Hoje a Igreja Católica celebra a festa de São José. O Vida & Arte de hoje foi atrás de descobrir quem foi esse homem que, apesar de quase não aparecer na Bíblia, cresceu e se tornou um dos santos mais populares
19/03/2007 01:31

São José, definitivamente, é pop. Tão pop que, mesmo após uma aparição rápida na Bíblia, tornou-se um dos santos mais queridos. E olha que isso não aconteceu a reboque da própria Igreja Católica. Foi a intensa fé popular no "pai adotivo" de Jesus que levou José a se tornar cultuado séculos antes de se tornar Patrono da Igreja Universal, em 1870, pelas mãos do Papa Pio IX. Ele foi tomado como santo por aqueles que, assim como ele, foram e são trabalhadores, anônimos e esquecidos, mas que, mesmo vivendo essa invisibilidade social, têm papéis imprescindíveis para a condução da História.
A figura de José é uma das grandes responsáveis pela humanização de Jesus. Foi ele quem assumiu a guarda do menino e assegurou o espaço social necessário para que ele pudesse crescer até o momento de começar a suas pregações. Nos Evangelhos de Mateus e Lucas, nos quais aparece, o carpinteiro é descrito como justo e profundamente marcado de humanidade.
"Assim como muitos homens de hoje, José fica perdido quando a mulher toma a dianteira da situação", afirmou o padre Luís Sartorel, coordenador do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (Cebi) em Fortaleza. O episódio teria acontecido devido à indecisão do carpinteiro frente ao casamento com Maria após ela aparecer grávida por ação do Espírito Santo. Confuso, foi preciso a aparição de um anjo em seus sonhos para que ele se orientasse e assumisse seu papel como esposo da futura mãe de Jesus. O pastor Áureo Oliveira, diretor do Seminário Teológico Presbiteriano, também reafirma esse caráter humano. "José foi tomado de uma dúvida muito grande e essa dimensão humana se preserva para nós. Por conta disso, a gente se sente mais próximo dele e, por isso, não o idolatra", explicou. De acordo com os dois estudiosos, esse seria um dos motivos para a identificação popular com o pai de Jesus.
Após o nascimento de Jesus, José aparece na Bíblia somente mais uma vez, quando o menino já está com 12 anos e se perde no Templo da Cidade Santa. Depois daí, mais nada. Nenhuma referência de como educou o filho, da convivência familiar ou de sua provável morte antes da vida pública de Jesus. Esse desconhecimento é um dos possíveis motivos para os devotos de José mitificarem a vida do santo. Parte do que se ouve hoje na boca do povo vem de uma tradição cultivada ao longo de dois mil anos e presente também no evangelho apócrifo dedicado exclusivamente ao personagem. O texto, de autoria desconhecida e não reconhecido pela Igreja, teria sido escrito no século IV.
"A História de José, o Carpinteiro" é uma descrição de Jesus do que teria sido a vida de seu pai. Narra com detalhes a trajetória dele, principalmente os episódios relativos ao casamento com Maria e ao de sua morte. No texto, José teria tido outra esposa anterior a Maria, com a qual tivera filhos e filhas. Após a morte dela, ele teria sido o escolhido pelos sacerdotes para casar com a jovem Maria, de apenas 12 anos. Na época, ele teria 88. Aos 111, a morte teria sido enfrentada duramente pelo carpinteiro ao lado de um Jesus já adulto, da esposa e de seus outros filhos.
"Esses são escritos da piedade popular. Incorporou-se à tradição que José, na hora da morte, estava cercado por Maria e Jesus. De certa forma, ele teria sido um privilegiado e isso toca de perto a sensibilidade do povo", explica Sartorel. Esse seria um dos motivos para José ter se tornado padroeiro da Boa Morte.
A história contida no evangelho apócrifo seria uma forma do povo explicar a origem dos "irmãos" de Jesus que são mencionados em uma passagem da Bíblia e que a Igreja interpreta como primos dele. Outra missão destinada a José pelo povo foi a de um santo casamenteiro mais "eficiente" que o própro Santo Antônio, por ter sido um exemplo de bom marido e, por isso, ter conquistado também o posto de protetor das famílias. "Ele era muito simples, humilde. Acho que isso fez com que a igreja olhasse para esta figura como exemplo", afirmou o padre Carlos Alberto Monteiro de Andrade, da Paróquia de São José, no bairro Edson Queiroz. Para todos os entrevistados, no entanto, o principal elemento de identificação do povo com o santo está no fato de ele ter sido um trabalhador, da mesma forma como boa parte de seus fiéis. Uma tentativa de redenção para quem constrói o dia-a-dia à base do silêncio quando, na verdade, merece bem mais que o anonimato.