A primeira geração do "Pessoal do Ceará" - Ednardo, Belchior, Rodger Rogério, Téti - canta a cidade de Fortaleza, no seu aniversário de 281 anos. Stélio Vale, Quinteto Agreste, Kátia Freitas e Edmar Gonçalves também participam da festa promovida pela Prefeitura de Fortaleza, nesta sexta, às 19h, na Praça do Ferreira
11/04/2007 00:29

No final dos anos 60, Fortaleza aglutinava jovens que, "falando da vida e bebendo num bar", respiravam música. Após calorosas reuniões nas casas dos amigos e nos arredores do curso de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC), eles varavam a noite na Beira-Mar, mais precisamente no Bar do Anísio. Queriam se divertir, trocar idéias e, sobretudo, fazer música. A turma de amigos era o "Pessoal do Ceará". A designação popularizou-se com o lançamento do disco Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem, em 73, gravado em São Paulo por Ednardo, Téti e Rodger Rogério, que saíram de sua terra natal para tentar o "Sul, a sorte e a estrada". Mas o Pessoal do Ceará não era formado apenas pelo trio. Configurou-se como um coletivo - sem a pretensão de ser um movimento -, onde circulavam cantores, compositores e representantes de outras áreas artísticas. "Existem focos abrangentes de atenções à música, poesia, literatura, teatro, cinema, artes plásticas, etc. É comum encontrarmos, em alguns componentes do Pessoal do Ceará, uma extensão criativa e participante em mais de uma forma de manifestação artística e cultural", explica Ednardo.
O fato é que tais jovens compartilhavam experiências afins. Como reflexo da efervescência cultural e do contexto político da época, eles canalizavam suas inquietações por meio da música. "Naquela época, tinha repressão forte (da ditadura militar) e a gente procurava expressar o que sentia pela arte, mas de maneira sutil. Hoje já temos outros tipos de violência. Isso deveria unir a classe artística, como acontecia na minha época. Não há mais aquelas turmas", relembra Téti. A intérprete argumenta que a Fortaleza atual não permite mais a agregação de que ela sente falta. "Lembro que a gente caminhava pela Beira-Mar com tranqüilidade e voltava do Estoril às quatro da madrugada".
Durante sua juventude, Ednardo chegou a fazer loucuras do tipo "botar piano em cima da caminhonete e sair tocando pela beira da praia". O cantor acredita que este espírito jovem de curtição ainda existe em Fortaleza, mesmo marcada por outra realidade. "Juventude é um momento de vida maravilhoso, onde por hipótese, tudo é permitido. Mas é um mistério onde cada geração constrói, modifica e pratica, no mesmo mundo, que recebe dos antecessores, outra nova realidade, sonhos e utopias, suportáveis ou não, que em pouco tempo será substituída por outras e mais outras".
Boa parte da geração do Pessoal do Ceará aprendeu a tocar instrumentos a partir da própria convivência com os amigos. Era por meio do "olhômetro" que a aprendizagem tornava-se coletiva. Após estudar piano dos 5 aos 14 anos, Ednardo aprendeu a tocar violão por si só, mas escutava e olhava o que os amigos faziam. "Ao assistir na TV alguns programas e festivais, minha atenção se voltava de um lado para a sonoridade e de outro, olhando os acordes de teclados e violões. Tudo tem este espírito de aprendizagem coletiva e complementar. O fundamental é gostar de música, somar vivências musicais junto com a própria criatividade, que reflete e dirige a música de cada um", diz.
Com formação bossanovista, o autodidata Rodger Rogério afirma que a música de um acabava influenciando a do outro. "Olhando de hoje pro passado, o que a gente fazia era muito próximo. Eu apressei minha alfabetização para ler os folhetos de música". Aprendiz de piano por quatro anos, Téti nunca aprendeu a tocar violão. "Mas foi por pura preguiça. Tinha a mão pequena para fazer pestana e dizia: 'não quero'. Ainda hoje levo carão do meu filho (Pedro) por isso", brinca.
Desde pequena, Téti era chamada para cantar em festas de família e sempre se sentia insegura. "Dava aquela dor no coração! Carreguei essa coisa da infância até a fase adulta. Quando ainda era casada com Rodger, lembro que ele sempre foi muito lento pra se arrumar. Aí ele pegava o violão, com uma cachacinha no copo. Aquela demora, em vez de me acalmar, era uma revolução de adrenalina em mim". Durante o show dos amigos no palco, a cantora ficava nervosa, mesmo na platéia. "Achava que, a qualquer momento, eles me chamariam. Hoje já tenho tranqüilidade, procuro me concentrar antes do show", afirma Téti, que sobe ao palco com as filhas Flávia e Daniela (nos vocais) e a neta Júlia (na percussão).
SERVIÇO
281º aniversário de Fortaleza - Promovido pela Prefeitura de Fortaleza, o show com Ednardo, Belchior, Kátia Freitas, Edmar Gonçalves, Rodger Rogério, Téti, Quinteto Agreste e Stélio Vale acontece nesta sexta, às 19h, na Praça do Ferreira. Às 18h, apresentam-se Dona Zefinha e o Rap do Lagamar. Grátis.
SAIBA MAIS
Para ler - Na internet, o blog http://pessoaldoceara.blogspot.com apresenta a dissertação completa de Pedro Rogério (filho de Téti e Rodger) sobre "O Pessoal do Ceará: um Habitus Musical na década de 1970". Livros: Terral dos Sonhos - O Cearense na Música Popular Brasileira (Edições Secult), de Mary Pimentel, mapeia a música popular cearense de 1964 a 1979.
Para ouvir - Na internet, o site http://milvinil.multiply.com/tag/tetty traz download para as músicas do LP Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem (73) e do LP Massafeira Livre (1980), fruto da feira que reuniu diversas manifestações artísticas - principalmente a música - por quatro dias, em março de 79, no Teatro José de Alencar.
Para ver - Na internet, o You Tube (http://www.youtube.com/watch?v=yqCwSXlbOp8) traz um clipe da canção "Terral", cantada por Ednardo nas dunas de Jericoacoara.
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