Natália Paiva
da Redação
No início de março, um moço alto, franzino, de olhos arregalados e vivos chamado Leonilson - Leo ou Leó, para os muitos amigos - teria completado 50 anos. Para marcar a data, o Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar abre sala especial para mostrar o acervo de 16 peças do artista
29/03/2007 01:34

Numa terça-feira à noite, na praia de Iracema, duas crianças brincam ao redor de "golfinhos" e "estrelinhas", feitos de pedra portuguesa escura numa caixa d'água de azulejos brancos. Elas tentam mergulhar nesse aquário a céu aberto, ao se pendurar num dos peixinhos de pedra. A Torre na Praia ou Caixa d'Água dos Peixinhos, de 1984, é a única intervenção pública em Fortaleza do artista cearense José Leonilson Bezerra Dias - o Leo, o Leó. A partir de hoje, no entanto, vai ser possível mergulhar não apenas na obra pública cravada na areia da praia, mas também em parte do conjunto já inscrito na história das artes visuais do Estado e do País. É que o Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar (MAC) abre sala especial para celebrar o artista que teria completado 50 anos de idade no último dia 1º. Na mostra L.50, expõe-se o acervo próprio composto por 16 obras, a maioria dos anos 1980: aquarelas, litografias, bordado, costura-bordado, lápis de cor sobre papel, guache sobre papel, xilogravura, acrílica sobre lona. No próximo domingo, em São Paulo, o Projeto Leonilson e a Pinacoteca do Estado de São Paulo também realizarão exposição em homenagem, a Leo, 50.
A obra de Leonilson costuma remeter a uma palavra-síntese: delicadeza. Bitu Cassundé, curador da exposição L.50, tem uma 'explicação': é que Leonilson escrevia com a alma; a delicadeza de seu trabalho vem justamente da entrega do artista. Seus bordados, suas pinturas, suas costuras e seus desenhos transpiram um suspiro: "Veja, este sou eu". Não é à toa que uma de suas obras mais conhecidas é Voilà Mon Coeur ("Eis meu coração", de 1989), bordado de cristais sobre feltro. "E é cheio de sofrimento, todo esse processo. É toda uma via crucis poética, de sedução", afirma. Filho de família católica cearense, Leonilson traz em sua formação dois dados necessários para a leitura de sua obra. Um é a cultura popular nordestina, com todos seus códigos simbólicos (literatura de cordel, artesanato, cores vivas), e o outro é a iconografia religiosa. Mais tarde, as viagens do artista ao exterior também vão ser elementos constitutivos de sua obra, íntima de Bispo do Rosário, Leda Catunda, Lygia Clark, Hélio Oiticica. "Leonilson conquista pela paixão. Ele transcreve para a obra dele essa questão do confidencial, do secreto, e transforma a obra num diário íntimo, revelando-se através de cada trabalho. É por isso que ele captura, ele está trabalhando no território da emoção, está trabalhando com a verdade", pontua Cassundé.
Em 1961, aos quatro anos, Leonilson mudou-se com a família para São Paulo. O Ceará, no entanto, estaria sempre presente em seus códigos e em suas férias de longas temporadas. Ingressou no curso de Licenciatura em Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) em 1977 - largou-o três anos depois, quando da participação nas primeiras mostras coletivas. As primeiras viagens ao exterior aconteceram no início dos anos 1980. "Quando ele chega à Itália, ele é recebido pelo Antônio Dias e é encaminhado por ele a algumas galerias. Nessa época ele produzia desenhos, e as galerias ficam encantadas e adquirem todos. É esse o diálogo que ele tem com a transvanguarda italiana, o momento em que a Itália revive a questão da figuração, a 'nova figuração italiana', que vai se desdobrar, aqui, na Geração 80 (grupo que expôs no Parque Lage no Rio de Janeiro)". O modo de produção ele conta em entrevista à TV Cultura, copiada no documentário O Legado de Leonilson, do SescTV: pega frases e imagens importantes e vai guardando "dentro de si". "Até ter uma hora em que isso tudo exige uma materialização. Nessa hora, acontece o trabalho. Nessa hora, me vem na idéia a figura, uma quase combinação de cores que eu vou usar no fundo, e me vem a idéia de utilizar como mídia o papel ou o tecido pro bordado com a linha, ou a pintura", conta.
Críticos acordam que o trabalho mais contundente de Leonilson teve início mesmo em 1983, quando realizou duas exposições individuais (uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro). "Eu o conheci em 1983, quando ele veio pra Fortaleza. Ele estava começando esse trabalho já mais resolvido, digamos. E eu fiquei muito admirado porque a obra dele era bastante diferenciada do que se fazia na época; ele já tinha seus próprios símbolos, seu próprio caminho", pontua o artista visual Maurício Coutinho, amigo e curador da última exposição de Leonilson na cidade, em setembro de 2006 no Centro Cultural Banco do Nordeste. A crítica de arte Lisette Lagnado, em Leonilson: São Tantas as Verdades (DBA, 2000), define três fases ou núcleos formativos, na obra de Leo: o período de 1983 a 1988, que se caracteriza pela busca por uma definição estética e pelo prazer da pintura, feita em lonas de grandes dimensões; o de 1989 a 1991, quando surge o tema do abandono e a inclinação para os valores românticos, com a assemblagem de novos materiais para a superfície pictórica e a busca pela palavra escrita com mais freqüência; e os dois últimos anos de sua vida, em que surge a alegoria da doença e o tema da sexualidade aparece de forma persistente.
Foi nos últimos anos quando o artista passou a trabalhar mais com os bordados e as costuras - e aí, há uma dupla referência possível: reminiscências da meninice, já que desde pequeno pegava os retalhos do quarto de costura da mãe, e ardil de Penélope, que bordava e desfiava para adiar o reconhecimento da morte (a vida de Leonilson foi interrompida em decorrência da Aids, em 1993). "Eu vejo o bordado como uma forma de expressão poética, desde a questão do gestual, que está no processo de bordar, da delicadeza, até esse processo de utilização da palavra escrita", afirma Cassundé. Dessa fase, o MAC possui o bordado Montanhas sob a Neve, sem data, com pedras brasileiras semipreciosas e pulseiras de relógio sobre toalha de rechilier. A novidade do acervo é a aquisição recente da costura-bordado Sem Título (1990), que traz o acervo para os anos 1990. O trabalho mais antigo é o desenho de tinta preta a pena e lápis de cor sobre papel Maraponga/Marjolândia (1979), que põe em superfície as vindas de Leó para a casa dos amigos Bete Dias e Ricardo Bezerra, na Maraponga, e as esticadas até a praia de Marjolândia. "A obra do Leonilson é ele de cabo a rabo. Você vê que no Leó a pintura é relaxada, solta, você não encontra na pintura dele os contornos muito definidos, eles são sempre imprecisos. O que é uma coisa tipicamente dele. Ele era uma pessoa tipicamente informal. Vinha pra cá e trazia uma chinela japonesa, algumas bermudas e camisetas. Outra coisa típica dele é que era uma pessoa muito bem-humorada, o que reflete na obra dele", pontua Ricardo. Leonilson, seu coração e seus 16 trabalhos ficam expostos até maio.
SERVIÇO
L.50 - Exposição de obras do artista plástico Leonilson. A partir de hoje no Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Visitas de terça a domingo, das 14h às 21h30. Ingressos: R$ 2 (inteira) e R$ 1 (meia). Aos domingos, a visitação é gratuita. Informações: 3488.8622.
SAIBA MAIS
Site do Projeto Leonilson (sociedade criada por familiares e amigos do artista a fim de pesquisar, catalogar e divulgar as cerca de 3.000 obras): http://www2.uol.com.br/leonilson/
Leonilson: São Tantas as Verdades (DBA, 2000), de Lisette Lagnado (biografia e entrevista).
Leonilson: Use, É Lindo, Eu Garanto (Cosac & Naify, 1997), de Ivo Mesquita (105 desenhos feitos para a coluna Talk of the Town, no jornal Folha de São Paulo, publicados entre 1991 e 1993).