Em cartaz aos sábados e domingos de abril, o espetáculo cearense De Braços Cruzados, do grupo Raça, narra a trajetória de dois cangaceiros, que confrontam a brutalidade do sertão com o despertar de um amor silenciado
06/04/2007 00:51

Confinados em plena mata sertaneja, os cangaceiros Febrônio e Indalécio procuram sobreviver após a morte do bando de Lampião. De madrugada, ambos decidem passar o tempo relembrando bons momentos que desfrutaram juntos. Até que Febrônio diz a Indalécio: "Eu não sei como é, mas você é mais que um amigo". A confissão do amor silenciado permeia o texto do espetáculo cearense De Braços Cruzados, do grupo Raça, em cartaz aos sábados e domingos de abril, às 20h, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz. Escrita e produzida pelo jornalista e dramaturgo Emmanuel Nogueira e dirigida por Edilberto Mendes, a peça narra a trajetória de dois personagens, marcados pela brutalidade do homem sertanejo em confronto com o sentimento amoroso guardado ao longo dos anos.
"O próprio título do espetáculo dimensiona essa negação da ação. Febrônio e Indalécio estão fechados um para o outro. São dois cangaceiros cercados por esse romance preso, que está nas entrelinhas. A boa dramaturgia é a que traz em primeiro plano o subtexto", explica Emmanuel. Com poucos elementos cênicos (uma roda de areia com folhas espalhadas no palco), o espetáculo procura enfatizar as relações humanas. "Existe esse contexto histórico do cangaço como metáfora do fim de uma condição, já que eles são os últimos remanescentes do bando de Lampião e estão já no último suspiro. Mas o singular do texto é a interação entre Febrônio e Indalécio", acrescenta.
De acordo com o ator Sydney Souto - que interpreta Febrônio, De Braços Cruzados fala sobretudo do amor que se revela diante da possibilidade da morte. Durante um duelo de faca, Indalécio acaba ferindo Febrônio. É por meio dessa "falha trágica" - elemento dramático que leva a história para um novo rumo - que os personagens começam a expor seus sentimentos um para o outro. Nas palavras de Sydney, a trama do espetáculo parece "O Segredo de Brokeback Mountain do sertão", em analogia ao filme de Ang Lee, indicado ao Oscar 2006, que narra a história de dois cowboys norte-americanos que se apaixonam nos anos 60. Mas Sydney complementa que a carpintaria do texto de Emmanuel não reduz a peça ao homoerotismo. "Vejo que entre os dois há uma amizade muito forte. Em dois ou três momentos, o texto sugere algo a mais entre eles, mas existe uma sutileza interessante".
A imagem da morte é, para Sydney, um dos grandes trunfos do espetáculo. "De repente, observamos dois cangaceiros embrutecidos que demonstram aos poucos suas fragilidades. Quando Febrônio é ferido, ele não sucumbe de imediato, mas depois ele começa a sentir dor e a ter alucinações. Ele imagina a chuva e o galo cantar. Essa chuva é como se fosse um choro e o galo cantando indica um novo dia", explica Souto.
Enquanto Febrônio aparenta ser o mais bruto e espontâneo, Indalécio demonstra timidez e maior sensibilidade. "Diria que Indalécio é mais arrumado, organizado e cuidadoso com tudo", diz Souto. O ator Bruno Correia Lima, que faz o papel de Indalécio, argumenta que seu personagem vem de uma origem social que contradiz os próprios valores do cangaço. "Não está exatamente dito no texto, mas podemos imaginar que Indalécio sai da vida comportada da cidade para entrar no bando de Lampião ao lado do amigo. Ele tem mais conhecimentos adquiridos por estudos e acaba confrontando o comportamento de Febrônio".
Acostumados com o excesso de violência cotidiana do cangaço, os dois personagens desencadeiam várias brigas. "No entanto, quando Indalécio fere seu amigo, ele insiste em tratar do ferimento. Ambos vão se desfazendo desses valores externos e começam a refletir sobre questões superiores, como o momento da morte", afirma Bruno. Segundo o ator, o espetáculo procura não enfatizar o relacionamento homossexual entre Febrônio e Indalécio. "Tentamos fazer uma abordagem que aponte para essa possibilidade, mas a decisão fica por conta do espectador".
Aproximação e repulsa marca a amizade entre Febrônio e Indalécio. "Há uma confusão de sentimentos que vão se revelando", afirma Emmanuel que, com o texto do espetáculo, conquistou o 1º Lugar no Concurso Nacional de Dramaturgia da Funarte/2005 e o 1º. Lugar no Concurso Nacional de Dramaturgia da Fundacc/2005, além dos Prêmios de Teatro Funarte Miriam Muniz/2006 e do Edital das Artes da Funcet/2006 na Categoria de Montagem Teatral. Segundo o diretor do espetáculo, Edilberto Mendes, De Braços Cruzados procura desfazer os personagens do lugar-comum. "O texto do Emmanuel está no 'fio de navalha', porque lida com códigos culturais muito pré-estabelecidos, como cangaço, rebeldia e violência no Nordeste. Procurei priorizar as emoções e as delicadezas das relações, sem estabelecer dicotomias e reforçar estereótipos", diz Edilberto.
SERVIÇO
De Braços Cruzados - Espetáculo do grupo Raça. Texto: Emmanuel Nogueira. Direção: Edilberto Mendes. Elenco: Bruno Correia Lima e Sydney Souto. Sábado e domingo, às 20h, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz (av. Duque de Caxias, 1701 - Centro). Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (comerciários, estudantes e idosos). Info.: 3452.9000.