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Que choro é esse?

Reconhecido como o primeiro gênero musical genuinamente brasileiro, o choro ganhou até dia nacional, que transcorre hoje, em homenagem à data de nascimento de Pixinguinha


23 Abr 2007 - 02h04min

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Hamilton de Holanda, um dos responsáveis pela criação do Dia Nacional do Choro, em 1999 (Divulgação)
Há cerca de 150 anos ele nasceu recebendo influências da polca, do lundu e de vários outros gêneros estrangeiros aportados no Brasil no século XIX, tanto com a chegada da família real portuguesa, em 1808, como através da vinda de escravos africanos que alimentavam o regime escravista do Brasil Colônia. Disseminado por grandes nomes dos primórdios da MPB, como Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, o choro é reconhecido como o primeiro gênero musical urbano genuinamente brasileiro. Hoje, Dia Nacional do Choro, em homenagem ao nascimento de Pixinguinha, um dos maiores "chorões" de que se tem notícia, o Brasil comemora não só a existência dessa modalidade musical tão reconhecida, mas, também, a revitalização do choro como um dos ritmos mais saudosistas e populares do país.

O choro atravessou um grande processo de maturidade até ser considerado um gênero musical, de fato. Antes, devido às diversas influências sofridas, era considerado apenas uma maneira tupiniquim de se interpretar algumas modalidades européias. Mas logo surgiram as primeiras composições de choro, com características próprias que o desvencilhava da polca, do lundu e de outros gêneros estrangeiros. "Foi algo que foi se criando. Em cada lugar, um tipo de adaptação. Isso variava, dependendo do elemento colonizador, se era português, holandês ou inglês. Se a gente comparar com o maxixe, merengue, a gente percebe que tudo veio mais ou menos da mesma mistura. O que aconteceu no Brasil é que os primeiros compositores do choro foram ótimos desde o princípio", afirma Henrique Cazes, cavaquinista e autor do livro Choro: do quintal ao Municipal. O música cita a excelência dos pioneiros, Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros e Ernesto Nazareth, dentre outros, que foram os principais responsáveis pela primeira roupagem do Choro da maneira que conhecemos. Eles compuseram e introduziram instrumentos novos, o que ajudou a música a conquistar características próprias, dando-lhe "personalidade".

Na década de 1970, o choro sofreu uma renovação. Diversos músicos e grupos, além de clubes de choro conseguiram revitalizar o gênero, que estava um tanto quanto desgastado. Para tanto, novos intérpretes para as mesmas músicas. Foram criados os clubes do choro em Brasília, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte, Goiânia e São Paulo, dentre outras cidades. Um público crescente também propiciou a redescoberta de veteranos chorões e também revelou novos talentos. Já na década seguinte, foram feitas oficinas de choro em vários pontos do Brasil. E, na atualidade observa-se um aumento ainda maior de adeptos do choro que há 30 anos, o que nos traz a preocupação de investigar os rumos desta modalidade musical.

Para Henrique Cazes, a situação é fácil de ser explicada. "O prato principal do momento, que é diferente do que havia nos anos 70, é que a tentativa de se fazer algo totalmente novo é muito bem recebido. Não existe mais o reacionarismo que existia na década de 1970. Qualquer coisa que se fazia diferente do padrão Jacob do Bandolim era uma verdadeira heresia. Então, hoje em dia, essa atmosfera de liberdade está favorecendo o surgimento de grupos novos, de intérpretes, músicos e compositores novos", acrescenta.

Para Cazes, a década de 1970 foi importante para renovar os músicos, mas regravou-se demais e pouco se lançou de novo. Ele afirma que, para os músicos de hoje, o primeiro trabalho é todo de composições próprias. Segundo ele, asse momento é fruto de um trabalho que foi feito desde a metade dos anos 80 no sentido de se codificar e organizar o conhecimento sobre a linguagem do Choro, a ponto de poder se ensinar uma equipe. "Antigamente um chorão precisava ir 20 anos a uma roda de choro até conseguir aprender a coisa. Hoje em dia há metodologia, há material escrito para os instrumentos, até para o fraseado do choro. Em dois três anos o cara já começa assimilar aquilo que se levava 20 anos". Cazes ressalta, ainda, que este ambiente de liberdade foi produto das primeiras oficinas de choro, em 1984, 1985 em que se foi vendo que era possível organizar e transformar esse conhecimento em algo mais produtivo. "Esse é o grande diferencial de hoje e por que sempre há mais e mais cantores jovens", finaliza.

E as gerações mais novas parecem concordar com o cenário. Com apenas 31 anos, Hamilton de Holanda é considerado um dos maiores expoentes do choro ao manusear seu bandolim. Com carreira nacional e internacional, Hamilton teve uma trajetória muito mais rápida que vários outros artistas. Nasceu numa época em que estava acontecendo uma revitalização e é, literalmente, fruto dela. Ele, a propósito, é um dos responsáveis pelas comemorações de hoje, Dia Nacional d Choro. Hamilton conta que, quando era professor da Escola de Choro Raphael Rabello, em Brasília, no ano de 1999, comentou com uma aluna sobre a falta de uma data para o Dia do Choro. "Era dia do avô e a gente comentou se perguntou por que não tinha o Dia do Choro. Daí, como eu conhecia o senador Arthur da Távola, através de um amigo, sugeri a ele que fosse criado o Dia Nacional do Choro, e que fosse em 23 de abril por conta do aniversário de Pixinguinha". Hamilton conta que o Senador adorou a idéia e que em menos de um mês o projeto foi votado e, depois de um tempo, sancionado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso

Filho de uma geração que renovou o choro, Hamilton diz reconhecer que o interesse dos jovens pelos instrumentos é um fenômeno nacional, mas que isso também permite novas hastes nos gêneros musicais. "Eu nasci no choro, cresci no choro, estudo choro, mas admito que o que eu toco não é algo tradicional. Talvez alguém, um dia classifique o que é, mas quem vai a um show meu esperando Choro tradicional talvez saia um pouco decepcionado, porque a gente acaba inserindo coisas nossas e transformamos o trabalho. Pessoalmente eu me inspiro muito nos caras que fizeram a semana de arte moderna de 1922. Eu escuto bastante jazz, flamenco, música cubana e erudita. Isso tudo me influencia, mas, como sou brasileiro, parece uma coisa nova, brasileira e nova", completa o bandolinista.

Tanto Henrique Cazes como Hamilton de Holanda, dois ícones de gerações distintas, falam e citam a necessidade de "núcleos de resistência" Para eles, a realidade mostra que muitos jovens gostam despertaram o interesse de tocar e que se propõem em fazer música nova. Hamilton ressalta a importância de que esses "núcleos de resistência" funcionem como fator de aglutinação dos jovens, a fim de que lá eles aprendam, que tenham contato musical com o gênero e que estejam aptos para desenvolver coisas novas. "O choro é um gênero que não sofre efeito de modismo. É uma música atemporal. Pode ser tocado a qualquer época. Existe música que se toca e você vê na hora que é de época ela é. O choro não, é uma obra que virou eterna e que é aceita do jeito que é em todo lugar", afirma Hamilton. Se o Choro mudará ou não, eis uma grande incógnita, mas que a liberdade em se brincar, misturar, estudar e experimentar com coisas tradicionais pode proporcionar novas modalidades é uma grande certeza. É, provavelmente, o que culminará em novas cores não só para o Choro, mas também para diversos outros gêneros que caem no agrado do povo.


ONDE DANÇAR

Para quem gosta do Choro tradicional, é bom saber que em Fortaleza, as sextas-feiras são o "Dia do Choro" e existe roteiro certo para se dançar. Mas é importante não esquecer de levar seu par! No Mercado dos Pinhões (Praça Visconde de Pelotas, s/n - Entre as ruas Gonçalves Lêdo e Nogueira Acioly), organizado pela Prefeitura de Fortaleza, acontece Chorinho todas às sextas-feiras, sempre a partir das 21h, mas as mesas já começam a lotar bem antes disso, cerca de 20h. Lá, revezam-se o grupo Cordas que Falam e o bandolinista Macaúba. A entrada é gratuita.

Também às sextas-feiras, no Sesc (rua Clarindo de Queiroz, 1740 - bairro Centro), acontece o Clube do Chorinho. Com entrada franca, o Clube do Chorinho é uma opção a mais para os apreciadores desta modalidade musical. O diferencial aqui é que o Clube surgiu como uma simples reunião de amigos, no fim da década de 1970. Mas a lotação foi tanta que obrigou a procura por um espaço maior.


ONDE OUVIR
Quem não tem tempo de garimpar sebos ou lojas de discos em busca de vinis dos clássicos do Choro, basta sintonizar na Universitária FM (freqüência 107,9 Mhz) às 10h de domingo para contemplar uma hora e meia de Choro, no programa Brasileirinho. O repertório não é diferente: Vai de Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Jacob do Bandolim e até chega até aos mais novatos na arte de "chorar".


PARA LER
Boas pedidas para quem quer se inteirar mais sobre o Choro são os livros Almanaque do Choro (Jorge Zahar Editor), de André Diniz, e Choro: do quintal ao Municipal (Editora 34), de Henrique Cazes. Ambos os livros traçam um panorama do Choro de seus primórdios até aos dias atuais, com o diferencial de um ser em forma de almanaque, excelente para consultas rápidas, e o outro ser mais documental.

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