Joubert Arrais
Especial para O POVO
A mostra Rumos Dança se encerrou no último domingo (11), depois de dez dias de apresentações, na capital paulista. O resultado da ação é um incentivo à produção artística ao ampliar as possibilidades de criação, promovendo ainda a descentralização
13/03/2007 00:17

Para onde está indo a dança dita contemporânea não é uma boa pergunta. Melhor refletir sobre quais questões a gente pode ver nas obras produzidas atualmente e as conseqüências políticas dessas escolhas. A mostra Rumos Dança, que se encerrou anteontem, em São Paulo, é um bom exemplo. Foram 25 apresentações de pesquisas coreográficas - seis delas do Nordeste e uma do Centro-Oeste - que apontam para discussões sobre identidade, autismo, loucura, cultura popular e de massa, cibercultura, antropofagia entre outros assuntos. Nesse sentido, o evento funciona como panorama, pois amplia as possibilidades de criação, mesmo com restrições em sua abrangência nacional. É também vitrine porque dá visibilidade aos artistas e suas inquietações.
De fato, muito do que se viu não se configura como espetáculo, algo já acabado. O caráter processual fez-se presente em quase todos os trabalhos. Tal postura condiz com os objetivos do Rumos Dança. Ao viabilizar projetos de "desenvolvimento de obra", o programa impulsiona uma produção de dança, onde cada obra representa uma forma distinta de organizar um repertório individual de idéias. Quando Verônica de Morais (BA) pesquisa a capoeira angola e a dança de rua para o seu solo Bom de Quebrar, uma nova configuração de pensamento emerge. Na abertura, a paulista Leticia Sekito demonstrou em E eu disse que o conceito de identidade é transitório, partindo do solo Disseram que sou japonesa. Helder Vasconcelos (PE) segue a mesma temática em Por Si Só, partindo de sua vivência brincante, no caso, com mediação tecnológica e em colaboração com o pesquisador ítalo-francês Armando Menicacci.
O grupo Dimenti, de Salvador, utilizou fragmentos do dramaturgo Nelson Rodrigues - em O Poste, a Mulher e o Bambu - para avançar na pesquisa sobre "corpo borrado". Por exemplo, o intérprete tem de encontrar uma solução corporal, dentre as 20 propostas em cena, como "grite com alguém como se quisesse cuspir na cara. Já as performances Amarelo, de Elisabete Finger (PR), e In-organic, de Marcela Levi (RJ), são complementares quando problematizam o corpo como ambiente antropofágico e automodulável, respectivamente. Destacando que Elisabete faz parte do coletivo Couve-Flor, minicomunidade artística internacional (www.couve-flor.com), que entrou na mostra também com o televisivo e teatral Solução para todos os problemas do mundo, de Neto Machado e Stephany Mattanó, também do Paraná.
Dessa turma, tem ainda Michelle Moura que apresentou Gêmeos, com Alex Cassal (RJ), onde a loucura é a temática, assim como em Magno_Pirol, do cearense Graco Alves. A diferença está no foco, pois o duo aborda o universo paralelo dos autistas, enquanto o solo problematiza a loucura na perspectiva do corpo submetido a tratamento químico e de reclusão. Noutra perspectiva, Valéria Vicente (PE), com Pequena Subversão, e Clara Trigo (BA), em Deslimites, apresentaram estudos de vocabulário pessoal: a primeira partindo do frevo e a segunda, da condição de mulher soteropolitana. Já Spiro, de Roberto e Gustavo Ramos (SP), foi destaque por se configurar como um espetáculo acabado - pesquisa sobre corpo sonoro em contraste com o silêncio (www.dam.art.br/spiroport.htm) -, sem descartar o aspecto processual que esta e toda obra artística têm.
A instalação coreográfica Organizador de Carne, de Sheila Ribeiro (SP), em parceria com osh S. (PI), é uma dança que aborda "o que é ser gente" no trânsito e na construção de uma ética do nosso tempo, a partir do mundo virtual e real (www.donaorpheline.com). O Núcleo Artérias (SP) apresentou Ruído, com a mesma estrutura cênica da obra anterior, também dinâmica, onde pontua os ideais de consumo se inscrevem em nossos corpos. Outra foi Um corpo do qual se desconfia, dos paulistas Juliana Moraes e Anderson Gouvêa, com cerca de três mil revistas em cena, problematizando a construção do corpo pela mídia e a resistência/aceitação nesse processo.
Enfim, as possibilidades são mesmo muitas. Se a dança pode tudo, podem mais seus criadores quando decidem correr riscos ao abordar inquietações locais nessa dança de agora, logo, contemporânea. Dessas tantas experiências, há confronto de idéias, adaptação às restrições do ambiente e continuidade de uma produção preocupada com a investigação artístico-científica. Deve-se atentar, no entanto, que tipo de conhecimento de dança é possível vir à tona ante toda essa abertura e que rede de pensamento é possível, que não é um tratamento estético meramente institucional. Senão o esforço, a longo prazo, é em vão.
Joubert Arrais é jornalista, crítico de dança e mestrando em dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Viajou à convite do Instituto Itaú Cultural.