A exposição Rubens Gerchman: Pinturas e Objetos tem vernissage hoje na Galeria Multiarte. Traz mais de 20 obras do artista carioca, um dos expoentes das artes visuais dos anos 1960 e 1970, ao lado de Lygia Clark e Hélio Oiticica. Fica en cartaz até maio
13/03/2007 00:17

O bolero dolorido de Caetano Veloso, chorado na voz suave de Nara Leão no antológico álbum Tropicália ou Panis et Circensis, imortalizou a bela Lindonéia. Lindonéia Amor Impossível - solteira, cor parda, desaparecida na preguiça, no progresso - é obra de Rubens Gerchman, artista visual que, ao lado de Lygia Clark, Hélio Oiticica, Antonio Dias e Roberto Magalhães, dentre outros, revolucionou as artes plásticas brasileiras nos seminais anos 1960 - período de explosão de novas linguagens, com cinema novo, bossa nova, tropicalismo, Centros Populares de Cultura (CPCs da União Nacional dos Estudantes), nova figuração. "Pela primeira vez, não se ficou ilhado nas artes visuais, só na pintura, no desenho, na gravura. Transcendeu. Surgiu o que mais tarde se chamou de performance, surgiu a videoarte. Foi uma geração inquieta, que não se limitou à tela. A gente trabalhou no tridimensional - não fazia escultura, era a idéia dos objetos especiais. A gente construía", lembra Rubens, em entrevista por telefone um dia antes de viajar para Fortaleza. Aqui, Rubens vai abrir, hoje às 20 horas na galeria Multiarte, a exposição Rubens Gerchman: Pinturas e Objetos, que traz mais de 20 obras e exibe alguns de seus vídeos, como o videoarte Triunfo Hermético (1972). Amanhã, a galeria abre espaço de conversa com o artista, a partir das 19 horas.
Gerchman criou Lindonéia a partir da estética noticiário-policial. No centro da tela, o porta-retrato (tipo retrato pintado) de uma mulher jovem, marcada no olho esquerdo, no nariz e no lábio inferior, como se houvesse sofrido agressão. Entre o susto e a irritação, a bela Lindonéia fica entre os dizeres "um amor impossível" e "de 18 anos morreu instantaneamente". Essa é uma das personagens femininas que fazem parte da iconografia de Gerchman, retiradas do cotidiano dos noticiários policiais para as artes plásticas - depois, ele também transporia o futebol. "Anteriormente, eu fiz o Concurso de Misse, em 1965, em que eu mostrava as personagens femininas desfilando, do lado direito a imprensa documentando e atrás a multidão aplaudindo. Depois veio a Lindonéia, segundo personagem. E, depois, a Lou, sem nenhuma inocência. Ela era uma denúncia; o pai da Lou era militar, tinha feito contrabando de nylon, a Lou era estudante da PUC, o namorado era um astrônomo. Era um pouco a denúncia da classe média, mostrando como as coisas aconteciam. A Lindonéia é romântica, a Lou já é uma coisa bem intencional, mais sarcástica. É um humor negro, e é em plena ditadura. É uma coisa progressiva. A Lou digamos que seja o auge".
Rubens cresceu visitando regularmente a agência de publicidade do pai; espiava o funcionamento da parte gráfica, observava os desenhistas. Antes de migrar, seu Mira fazia anúncios e logotipos em Berlim - aqui, obrigava o filho a desenhar letras, antes de ir jogar botão ou futebol. Iniciou sua aprendizagem artística em 1957, aos 15 anos, cursando aulas noturnas de desenho no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro e, no ano seguinte, começou a trabalhar como programador visual em revistas e editoras cariocas. Em 1960, matriculou-se na antiga Escola Nacional de Belas Artes, e, quatro anos depois, exibiu sua primeira mostra, de desenhos e litografias. Mas apenas em 1965 realizaria uma individual de repercussão, quando começariam a surgir os temas urbanos que iriam caracterizar sua pintura nos próximos anos. Nessa época, Gerchman já era um dos principais representantes da vanguarda carioca. Em 1967, criou sua "gramática própria": a Cartilha no Superlativo, que trazia, em letras enormes de acrílico, a problematização do desgaste da palavra: Terra, Lute, S.O.S., Água, Ar. Em plena Ditadura Militar, a obra de Gerchman se inscreve no contexto da resistência contra o arbítrio, como a série Desaparecidos (1965) e O Julgamento (1979). Mas, mais: o olhar do artista se voltava constantemente para as manchetes dos jornais, a publicidade, a televisão, os folhetins, os dramas populares, a classe média, a cultura suburbana no futebol.
Ainda em 1967, Rubens ganhou o prêmio de pintura no Salão Nacional de Arte Moderna: uma viagem ao exterior. Por conta da viagem, deixou de participar como cenógrafo da produção de Macunaíma, filme emblemático do cinema novo, de Joaquim Pedro de Andrade; mas, em Nova York, viveu outras experiências. "Nos EUA, meu ateliê era lugar de encontro. Tinha Glauber Rocha, Lygia Clark, Hélio Oiticica, que ficou quase um ano lá. Na época, estava no experimento de novas linguagens, tava aquecido, era aceitar um desafio novo". Em 1975, já de volta, Rubens fundou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, que reuniu mais de 40 professores-artistas. "Foi muito fecunda essa experiência, se formaram vários profissionais na área. Eu acho que isso também foi um legado para a geração futura. Foi o pessoal dos anos 1960 que deixou uma herança na parte de ensino, mesmo que não tivesse formação na área de professor. E o Parque Lage funcionou um pouco como válvula de escape para essa geração que tava sem local para se expressar".
Em Fortaleza, a exposição de Rubens Gerchman é composta por dezesseis pinturas atuais e uma histórica: a imagem de Lou. Ainda traz cinco objetos, dentre eles maquetes da Cartilha do Superlativo (Lute e Ar). "A exposição tem esse lado de mostrar o trabalho já feito, mas o mais importante é informar do que está se fazendo hoje. Ela é uma coisa mais modesta, mas dá um sentido geral, dá um apanhado do que foi feito, pega algumas luzes importantes, dos anos 1960, 1970". Sobre sua obra recente, basta espiar a série Beijos, realizada em 2005 e 2006. Apesar de remeter diretamente à série setentista Banco de Trás, a obra atual troca o erótico e o sensual dos amassos no banco de trás do carro pela delicadeza dos beijos. "Tem uma espécie de ciclo da vida. Digamos que agora é uma época de maturidade, não é mais o menino de 25, 30 anos que queria protestar, o erotismo pelo erotismo. Mudou, não pode ser a mesma experiência. A arte segue a vida". A vitalidade da obra de Gerchman pode ser vista a partir de amanhã, na galeria Multiarte, e fica em cartaz até 7 de maio.
SERVIÇO
Rubens Gerchman: Pinturas e Objetos - Hoje, abertura para convidados, às 20 horas, na Galeria Multiarte (Rua Barbosa de Freitas, 1727 - Aldeota). Visitação: de amanhã (14) a 7 de maio, de terça a sexta-feira, das 14h às 20h. Amanhã Informações: 3261.7724.