Vida & Arte
RACISMO
Negritude na terra da luz
Estudantes africanos sentem na pele: existe discriminação racial no Ceará. O velho mito local de um estado sem presença negra e o jargão brasileiro da democracia racial caem por terra na entrevista com representantes do movimento negro cearense
14 Abr 2007 - 14h36min
O olhar estrangeiro dos rapazes mete o dedo na ferida: o racismo nem é tão inexistente assim, por aqui. "Muitas pessoas, antes de saber que somos estrangeiros, começam a nos olhar com um mau olhar. Eu e meus colegas já passamos pelo momento de estar no ônibus e a pessoa começar a se afastar. Dá pra entender que ela não quer ficar próximo a você", conta Benjamim. Os rapazes relatam casos e mais casos de discriminação e pontuam: no racismo, há diferenças em relação ao negro africano e ao brasileiro. "O preconceito é diferente. Não sei por que, mas pode ser que eles coloquem na cabeça que essas pessoas, nós, não são daqui e querendo ou não vão voltar. Mas aquelas que são brasileiras, a gente não deveria tratá-las bem porque aí elas vão ser iguais". Mas fazem questão de ponderar: o racismo não permeia todas suas relações pessoais na cidade. Não mesmo.
A população negra no Ceará. A historiografia oficial clássica é clara: a escravidão negra por aqui não foi significativa. Para o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenador da Especialização em História da África da mesma instituição, Eurípedes Funes, associar o negro à escravidão nos leva a uma "lógica perversa". "A invisibilidade do negro estaria intimamente ligada a pouca expressividade da presença do trabalhador escravo na sociedade cearense de então. Ou seja, parte-se de um principio tacanho de que todo negro que aqui chegou, ao longo do processo de ocupação colonial, era escravo e de que todo escravo era negro". Daí para a suposta 'inexpressividade' do negro na cultura cearense é um pulo. Eurípedes ressalta que, no sertão cearense, por mais de um século, índios dividiram o mundo do trabalho com os negros de origem e descendência africana. Apesar de, numericamente, a população negra cearense ser menor do que a de outros estados do Nordeste açucareiro, já em fins de século XVIII e início do XIX havia negros livres e libertos. "Nesse sentido, o que primeiro se tem a discutir sobre racismo no Ceará, como em qual outro lugar, é a necessidade de se entender que o preconceito, seja ele de cor, religião, sexualidade etc., não é dado. É historicamente constituído. Essa é a primeira questão, como se construiu esta invisibilidade histórica em relação ao negro no Ceará".
Terra da Luz. Para o pesquisador da Cultura e História do Negro no Ceará, Hilário Ferreira, um dos mitos que precisam ser desconstruídos é o relacionado ao movimento abolicionista cearense, que de tão forte teria se antecipado à Lei Áurea de 13 de maio de 1888, sancionada pela Princesa Isabel. Hilário afirma que o 25 de Março de 1884, a abolição dos escravos no Ceará, não pode ser entendido sem se levar em conta a resistência dos negros ao tráfico interprovincial e a greve dos jangadeiros, liderada por dois afrodescendentes: o negro liberto Antonio Napoleão e o mulato Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, que se recusaram a levar escravos a bordo dos navios. "Após a abolição, sempre cantada em verso e prosa como algo de brancos, intelectuais e homens da política, para os negros cativos a 'luz' se apagou sobre a negrada cearense. Até bem pouco tempo, era esse o lugar do negro na historiografia cearense. Hoje não há mais espaços para essas concepções e formas de ler as histórias do negro na sociedade cearense. Há um novo olhar sobre as suas diversas experiências de trabalho, de práticas de sociabilidades, culturais na construção da identidade cearense", explica Eurípedes.
A população negra no Ceará e a discriminação racial no Estado são temas centrais da entrevista que segue, com Elane Albuquerque, mestranda em Educação pela UFC e membro do Instituto Negra do Ceará (Inegra); Meirelane Coelho, mestre em Ciências Sociais pela UFC, também do Inegra; André Costa, advogado, diretor da Organização Não-Governamental Brasil Centro de Direitos Humanos e Cidadania (Cedhuc) e presidente da Comissão de Combate à Discriminação Racial e de Defesa das Minorias da OAB CE; Francisco José Pereira, Preto Zezé, coordenador da Central Única das Favelas (Cufa) no Ceará. (Natália Paiva)
O POVO - Gostaria de iniciar essa conversa com uma provocação: o Brasil é o País da harmonia racial.
Preto Zezé - No Brasil, o que é mais interessante é que o discurso da democracia racial existe pelo fato de na rua não aparecerem pessoas que declaram que vão matar os negros, de nas decisões políticas não deixarem bem claro que o Estado exclui os negros. Mas, o cotidiano social e os próprios dados e estatísticas do IBGE comprovam na prática o contrário do discurso que é feito. Se você vir o mapa da violência dos jovens, 72% dos assassinatos são cometidos contra jovens negros. Você vai pro mercado de trabalho, pros postos de decisão e você não vê. Isso não está escrito, apesar de funcionar bem. Aí você diz "ah, não se tem ódio no Brasil". E essa exclusão, o que é? É pior ainda, porque opera sobre o inconsciente também do negro. Talvez seja o pior efeito do racismo no Brasil. Embasado por esse discurso da democracia racial, os negros não conseguem se identificar e inclusive têm vergonha de si próprio. É um discurso de que somos todos misturados. Mas ninguém me explica porque os misturados mais claros, que se aproximam do padrão estético europeu, têm mais vantagem. E, por coincidência, os que que se aproximam mais do padrão estético indígena e negro são os mais excluídos.
Meirelane Coelho - É um discurso, como os próprios conceitos de raça e etnia, que vai ser construído na academia. A democracia racial vai aparecer pra se contrapor a uma outra teoria, a do branqueamento. Com o discurso da democracia racial, o negro não precisa mais ser eliminado. Ele pode viver, mas na invisibilidade. Porque quando a princesa Isabel liberta os negros, ela se esquece de assinar a carteira de trabalho deles. Então, eles ficam perambulando na miséria. Era preciso construir um Brasil bonito, e a população negra não deixava. E aí a academia ia com essa discussão de cultura brasileira, e se começa a falar de democracia racial: Nós somos uma população harmônica. Quando Gilberto Freyre escreve Casa Grande e Senzala, constrói-se uma ponte da casa grande pra senzala, dizendo que o povo brasileiro nasce dessa harmonia, do senhor branco com a escrava. Ele se esqueceu de dizer que a ponte só servia da casa grande para a senzala, a escrava não podia procurar o senhor quando precisasse. Então, é uma relação de dominação. E a democracia racial vai ser constituída colocando essas relações de dominação a escanteio.
André Costa - Essa idéia de democracia racial não se sustenta nem historicamente, nem teoricamente, nem nos dados atuais. Quando se fala em democracia racial, as pessoas tendem a querer comparar com os EUA ou a África do Sul. Primeiro, negando a história. Porque nós tivemos 358 anos de escravidão oficial. Você não pode negar. Desde que foram libertados os escravizados - na verdade, não foi uma libertação. Muitos dizem que era o momento, a conjuntura econômica, queriam um setor consumidor e tudo mais. Mas isso não se sustenta. Muitos escravizados, inclusive Zumbi dos Palmares, morreram nessa luta. Que leitura podemos fazer da história do Brasil? Até 1888, tem uma escravidão oficial e, a partir daí, você tem uma libertação dos escravizados e não têm políticas públicas pra incluir os ex-escravos. Basta olhar que no começo do século quem vinha da Europa teve terra, subsídio, ações afirmativas. E hoje, os que defendem a nossa democracia racial dizem "não, não precisa de ação afirmativa, vai criar uma desigualdade que não existe". Não existe? Olha os dados do IPEA, IBGE, da Unesco, do PNUD. Qualquer órgão oficial nacional ou internacional não é diferente. Na escala social, no âmbito da educação, do mercado de trabalho, do serviço público. A gente pode dar dados, as pessoas às vezes não gostam porque dizem que a gente está acirrando o ódio. Mas que ódio? Aquele que é velado? O ódio aqui se demonstra no fato de que os negros e as negras não têm acesso aos bens e os direitos. Quando os negros e as negras de vários setores começam a querer ocupar os espaços e propor alternativas, começam a dizer que é todo mundo igual, que o problema é de classe, de renda, de riqueza. Mas porque a renda só vai para um setor da sociedade? Porque o Itamaraty não tem nenhum embaixador negro? Porque o primeiro ministro do Supremo Tribunal Federal negro só foi tomar posse em 2003? Quantos juízes, promotores de Justiça são negros? Que tipo de democracia racial é essa que sempre que os negros entram nos shoppings tem uma vendedora acompanhando? Quem diz que não existe democracia racial são os próprios dados estatísticos, e aí não dá pra fugir.
OP - É curioso que, nesse momento, todo mundo passa a fazer um discurso classista...
Zezé - Inclusive a esquerda. Não é que o racismo seja o centro do debate, mas é que eu não tenho como discutir a desigualdade de classe sem discutir o elemento da raça como fator de seleção e de dominação de uma parte da população.
Meire - O racismo no Brasil tem nome, sobrenome e apelido. A gente tem racismo ambiental, racismo institucional, exatamente para demarcar as relações que se instituem no País. Quando se fala em racismo institucional, é que quando a mulher chega a um posto de saúde, ela geralmente é colocada para o final da fila, porque se colocou na cabeça que a mulher negra é mais resistente à dor. Então, quando você fala só de racismo essas relações ficam escondidas. Não é possível discutir essas relações que acontecem nas empresas, quando uma pessoa negra não é contratada pela cor.
Elane Albuquerque - Pra você ver como essa questão do racismo opera: nas instituições públicas, a questão das mulheres negras é complicada. Aí, a gente fala de extermínio da população negra com a juventude e com as mulheres negras. Estão assassinando tanto as mulheres negras quanto os jovens. As mulheres negras morrem ainda no parto, por complicações. Porque elas não são tocadas, quando elas estão fazendo pré-natal, elas não têm a mesma atenção que a mulher branca. Isso no SUS (Sistema Único de Saúde), uma instituição pública que deveria estar cuidando da saúde da população. A gente já tem experiências diferentes até na hora de nascer. A mulher negra, quando engravida, já tem possibilidade quase 70% de a criança morrer, antes do nascimento real. Se tiver políticas universais, essas mulheres não vão ser atingidas. No plano de políticas públicas pras mulheres, a gente está lá: combater a mortalidade materna. Mas se fizer de forma universal, as mulheres negras vão continuar num índice de morte por complicações do mesmo jeito. Aqui no Ceará, até hoje a política pública não conseguiu estabelecer uma coisa simples, que é o quesito cor nos formulários de atendimento. É simples como o teste da orelhinha e do pezinho, que vai diagnosticar se aquela pessoa vai ter o desenvolvimento da anemia falciforme, que é uma doença prevalente da população afrodescendente. Ele é garantido constitucionalmente, é um direito básico para que essa pessoa tenha o tratamento prévio.
OP - Mais uma provocação: no Ceará, não existem negros.
Elane - (Risos) Pois é, um dado interessante é que quando a gente chega nos debates o pessoal fica assim: "Oh, não acredito. O Ceará não tem negro". Aí a gente diz que a população negra no Ceará, de acordo com o IBGE, é de 62%, aproximadamente. Aí você chega numa pesquisa dos 100 municípios mais negros do Brasil, Fortaleza é a terceira capital. Que contradição! Se os dados falam que a gente é uma população com mais de 50% negra, a gente escuta ainda hoje esse tipo de discurso. E é um discurso legitimado pela academia: não existe negro no Ceará. E aí você vai chegar nas Quadras, onde o Zezé mora, e vai ver a população negra, ilhada. Massacrada. Aí você vai chegar na periferia, no Conjunto Ceará, você vai ver a população negra. Vai chegar no Pici e vai ver as meninas negras. Elas não estão ocupando os espaços de poder.
Zezé - É interessante entender, no debate do racismo, alguns fenômenos. No Ceará, antes dizia-se que não tinha negro. Depois, falaram que existia. Mas depois operou-se um fenômeno interessante, que a gente chama de fenômeno da invisibilidade. E funciona de duas formas. Uma: pra justificar, por parte do poder público, o fato de ele não operar com políticas públicas pra essa população - se não existe, o Estado não tem responsabilidade nenhuma. E a outra, pra você imprimir sobre o inconsciente da população negra que realmente ela não deve aparecer em locais públicos. Não tem porque ir ao Dragão do Mar ou ao shopping center se eu vou ser submetido ao constrangimento da polícia. Eu sou culpado por antecipação. É imposto que eu fique no meu lugar.
Meire - Aqui no Ceará esse discurso da não-existência de negros está muito bem fundamentado na organização da cidade de Fortaleza. Quando Fortaleza vai se constituir, os negros que aqui vão chegar vão ser organizados na periferia. E eles não vão sair de lá, desde a organização da cidade que essa invisibilidade é mantida, nesse embate periferia e centro. É por isso que ninguém vê essa população: ela está na periferia.
Zezé - É interessante você olhar os bairros Meireles, Aldeota. E quando você olha o Siqueira, o Bom Jardim. Quando você olha esses bairros, se você pudesse ligar um raio X das cores, fazer um recorte étnico da ocupação da cidade. Se você fizer isso em Fortaleza, aí você tira a roupa e diz: até na organização da cidade, o racismo como modo operante inclusive decidiu onde vão estar negros e brancos vivendo nessa cidade. Se nós ficamos em silêncio em relação a esse processo de exclusão, está tudo tranqüilo, é a democracia racial. Quando eu reivindico que esse espaço seja dado para todas as pessoas, pra realmente existir democracia e direitos iguais, aí os racistas são os que estão excluídos e não os que excluíram. "Não, vocês querem disseminar o ódio". O ódio já está operando! O ódio é você deixar pessoas beberem água com fezes.
OP - Polemizou-se bastante em relação à fala recente da ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), que, em entrevista ao site da BBC Brasil, disse que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco". Isso repercutiu de forma tal a legitimar a tese de que a discussão étnico-racial parte do 'ódio' de negros contra brancos. Quais são os caminhos para se pautar essa discussão na sociedade?
Zezé - Mas o ódio existe. Não tem como, o outro processo do racismo é que, como os negros não se identificam, quando eles se descobrem... Cada um de nós tem uma experiência pessoal de que nós fomos descobrir que éramos negros muitos anos depois da nossa existência. E isso foi muito doloroso. Automaticamente, quando você descobre, volta uma fita na sua vida inteira, e você vai começar a pegar vários fatos. Por que na quadrilha eu nunca fui o noivo? Por que na hora piadinha eu sempre fui o alvo? Aí você vê: fui odiado a vida inteira. E aí, o que eu acho que ninguém quer discutir, é que existe um problema racial no Brasil. E não tem como esse problema não gerar ódio quando as pessoas descobrem. Não é o problema do branco não gostar do preto ou vice-versa. O problema é que, por causa disso, não pode ser definido se o cidadão mora na Aldeota ou no Bom Jardim. E quando os setores excluídos descobrem a sacanagem que foi feita, aí "Ah, é por isso que eu estou morando aqui, é por isso que eu não fiz até a quarta série, é por isso que eu não tive um bom emprego?". Qual você acha que vai ser a sensação de quem descobre isso? Por isso é difícil colocar o tema publicamente. Você volta a fita. Muitos que vão ler esta entrevista, vão começar a comparar essas coisas do passado da vida deles. Obrigatoriamente. Eles podem inclusive não querer acordar, porque é muito doloroso. É um problema. E o problema surge para ter solução. Eu acho que precisa colocar mesmo: existe um problema do branco com negro e do negro com o branco no Brasil. Isso é óbvio. O que justifica então quando eu tô numa calçada e vem uma pessoa, geralmente branca, e muda de calçada? A ministra sofre mais porque ela inclusive colocou que é explicável esse ódio. E é: escravidão, exclusão, pobreza, miséria. Quando você descobre: "É porque eu sou negro", não tem como não ter. Existe esse problema.
Elane - Isso é um fator que complica a organização da população negra. Se você não se percebe negro, você não vai entender porque está excluído de vários espaços, porque você é maltratado na fila do SUS. Quando você sabe, você começa a se organizar politicamente. Aí vira ódio, a gente é maluca. E isso é uma forma de desmobilizar essa população. O pior da invisibilidade e do preconceito é isso, a gente se desmobilizar, não se organizar politicamente. E quando isso acontece, a gente não tem políticas públicas.
André - Pra mim, é uma falsa polêmica. Não há o que falar de racismo de preto contra branco no Brasil. Porque se tivesse seriam algumas manifestações isoladas. Quem levou a peia aqui, quem apanhou, quem morreu, quem foi surrado, quem não tem o que comer, onde a pobreza é maior, a indigência é maior, são com os negros e as negras. Quer dados? Você pode pegar simples indicadores sociais. Dos 10% mais pobres, 66% são negros. Na universidade, somente 2,5% são negros. As pessoas têm medo de assumir que o racismo está nas relações do dia a dia. O Datafolha fez uma pesquisa em 1996 e a Fundação Perseu Abramo repetiu essa pesquisa em 2003. Perguntaram ao universo de pessoas entrevistadas em todo o país e 91% responderam: "Não, tem racismo no Brasil". Desse mesmo pessoal, 94% afirmou: "eu não sou racista". Como é que é isso? Esse racismo está em Marte? E quando a gente diz pra assumir, não é pra provocar o ódio. Aqui, no Brasil, é tão inteligente a forma de discriminação racial, que quem é discriminado se sente constrangido de colocar a pauta.
OP - Elane, você pontuou que, para existir mobilização, tem de existir antes, claro, a percepção. Se a pessoa não se percebe como negro, como isso pode mudar?
Elane - Eu acho que cada pessoa tem uma experiência pra contar, como o Zezé falou. No meu caso, eu tinha 28 anos e conheci uma amiga numa pós-graduação e eu sempre participei de partido, mas a gente não estava nos movimentos como mulher negra. Essa amiga me chama para um coletivo de mulheres negras. E eu pergunto pra ela o que eu tenho a ver com isso. E eu militando, há anos, num partido. A minha cara, eu sou negra. Mas eu sou de uma família classe média urbana de Brasília e no meu ambiente não tinham pessoas negras. E eu não entendia isso que o Zezé falava, porque na hora da música lenta eu não era chamada para dançar. E isso é complicado, é uma consciência tardia. Quando ela me fala isso, eu vou pra casa e começo a questionar. E é doloroso. E vai dando um sentimento de revolta muito grande. Por que isso acontece? Ou você se organiza, grita, fala e protesta contra essas coisas ou então você entra em depressão profunda e não sai mais de casa.
Meire - Na verdade, essa percepção não é um momento iluminado (risos). É algo que vem de fora pra você. Você não se descobre, as pessoas dizem que você é. Não é uma auto-identificação, isso não existe. A maioria descobre no dia a dia. Ele é pivete. Mas ele não pode afirmar porque vai doer pra ele. É mais fácil deixar pra lá, não se deparar com o que estão te impondo. Ele vai ser chamado de preto, vai ser barrado, vai sofrer violência. E isso por conta da cor. Por conta da questão racial.
Zezé - Como o debate negro avançou na sociedade, muitas universidades estão colocando cotas, muitas empresas estão empregando negros, a ministra negra está gerando debate, ocupando espaço, setores tentam desqualificar. Não é ódio, o tema. Os dados estão dados. As políticas públicas estão em debate na sociedade. Uma coisa é justificar com argumentos num debate político-ideológico. Outras coisa é você ter os dados. E no IBGE, com certeza, a maioria dos pesquisadores não é negra. Então, não é ódio do IBGE, o cara dizer que o IBGE é racista. O ódio é o sentimento dos pretos em relação a essa situação. Tem que separar: uma coisa é o ódio que se sente quando se nota essas questões. Outra coisa é o debate sobre o que já está em pauta na sociedade. Eu tô vendo esse negócio se esticar como forma de desqualificar o que estamos propondo na sociedade.
André - Nosso espelho é o cotidiano. Desde cedo, você ouve formas degradantes de ser tratado. Saiu pesquisa agora da Unesco: em relações sociais na escola, as crianças negras são vítimas cotidianas de racismo. É da piada - é só uma piadinha. O racismo atravessa tudo, inclusive os negros. Porque não é uma coisa que atinge só os brancos, porque tem brancos não-racistas. Então, eu acho que quando falamos negros tem que ser a soma de negros e pardos. Acho que essa questão de negar que existe negro no Ceará... Se não existe, porque realça tanto na escola que nós somos o primeiro a libertar os escravizados? Ah, não tinha mais? Exterminaram de lá pra cá? Nós temos 22 comunidades quilombolas no Ceará. E aí, vamos negar que tem negros? Eu penso, e acho que a psicanálise e a psicologia ajudam muito nisso, que uma negação extrema é sempre uma afirmação. A força de querer negar é porque existe, você olha as relações cotidianas.
OP - André, qual o número exato de queixas ou processos de racismo no Ceará ou em Fortaleza? Existe algum relatório ou estudo a respeito?
André - Não tenho conhecimento de nenhum levantamento sobre a quantidade de inquéritos civis ou penais ou de processos judiciais por crime de racismo em Fortaleza ou em qualquer município do Ceará. Isso não significa que inexistam crimes raciais no Estado. Um dos mais célebres do Brasil foi aqui no Ceará. O colunista Claúdio Cabral escreveu: "Moral da história: feijoada é comida de músico baiano, negros e índios. Sub-raças, evidentemente." Um flagrante crime de racismo pela imprensa. O sistema de justiça falhou e ele ficou impune. Nós não podemos esquecer que a falta de um SOS Racismo no Ceará com atendimento jurídico, psicológico e social para os discriminados dificulta a reação das vítimas. Certamente há muito casos não chegam ao sistema de justiça. Outro problema, fato reconhecido pela OEA (Organização dos Estados Americanos) em outubro de 2006, quando o Estado brasileiro foi responsabilizado por discriminação racial, é o despreparo dos atores jurídicos em reconhecer o ato de racismo. Sempre buscam desqualificar o racismo para crimes de constrangimento ilegal ou crimes contra a honra. A grande conquista expressa na Constituição Federal de 1988 - a criminalização do racismo tornando-o imprescritível e inafiançável - não alcançou o Judiciário. O agravante é que no Ceará sequer no sistema de registro de ocorrências da Polícia consta os tipos penais previstos na Lei 7.716 de 1989 que trata dos crimes resultantes de preconceito de raça ou cor. Se qualquer vítima de discriminação racial procurar uma delegacia não terá como registrar sua queixa como crime racial. Veja quantas mudanças urgentes e necessárias precisam ser efetivadas imediatamente para promover a igualdade racial no âmbito da Justiça.
GLOSSÁRIO
AÇÕES AFIRMATIVAS - Conjunto de políticas públicas ou privadas, de caráter compulsório, facultativo ou voluntário, idealizadas para combater a discriminação racial, de gênero e de origem nacional, bem como para corrigir os efeitos da discriminação praticada no passado. Objetivam a concretização do ideal de igualdade de acesso a benefícios como a educação e o emprego.
NEGRO - Na demografia, negro remete à soma dos contigentes pretos e pardos da população. Do ponto de vista político, é utilizado pelo movimento negro como algo que denota identidade, em que preto e pardo seriam apenas cores, enquanto negra seria a raça.
RACISMO - O racismo engloba as ideologias racistas, as atitudes fundadas nos preconceitos raciais, os comportamentos discriminatórios, as disposições estruturais e as práticas institucionalizadas que resultam em desigualdade racial. A Unesco, na Declaração sobre Raça e Preconceito Racial de 1978, afirma que o racismo se manifesta por meio de disposições legais ou regimentais e por práticas discriminatórias, assim como por meio de crenças e atos anti-sociais; impede o desenvolvimento de suas vítimas, perverte quem o pratica, divide as nações internamente, constitui um obstáculo para a cooperação internacional e cria tensões políticas entre os povos.
RACISMO INSTITUCIONAL - É o fracasso coletivo de uma organização em prover um serviço profissional e adequado às pessoas em razão de seu fenótipo, culturo ou origem étnica. Ele se manifesta em processos, atidudes ou comportamentos que denotam discriminação resultante de preconceito incosciente, ignorância, falta de atenção, ou de esterótipos racistas que põem minorias étnicas em desvantagem.
Fonte: Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005 - Racismo, pobreza e violência, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
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03/03/2009
21:26
Parabéns ao Jornal O POVO. É necessário e urgente que os meios de comunicação se comprometam com a divulgação dessas temáticas. A sociedade civil hoje se volta para discutir politicas publicas que minimizem desigualdades de genero, raça, e outras singularidades sem que se desvalorize a importancia das desigualdades de classe. As desigualdades se acumulam. Imagine ser mulher, negra, pobre, e lésbica....
Dora
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