina Grande, tive uma contorção muscular e não pude continuar no circo. Voltei para Fortaleza e reabri a academia. De lá pra cá, são 41 anos de academia.

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