Amanda Queirós
da Redação
No início de maio, o Projeto Balbucio arruma as malas rumo a Portugal. O grupo cearense de arte contemporânea foi selecionado para participar do Performa 2007, uma conferência internacional sobre artes performáticas
20/03/2007 23:54

A inscrição no azulejo da cozinha dele denuncia a novidade que vem agitando os jovens artistas do Projeto Balbucio desde a semana passada. "Al - Al - Al! Vamos pra Portugal! De 9 a 12 de maio, Balbucio Internacional". O grupo cearense foi um dos selecionados para participar do Performa 2007, uma conferência internacional de investigação sobre artes performáticas. O evento ocorre no início de maio na Universidade de Aveiro, em Portugal. Nele, artistas de diversos países vão discutir os rumos de uma arte cada vez mais explorada, mas ainda bastante desconhecida: a performance.
Para os artistas do Balbucio, a participação vai sair melhor que a encomenda. Na inscrição, eles haviam submetido oito trabalhos diferentes na expectativa de pelo menos um ser aprovado para apresentação em painéis de dez minutos. Após a enxurrada de propostas do grupo cearense, a organização do Performa os convidou para comandar um painel próprio de uma hora e meia de duração. Tomados de surpresa pela notícia, eles ainda não sabem o que vão apresentar, mas prometem instigar os conferencistas a refletir questões próximas ao grupo como a relação com a cidade e a interação com os espaços públicos.
"Ainda existe pouca discussão sobre performance. Como nós já vivemos esses trabalhos, vamos poder fazer um debate sobre todo o nosso processo de produção", comentou Jedi, um dos integrantes do grupo que, em breve, vai arrumar as malas rumo a Portugal. Além dele, devem viajar também os artistas João Vilnei e Greta Frota, assim como o professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará (UFC), Wellington Jr. Ele coordena o Balbucio, que também é um projeto de extensão da UFC.
Criado em 2003, o grupo frutifica suas performances em todo lugar. Quando menos se espera, lá está ele no meio da Av. da Universidade, colocando seus artistas para interagir com o público exatamente onde ele menos pensa em ser abordados. Homens de terno lavando vidros de carros? Gente vestida com macacões coloridíssimos? Gelo derretendo no meio do asfalto? Pode apostar que aí tem dedo do Balbucio. Essa intervenção urbana, realizada constantemente, ajudou a consolidar o grupo na cena da arte contemporânea cearense. Quatro anos depois, é hora de colher os frutos.
O primeiro veio com o Edital BNB de Cultura em Artes Visuais, conquistado pelos artistas em 2005 e responsável pelo custeio do último grande trabalho do grupo: a Casa da Santa, realizada no ano passado. Durante uma semana, a casa onde parte do grupo mora transformou-se em instalação, numa releitura de um famoso bordel que fizera as cabeças masculinas até os anos 60 no bairro Benfica. O segundo grande reconhecimento é exatamente a participação no Performa.
Desde o surgimento, a relação do Balbucio com a Academia é bem próxima. Como projeto de extensão da UFC, ele já participou de diversos eventos da instituição. Entre eles, a Semana de Humanidades e os encontros do Curso de Comunicação Social. A maioria dos artistas vieram exatamente daí. São estudantes de publicidade e jornalismo que, sob a tutela do professor Wellington Jr., começaram a se indagar sobre as possibilidades do corpo. Agora, com a formatura de boa parte deles, o grupo começa a repensar suas estruturas. "Nós amadurecemos bastante. Já temos condições de nos desprender da universidade e nos juntarmos para fazer outros projetos independentes", afirmou Greta. "E mesmo que a gente não siga essa carreira de artista, com certeza vamos ser publicitários e jornalistas diferentes porque o nível de discussão que tivemos aqui extrapola o que tivemos na faculdade", disse João.
A despeito dos questionamentos sobre os rumos do grupo, o que vem mobilizando mesmo os artistas é a busca por formas de viabilizar a viagem. O congresso não oferece nenhuma ajuda de custo. A peregrinação em busca de apoio começou e deve bater as portas de consulados, bancos, universidades e casas parlamentares. Para se ter idéia dos gastos, R$ 10 mil devem ser destinados só para a compra de passagens. "Fazendo arte, a gente sempre gasta mais do que ganha", sorriu Jedi. Apesar dos entraves, o Balbucio não desanima. "Antes de tudo, participar de um congresso desses mostra que a gente está, no mínimo, no caminho certo", disse João, que já antevê a atuação proativa do grupo no Performa. "Com certeza vai rolar alguma performance com o pessoal de lá. Vamos atrás dessas experiências novas".
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