Vida & Arte
ABRIL PRO ROCK
Messias pro rock
Veterano do forró cearense, o cantor e compositor Messias Holanda é atração da 15° edição do festival pernambucano Abril pro Rock. Ele se apresenta na Mostra Mestres do Forró, ao lado dos pernambucanos Azulão e Valmir Silva e do paraibano Biliu de Campina. A produtora Astronave, responsável pelo evento, planeja turnê no exterior para essa turma. Outra atração cearense no festival é a banda Quarto das Cinzas
Juliana Girão
da Redação
02 Abr 2007 - 01h06min
Ouça trecho da música Gosto dela
Ouça trecho da música Só vive pra comer
"Eu quero me trepar num pé decoco
Eu quero me trepar pra tirar coco
Depois eu quero quebraro coco
Pra saber se o coco é oco
Pra saber se o coco é oco"
Pra Tirar Coco (1981), Messias Holanda
Agora o forrozeiro Messias Holanda trepa no pé de coco! Sucesso nos anos 80 com o impagável Pra Tirar Coco, o cantor e compositor cearense vai pintar entre as figurinhas da música alternativa brasileira e mundial no 15° Abril pro Rock, festival pernambucano que é referência nacional e acontece nos próximos dias 13, 14 e 15, no Pavilhão do Centro de Convenções, na divisa de Recife e Olinda. O veterano cearense se apresenta na Mostra Mestres do Forró, ao lado dos forrozeiros pernambucanos Azulão e Valmir Silva e do paraibano Biliu de Campina. Os mestres dividem o palco com as principais atrações internacionais do evento: o jamaicano Lee "Scratch" Perry, uma das lendas do reggae, a banda francesa The Film e os argentinos dos Los Alamos. Com esse gancho, o Vida & Arte foi até o bairro Bom Sucesso, na zona Sul da cidade, conversar com o forrozeiro.
Messias Holanda apareceu sorridente para receber a reportagem, abotoando a camisa de seda estampada e ajustando o chapéu na cabeça. Todo cuidadoso com o figurino. Enquanto a reportagem se aprochegava na varanda cor de goiaba, o forrozeiro correu de volta para dentro de casa e voltou com um texto de biografia para facilitar o trabalho da repórter. "Tá só tudo aí", indicou com o papel na mão. "Agora você pode me perguntar: e hoje Messias como você está?", adiantou o serviço. Com 45 anos de carreira, a contar dos tempos do Conjunto Guarani, contratado da Rádio Iracema, Messias Holanda continua assim: rápido no gatilho. Quem conhece suas letras de duplo sentido que o diga! Apesar do acidente que o vitimou em 1993 e o deixou tetraplégico por um período, o forrozeiro continua na ativa. "A danada que me travou foi essa queda, mas eu costumo dizer que eu não danço mais como dançava, mas canto quase como cantava. Mas alguns amigos dizem que canto como cantava", orgulha-se.
Depois de integrar o casting de artistas do programa Central da Periferia, apresentado da por Regina Casé, da Rede Globo, no show em Fortaleza no ano passado, e de ser confirmado para o festival pernambucano, o forrozeiro exibe uma desconfiança bem-humorada. "A turma tá querendo me levantar de novo, querendo reviver os sucessos. Eu acho que é por causa da idade. O Luiz Gonzaga dizia: 'rapaz, eu tô sendo muito homenageado, eu acho que tô perto de morrer'", revela entre risos o forrozeiro, que interou 65 anos este ano e é contemporâneo do Rei do Baião e de Jackson do Pandeiro. E é assim, sem lamento e só alegria, que o cantor pretende se apresentar no festival em Pernambuco. Ele já tem na cachola o repertório com os cinco ou seis maiores sucessos, todas do tempo que imperava o trio zabumba, triângulo e sanfona. "Mas, se deixar, a gente canta três horas de forró e sobra troco", brinca. O último disco de músicas inéditas foi há tanto tempo que o cantor nem lembra. Em casa, ele faz cópias dos seus antigos trabalhos e vende para quem quer. Ele presentou a reportagem com o CD pirata 20 Super Sucessos - Messias Holanda, lançado pela Polydisc (ouça no link do Portal).
O convite para participar do Abril pro Rock, surgiu no ano passado, quando o produtor cultural Paulo André Pires, da produtora e agência de artistas pernambucana Astronave Iniciativas Culturais, responsável pelo festival, visitou o artista em casa, levado pelo DJ local Guga de Castro. Reconhecido por ter desenvolvido a carreira internacional de Chico Science & Nação Zumbi e Cascabulho e mais recentemente da banda Siba e a Fuloresta, o produtor planeja galgar uma carreira no exterior para a turma dos Mestres do Forró. "Com essa minha experiência, eu tenho certeza que esse projeto (Mestres do Forró) cabe muito bem no exterior", garante. Segundo Paulo André, a produtora pretende captar recursos através de Leis de Incentivo para a produção de um CD e um DVD ao vivo com o grupo para o mercado nacional. Para o exterior, a gravadora norte-americana Six Degree Records já teria confirmado o interesse em lançar o álbum e duas da Europa (o produtor não quis citar os nomes) estariam em conversação. "Mesmo que não seja aprovado, eu vou lançar esse disco, eu vou investir", empenha-se.
A agência também está reunindo esforços para montar uma turnê do grupo no verão europeu em 2008. Para isso, a produtora já tem estratégia: fazer vitrine na Womex, maior feira de produtores culturais do mundo, que este ano acontece em outubro, em Sevilha, na Espanha. Para participar do evento, é necessário enviar uma proposta que fica sujeita à aprovação. "Mas mesmo que não seja aceito, eu vou levar um material promocional do projeto para vender esse peixe para 2008", garante. A ferro e fogo, o produtor quer tirar os forrozeiros da margem do mercado e garantir o devido reconhecimento a essa geração contemporânea de lendas como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. "Eu acho que o forró é parte fundamental da música popular brasileira, e ele teve uma visibilidade muito equivocada para o público nos últimos anos, com esse forró eletrônico ou de calcinha, como eu chamo, e com o forro universitário. Eu costumo dizer que o forró autêntico é de barro e esses outros são de plástico, como brinquedo chinês, uma falsificação", defende.
Ouça trecho da música Eu vou plantar
Ouça trecho da música Gosto dela
Ouça trecho da música Só vive pra comer
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