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Vida & Arte

DANÇA CONTEMPORÂNEA

A aposta no processo

Baseados no princípio da colaboração, pesquisadores, bailarinos e coreógrafos latino-americanos e europeus criam estratégias para superarem as distâncias e trocarem informação. É a aposta em uma dança que valoriza o processo de fazer - e não somente de mostrar - a arte

Amanda Queirós
da Redação

31 Mar 2007 - 14h24min

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Uma sala de dança, alguns cigarros acessos, umas duas garrafas de cerveja abertas sobre o chão e um convite: que tal conhecer um pouco desta tal "dança contemporânea"? Ou seria melhor perguntar: que tal ser e viver também um pouco dela? É assim, de braços despretensiosamente abertos, que nove coreógrafos de diferentes partes do mundo vêm recebendo artistas e cidadãos cearenses para conversar e, a partir daí, pensar em uma dança que, ao invés de afastar, aproxima.

Desde a segunda semana de março, essa idéia reside em Fortaleza como parte do projeto CoLABoratório - Encontro Sul-Americano Europeu de Coreógrafos. A iniciativa, criada no fim do ano passado pelo Festival Panorama de Dança (no Rio de Janeiro), coloca coreógrafos com diferentes pensamentos para dialogarem e criarem juntos em um intercâmbio intensivo de idéias, linguagens e técnicas. A capital cearense hospeda a segunda e última fase projeto, do qual sairão peças a serem apresentadas por aqui na segunda semana de abril.

O modelo de projeto adotado pelo CoLABoratório denuncia uma necessidade cada vez mais presente em quem faz dança contemporânea: formação. Na realidade sul-americana, onde existem poucas publicações na área e poucas escolas públicas de dança (e as que se mantêm encontram-se afastadas por distâncias, às vezes, continentais), é preciso ampliar as perspectivas de pesquisa e estudo por outras frentes.

Coletivos de artistas vêm se estabelecendo em várias cidades para discutir o que vem acontecendo em cada região e estudar formas de atuação para a difusão da dança. A Internet também está facilitando a profusão de redes que integram coreógrafos, pesquisadores e bailarinos. Por meio delas, o conhecimento produzido localmente circula e atinge um número muito maior de pessoas. Os festivais de dança também estão sofrendo uma transformação, investindo mais na vivência cotidiana entre os artistas durante os dias do evento do que nos espetáculos a serem apresentados. "A regra é compartilhar. Nosso esforço é o de reconhecer, divulgar, apresentar iniciativas que estejam acontecendo em todo o espaço de alcance da rede", disse Sônia Sobral, gerente do Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural e representante brasileira da Rede Sul-americana de Dança.

Esses três exemplos demonstram uma preocupação maior pelo processo do fazer artístico em detrimento do resultado que possa surgir a partir dele. É a compreensão de uma arte que procura transformar desde a base ao invés de somente apresentar idéias. Com isso, abre-se precedentes para que a lógica da existência de um público passivo seja revertida. "Acho que a gente está em posição agora de conseguir começar a conhecer mais, não instituindo uma dança possível, mas colocando a dança como um campo possível dentro dessa diversidade", afirmou Andréa Bardawil, coordenadora de programação e formação da VI Bienal de Dança do Ceará, evento que está tocando o projeto CoLABoratório no Estado com apoio da Secretaria de Cultura do Estado (Secult) e da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza (Funcet).

Na mesma perspectiva do projeto, o Vida & Arte Cultura dessa semana abre as páginas para uma visão não do produto final ou resultado da dança contemporânea, mas dos processos pelas quais ela passa antes de ficar "pronta" para o público. O ponto de partida é a experiência vivida pelos coreógrafos nesses dias em Fortaleza e a discussão sobre modelos possíveis de trocas de informação.

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