Eleuda de Carvalho
da Redação
O artista plástico Fernando França lança O Diálogo entre Literatura e Artes Plásticas em 'Arte em Exposição', de Carlos Drummond de Andrade
03/04/2007 01:34

Fernando França costuma transitar numa via de mão dupla. Artista plástico, a literatura sempre esteve presente em suas inquietações estéticas. Tanto que fez o mestrado em Literatura, na Universidade Federal do Ceará (UFC). Agora, o resultado desta pesquisa chega a um público bem mais amplo, com o lançamento de O Diálogo entre Literatura e Artes Plásticas em 'Arte em Exposição', de Carlos Drummond de Andrade - que será lançado hoje à noite, na Oboé Cultural, com apresentação de sua orientadora, a professora Odalice de Castro Silva. O livro, como está expresso desde o título, é uma abordagem de Arte em Exposição, em que o poeta mineiro constrói sua tessitura poética a partir de 32 obras plásticas, que passam por nomes como Goya e Picasso, Da Vince e Munch, Manet e Portinari. A "dialogar" com o livro, França expõe também recentes trabalhos em que ele cria, ao seu modo, temas de Aldemir Martins.
"Peguei temas que ele utilizava, os galos, os gatos, e trouxe pro meu universo, em diálogo com minha personagem. Foi uma coisa influenciada pelo próprio trabalho com Drummond", reforça o artista. Em princípio, ele tinha outro projeto de pesquisa, "mas quando descobri estes poemas, ali estava a ligação direta. Com este livro (Arte em Exposição), Drummond estabelece uma nova teoria poética: poemas para ser acompanhados pela imagem", diz Fernando França. O fato de ele ser um artista plástico deu uma amplitude sem igual à pesquisa, trabalhando categorias além das literárias. Por exemplo, quando ele fala de perspectiva e do impressionismo, de maneira bem didática e lúdica, com "informações até pra quem não tem conhecimento". O autor escolheu uma das obras menos conhecidas do poeta de Itabira, e aproveita para revelar alguns equívocos editoriais - França teve o cuidado extremado de detectar que imagem Drummond realmente tinha diante dos olhos ao compor seus poemas, tendo em vista que algumas das obras mereceram diversas versões dos autores.
Drummond, diz França, "não teve acesso aos originais mas, por outro lado, ele era tão genial que conseguiu captar tanta coisa, a obra, a estética e o artista". Dentre as obras trocadas em edições do livro de Drummond (originalmente, os textos foram publicados em um jornal de São Paulo, em 1987, mesmo ano da morte do poeta), França destaca o poema sobre o quadro de Tiziano, Vênus e o organista, em que o poeta citava o cachorrinho, presente em uma das versões do quadro. Outro equívoco apontado por França diz respeito à tela A Cadeira, de Van Gogh e a tela de mesmo nome de Paul Gauguin - do tempo em que ambos viveram em Arles. O conjunto de poemas Arte em Exposição dialoga com 32 "obras fundamentais da história da arte", diz França, compondo o que ele chama de "O ateliê de Drummond", primeira parte do livro.
Na segunda parte, "O museu imaginário", França trata da palavra drummondiana, a qual o poeta dedicava-se "como uma espécie de escultor". Diz França, a respeito do emblemático poema Procura da Poesia, que abre A Rosa do Povo, publicado em 1945, em que o poeta dá, de certo modo, sua receita de poesia ("não faça versos sobre acontecimentos"), que ele próprio não seguirá. Aponta Fernando França: "O autor se utiliza de um jogo artificioso para demonstrar que a força da poesia se encontra, sobretudo, no trabalho com a linguagem". Quanto ao livro em estudo, França diz que o resultado final não é "nem descrição nem análise", mas um diálogo causado pela sensação das obras na ótica do Anjo Torto de Itabira, "em seu intelecto, em sua sensibilidade". Embora, como demonstra França, o erotismo dê o tom às escolhas do poeta, ele começa o livro com a tela Casamento de São Francisco de Assis com a Pobreza, de Sassetta.
Modigliani, e suas divas de pescoços de cisne, Matisse e sua densa sensualidade, Rousseau (com a tela A Cigana Adormecida, que sugeriu a Drummond os versos "para te acordar/ do sono profundo/ disfarço-me: leão/ que ao te roçar/ esquece a missão"), além de Picasso, Manet, Chagall, Rubens e Munch, com seu emblemático O Grito, fazem parte deste ateliê poético, além do amigo pessoal do poeta, Cândido Portinari - em sua tela Tiradentes ("Fez-se a burocrática justiça/ o trono dorme invencível vingado/ postas de carne do sonhador/ referem o caminho das minas") - estes temas retomados por Drummond ganham nova pulsação na abordagem intensamente poética de Fernando França. Como bem disse na apresentação do livro, a orientadora do autor, Odalice de Castro Silva: "O trabalho de Fernando França estabeleceu um interessante e fecundo diálogo entre objetos artísticos amados e admirados, enquanto se ofereciam ao seu autor como um momento de pensar a sua própria arte e seus possíveis caminhos".
SERVIÇO
O Diálogo entre Literatura e Artes Plásticas em Arte em Exposição, de Carlos Drummond de Andrade - de Fernando França. O livro, Prêmio Osmundo Pontes de ensaio em 2006, é a dissertação de mestrado do autor, que é artista plástico. O lançamento também vai contar com exposição de telas. Apresentação: Odalice de Castro Silva. Hoje, às 19h30, no Centro Cultural Oboé (rua Maria Tomásia, 531 - Aldeota). Inf.: 3264.7038.