Amanda Queirós
da Redação
O cineasta Márcio Câmara prepara sua mais nova obra de ficção, o curta-metragem Torpedo. A trama de época se passa no interior de um porão de navio que singra a costa brasileira. O ano é 1942. O Vida & Arte visitou o set montando num galpão de uma antiga fábrica e conferiu de perto as gravações do filme
03/04/2007 01:34

Terça-feira, 18h30. Quase no fim de uma Avenida Francisco Sá congestionada, iluminada àquela altura quase que somente pela luz dos carros, um enorme galpão se encerra. O que era uma fábrica de eletrodomésticos deu lugar a uma garagem de ônibus sem graça, de pouca luz e com chão irregular. Há duas semanas, esse mesmo espaço tomou outra forma. Quem daqueles que passam ali em frente todos os dias poderia imaginar que a antiga indústria se transformara em set de cinema? Por três dias, parte do espaço se tornou um porão de navio e ganhou cor, vida, luz, câmeras e ação pelas mãos da equipe do cineasta cearense Márcio Câmara. O filme em questão é Torpedo, curta-metragem de ficção financiado pelo IV Edital Ceará de Cinema e Vídeo, da Secretaria de Cultura.
No enredo, nove tripulantes de um navio a caminho do Brasil vêem-se envoltos por mistérios no porão da embarcação em plena Segunda Guerra Mundial. Entre encomendas, malas e caixotes, nos idos de 1942, uma atriz francesa tem de lidar com seu ambicioso empresário argentino. Um casal de namorados foge do iminente casamento forçado da mocinha. Um norte-americano guarda uma surpresa para os tripulantes até que... BUM! Um torpedo põe o navio água abaixo. Tudo em 15 minutos, marcados segundo a segundo pelo relógio transportado no departamento de cargas do navio onde se passam todas as cenas do filme.
Para quem fica de fora, o cenário parece, na verdade, uma enorme caixa iluminada. Colada nela, estava uma mesa de som, na qual um monitor exibia o que estava se passando lá dentro. Ao lado dali, uma garrafa de café. Só assim para varar a noite de filmagens que acabava de se iniciar, contou o técnico Danilo Carvalho. A gravação do dia anterior tinha ido até as quatro da manhã e a previsão para aquele dia era seguir os trabalhos até o momento em que os primeiros raios de sol atrapalhassem a iluminação desejada.
Mais ao longe dali, numa mesa de pique-nique, conversavam os atores acompanhados pelo serviço de bufê. Alguns já maquiados e arrumados, outros ainda esperando a produção, mas todos no aguardo de uma noite que prometia algumas olheiras no dia seguinte. Perto deles, em uma das entradas para o galpão, alguém evitava que os carros se aproximassem. Por isso a sensação de calmaria mesmo tão perto de uma das avenidas mais movimentadas de Fortaleza.
Lá dentro, a sensação percebida do lado de fora se desfazia. Márcio Câmara era uma pilha só. Ajeitava a hora do relógio, puxava uma cadeira mais para um canto de lá, checava a única câmera dali, chamava ator. A equipe também não parava. Polia o carro transportado no porão, estudava o caminho a ser percorrido pela câmara em trilho e escondia os fios que pudessem destoar da ambientação de época. Tudo pronto? Hora de ensaiar.
Na cena, o americano está sozinho e fica um tanto nervoso ao manipular um certo rádio. Não há falas nas quais ele possa se enrolar. Mesmo assim, lá vai a câmera uma, duas, três vezes, caminhando por entre malas e encomendas até revelar a imagem do próprio ator. O roteiro dos trilhos não deu certo? Vai andando mesmo. Toma cuidado para não estourar a imagem e aparecer o teto do set. Caminha um pouco mais devagar. Isso!
Foram precisos seis ensaios até o momento da gravação definitiva, quando o ator já suava em bicas por conta da luz forte. Daí, mais outras tantas tentativas até a cena perfeita. O cuidado com a direção de arte era latente. "Cadê a fumaça?", clamou Márcio. E lá vinha uma longa baforada de gelo seco, logo abanada e espalhada por um dos integrantes da equipe. "Tá faltando o balançador!", apontou também o diretor. Logo aparecia alguém para puxar uma das lâmpadas, num sistema que as fazia balançarem todas ao mesmo tempo simulando o movimento de um navio. Tudo quase preparado. Só a respiração em suspenso aguardando a indicação do chefe: "Vai som... Take... Ação!". E pronto. A magia do cinema se faz, mais uma vez, no Ceará.
NÚMEROS
O produtor Amaury Cândido revela os números do filme Torpedo:
R$ 70 MIL foram os recursos obtidos pelo IV Edital Ceará de Cinema e Vídeo, da Secult
R$ 140 MIL é o orçamento total estimado para toda a realização do filme
9 são os atores que fazem parte do elenco
15 foram os dias necessários para a montagem do cenário
5 foram os dias necessários para toda a gravação das cenas
Leia mais sobre esse assunto