Natália Paiva
da Redação
Em duas horas de apresentação, Chico Buarque de Hollanda apresentou 33 músicas para um Siará Hall lotado. Além do repertório do álbum Carioca (2006), canções antológicas como Eu Te Amo, João e Maria
26/04/2007 00:20

"Abre teu coração - ou eu arrombo a janela". Chico só avisa - o já óbvio, diga-se - lá pelas tantas, ao cantar A Bela e a Fera, da trilha sonora do espetáculo O Grande Circo Místico (1983). Diante da apresentação da turnê Carioca, ou já se está de coração aberto para a poesia musicada cantada pelo senhor Francisco Buarque de Hollanda ou é preciso passar pelo doloroso processo de violação. Coração arrombado, como uma janela. E isso ocorre quando ele desfia o repertório bem-costurado do álbum Carioca - o baião arabesco Ode aos Ratos, a crônica urbana de Subúrbio, a beleza melancólica de Sempre. Ou quando ele relê a produção dos anos 1970, 1980 e 1990 - a dor lancinante de Eu te amo (Vida, 1980), a calmaria certa de Futuros Amantes (Paratodos, 1993), a viagem de Bye, Bye Brasil (Vida, 1980, pra delírio do público quando ele canta "Em março vou pro Ceará/ Com a bênção do meu Orixá"). Tem quem reclame que, em shows, Chico 'somente' toca seu violão e canta, não "interage com o público". Mentira. Ele não fala diretamente com a platéia, isso é verdade. Só um "boa noite", um "muito obrigado". Mas poucos se comunicam tanto, com olhadelas oblíquas, com gestos contidos, com sorrisos no canto da boca. Opera chicobuarquianamente.
Pouco depois das 21 horas, sobe ao palco escuro o septeto formado pelo diretor musical Luiz Cláudio no violão, João Rebouças no piano, Bia Paes Leme nos teclados, Wilson das Neves na bateria, Chico Batera na percussão, Jorge Helder no contrabaixo e Marcelo Bernardes na flauta. Logo, Chico Buarque aparece vestindo uma camisa azul (figurino de Marcelo Pires) que se funde às linhas do horizonte, ao sol, à lua desenhadas no móbile do cenário de Hélio Eichbauer. Já aparece cantando Voltei a Cantar, de Lamartine Babo (existiria opção melhor para Chico voltar aos palcos depois de oito anos?), e emenda Mambembe (Quando o Carnaval Chegar, 1972) e Dura na Queda, do Carioca. Só aí um "Obrigado, boa noite, Fortaleza", com o palco escuro e os refletores amarelos sobre ele. Durante o show, Chico canta sob moving lights criadas por Maneco Quinderé, que formam belos tons em degradê. Os arranjos musicais, por sua vez, são despojados - como convém, já que se está sem a orquestra que acompanha Carioca. Quando Chico erra a letra de Leve ("Eu sempre erro a letra dessa música"), o público soterra-o de aplausos. Público apaixonado demais. Mas ainda bem que a tietagem foi até aí, somente. Os gritos histéricos ficaram mais para o pós-show. Aliás, curioso o pessoal do grupo Crisis entregar panfletos anti-fetichistas justamente no show de Chico.
Chico se comunica bem demais, durante o show. Em Morena de Angola, ele olha de esguelha para a platéia enquanto toca kalimba (instrumento de percussão). Em Deixa a Menina, Chico faz as vezes de conselheiro amoroso e, gestualmente, indica o que lhe sai pelo canto do sorriso maroto: "Por isso para o seu bem/ Ou tire ela da cabeça ou mereça a moça que você tem". Acompanhado pelo violão, Chico ainda fingiu tocar tamborim em Grande Hotel. Esse é um dos pontos altos da noite: enquanto Chico 'batuca', o fabuloso Wilson das Neves assume o vocal da música gravada em seu disco solo O Som Sagrado (1997). Como programado, esse é o momento no qual Chico faz uma forcinha para 'descontrair', como ensaiar um passinho de samba. Outra canção compartilhada é Imagina, com a tecladista Bia Paes Leme e sua voz terna. Quando vai mergulhar no vai-e-vem triste-bonito de Bolero Blues, Chico faz uma divertida apresentação: "Muito obrigado a Jorge Helder, meu parceiro nesta canção, meu irmão cearense". O baixista fica vermelho e se nega a ir mais à frente. Chico se diverte com a timidez do companheiro. Quando Chico canta as duas últimas músicas do bis, ninguém mais segura. Quem Te Viu, Quem Te Vê é cantada loucamente pelo público que cai no samba. Já em João e Maria, ele levanta as sobrancelhas, surpreso com o coro que o engole. Eh, é espetáculo pra se ir de coração aberto - ou, então, tê-lo arrombado poeticamente. Chicobuarquianamente.
SET LIST DO SHOW:
1- Voltei a cantar (de Lamartine Babo)
2- Mambembe (do disco "Quando o Carnaval Chegar", de 1972)
3- Dura na Queda ("Carioca", 2006)
4- O Futebol ("Chico Buarque", 1989)
5- Morena de Angola ("Vida", 1980)
6- Renata Maria ("Carioca", 2006)
7- Outros sonhos ("Carioca", 2006)
8- Imagina (Trilha do filme "Para viver um grande amor", 1983, regravada no "Carioca", 2006)
9- Porque era ela, porque era eu ("Carioca", 2006)
10- Sempre ("Carioca", 2006)
11- Mil perdões ("Chico Buarque", 1984)
12- A história de Lily Braun ("O grande circo místico", 1983)
13- A Bela e a Fera ("O grande circo místico", 1983)
14- Ela é dançarina ("Almanaque", 1981)
15- As atrizes ("Carioca", 2006)
16- Ela faz cinema ("Carioca", 2006)
17- Eu te amo ("Vida", 1980)
18- Palavra de mulher (Trilha do filme "Ópera do Malandro", 1985)
19- Leve ("Carioca", 2006)
20- Bolero Blues ("Carioca", 2006)
21- As vitrines ("Almanaque", 1981)
22- Subúrbio ("Carioca", 2006)
23- Morro Dois Irmãos ("Chico Buarque", 1989)
24- Futuros Amantes ("Paratodos", 1993)
25- Bye bye Brasil ("Vida", 1980)
26- Cantando no toró ("Francisco", 1987)
27- Grande Hotel (Gravada no disco "O som sagrado", de Wilson das Neves, em 1997)
28- Ode aos ratos ("Carioca", 2006)
29- Na carreira ("O grande circo místico", 1983)
PRIMEIRO BIS:
30- Sem compromisso ("Sinal Fechado", 1974)
31- Deixe a menina ("Vida", 1980)
SEGUNDO BIS:
32- Quem te viu, quem te vê ("Chico Buarque de Hollanda Vol. 2", 1967)
33- João e Maria (de 1977, registrada no CD Bônus da caixa "Construção", de 2002)