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MATÉRIA DE CAPA

No ateliê do Eloy

Como admirador da obra do Rembrandt, o artista plástico Eduardo Eloy mostra no seu ateliê como o mestre holandês desenvolvia sua técnica na gravura


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28/03/2007 00:50

EDUARDO ELOY revela a aplicação da técnica usada por Rembrandt por artistas contemporâneos/ FOTO BRUNO MACEDO
EDUARDO ELOY revela a aplicação da técnica usada por Rembrandt por artistas contemporâneos/ FOTO BRUNO MACEDO

Nascido em Fortaleza, de mãe cearense e pai mineiro, criado no Rio, bem viajado, mundo afora. Eduardo Eloy comemora 30 anos dedicados às artes plásticas e ao ensino, com exposição que vai acontecer em maio. Em seu ateliê, aberto ao vento e à luz, o material do seu ofício: a prensa, os papéis que ele mesmo fabrica, trabalhos de seus alunos, livros. Sobre a mesa, um volume de Piranese, o famoso gravador dos cárceres, explica Eloy. "O Piranese se influenciou em Rembrandt e Rembrandt em Dührer", começa. Os artistas dos séculos 16 e 17 se apropriavam de trabalhos de outros mestres, faziam releituras. "Já era uma coisa bem pós-moderna, não é? Esse tempo poderia ser agora". Eduardo Eloy foi o introdutor da técnica da gravura no Ceará, em cursos e oficinas que ele realizou, nos anos 80, na Casa de Cultura Raimundo Cela, depois no Museu de Arte da UFC e com o grupo Tauap, do qual fez parte o gravador Sebastião de Paula.

O artista apresenta a ponta-seca que ganhou, vinda de Nova York: parece uma caneta-tinteiro, com uma ponta metálica fina e, claro, sem tinta, daí ser chamada seca. Mas é muito cara, diz ele, que improvisa seus instrumentos, a partir de brocas de dentista. A placa de metal, revestida de verniz, é desenhada com a ponta-seca ou o buril, "depois boto nesta banheira com ácido muriático. Isto era o que Rembrandt fazia... Depois, dou toques de ponta-seca, um ataque direto à chapa de metal. O Rembrandt criou um verniz muito especial, pastoso. O verniz, em geral, é uma mescla de piche, resina e cera de abelha. A água-forte, ele fazia com ácido clorídrico, em densidade baixa. A ponta-seca tem uma ciência. Dependendo da inclinação da mão, solta-se a rebarba, o encrespamento do metal, onde a tinta vai ficar retida".

Eloy também desenvolveu um verniz próprio, o "rapadura", em parceria com o paraibano Registon, seu ex-aluno, e autor de uma primorosa gravura da artista Zabé da Loca, tocando pife. "Fizemos uns 'chiquismos', no último curso de metal", diz ele, mostrando a recriação feita pelos alunos a partir dos bichos fantásticos e surreais pintados por Chico da Silva. Ele mostra outros exemplares de água-forte e água-tinta, como estas do Nabor, "primorosas. Pra você ver a potência desta técnica na contemporaneidade". Uma das turmas de Eloy foi de meninos da favela Baixa Pau, no entorno do Dragão do Mar. "Olha o talento deste rapaz, o Paulo", elogia Eloy, que também foi professor dos artistas Marcelo Monteiro e Gérson Ipirajá. (Eleuda de Carvalho)


A DIGNIDADE DOS PERSONAGENS
Passamos aos bustos e rostos, feito esta Velha dormindo, "um sono abusado", repara Eloy. Os personagens populares que Rembrandt retratou são muito dignos, observa ele. Nos retratos, o artista realiza uma gravura "mais intimista. Ele não fazia concessões. Neste Camponês com boina alta, o personagem não está colocado de maneira pejorativa ou jocosa. Em O Persa, a luz pega bem no diafragma e se expande, dourando a pança dele. E a pena no chapéu equilibra a composição inteira. Em O Ourives, vemos a concentração do artesão. A cena fala, Rembrandt é f...! A gravura em metal nasceu nas oficinas dos ourives", informa. Tanta coisa a ver, com calma. Espiar com a lupa os detalhes, os entalhes, a paisagem microscópica. Painéis ao longo das paredes ampliam informações visuais sobre o artista e sua época, o ateliê, por exemplo, repleto de exotismos que o artista comprava a peso de ouro: bichos empalhados, chifres, conchas, cocares e flechas, espadas e elmos, cabeças e bustos em mármore.

Cenas alegóricas, de fantasia e de gênero revelam a diversidade de temas do artista. Combates a cavalo, uma porca manietada, a Morte aparecendo a um jovem casal ("está gasta, também"), cenas do teatro grego, um mendigo recebendo esmola na porta de uma casa ("O que é complexo, ele simplifica. Você abraça a cena com os olhos, de uma vez"). Paisagens, o cenário rural de Amsterdã, com seus horizontes sem fim, os moinhos de vento e as casas de teto até o chão, parecendo morros. "Rembrandt nos coloca numa vastidão... Ele trata o cotidiano de uma forma coloquial. Você sente a vida", diz Eduardo Eloy. Atrás de cortinas duplas, uma saleta virou oficina de gravura. Uma prensa, placas de PVC, em lugar das chapas de metal, tarlatanas para limpar a matriz, tinta negra, instrumentos de gravar, papel, luvas de borracha - tudo para o visitante também experimentar, na prática, a técnica em que Rembrandt foi incomparável. (EdC)

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