Vida & Arte
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
O ano de Gabo
Em 2007, são 80 anos de vida, 60 anos de publicação do primeiro conto (La Tercera Resignación), 40 anos de lançamento de Cem Anos de Solidão e 25 anos de recebimento do Prêmio Nobel de Literatura. Sim, este é o ano de Gabo, o colombiano que pinta seus livros com as cores do maravilhoso
Natália Paiva
da Redação
10 Mar 2007 - 14h40min
Gabriel García Márquez - Gabo, Gabito - é a grande estrela do "boom" da literatura latino-americana nos seminais anos de 1960, o fenômeno editorial e literário que pôs em evidência escritores como o cubano Alejo Carpentier, o mexicano Carlos Fuentes, o argentino Julio Cortazar, o peruano Mario Vargas Llosa. Mas nenhum teve tanto êxito comercial e midiático quanto Gabo, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1982, "por seus romances e contos, onde o maravilhoso e o real são combinados em um mundo ricamente composto de imaginação, refletindo a vida e os conflitos de um continente". Ana Lucia Trevisan, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Educação da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), destaca, na obra de Gabo, o delicado tratamento de dramas humanos - elemento que constitui toda grande literatura. "O realismo maravilhoso é o diferencial. E, além de tudo, ele consegue fazer um panorama histórico latino-americano, desde nossa gênese, descobrimento, independências, revoluções". Para a professora Ângela Gutierrez, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Ceará, o seu modo de narrar trouxe, como grande novidade à época, três marcas: a exuberância da linguagem, a facilidade de entendimento do texto e o comércio entre vários níveis de realidade. "Gabo quer ser entendido por todos, abomina a obscuridade e a dificuldade na narrativa e delicia-se com a possibilidade de recuperar, através da literatura, o mundo de sua infância na casa dos avós e o mundo caribenho", afirma.
O maravilhoso na obra de García Márquez vem da audição dos contos da avó, na infância passada em Aracataca, povoado do departamento caribenho de Magdalena, na Colômbia. "Ela me contava os fatos mais atrozes sem se comover, como se fosse uma coisa que acabasse de ver. Descobri que essa maneira imperturbável e essa riqueza de imagens era o que mais contribuía para a verossimilhança das suas histórias. Usando o mesmo método da minha avó, escrevi Cem Anos de Solidão", conta o próprio em entrevista ao escritor compatriota Plínio Apuleyo Mendoza, no livro-entrevista Cheiro de Goiaba (1982). Mas a descoberta da possibilidade como escritor veio somente com um tcheco, "que, em alemão, contava as coisas da mesma maneira" que a avó Tranquilina Iguarán Cotes. "Ao ver que Gregor Samsa podia acordar uma manhã transformado num gigantesco escaravelho, disse para mim mesmo: 'Eu não sabia que se podia fazer isso. Mas se é assim, escrever me interessa'". Dasso Saldívar, jornalista colombiano autor da mais completa biografia de Gabo, anota: "Sua pré-história (como escritor) é Zipaquirá, os quatro anos que passou no Liceu Nacional, onde contraiu o sarampo literário, leu obsessiva e ordenadamente e escreveu prosas e versos voluntariosos e miméticos. Já era um escritor brotando. O que Kafka fez foi reordenar seus passos no labirinto da literatura, clarear sua vocação, ajudando-o a encontrar o fio da meada da avó Tranquilina e da leitura de As Mil e uma Noites".
Para Eric Nepomuceno, um dos tradutores de Gabo no Brasil, sua grande marca é a estrutura narrativa e o vocabulário. "García Márquez é um artesão obcecado pela respiração do texto, que para ele é algo vivo, e pela palavra, que ele vai polindo. Muito mais do que esse 'blábláblá' de realismo mágico, ele revolucionou a literatura pela linguagem, que é muito oral, como os velhos contadores". Por muito tempo, a obra de Gabo ficou sufocada sob o guarda-chuva temático do "realismo mágico" - ou realismo maravilhoso, que rompe com a nossa concepção cartesiana do mundo e é, no texto, recebido sem estranhamento. "Quando chove flores amarelas por três dias, a única reação das pessoas é ver o trabalho que dava varrer todas aquelas flores da porta", lembra Ana Lúcia a passagem da morte de José Arcádio Buendía. Mas o "sufoco" veio pela confusão que passou a se fazer entre fantasia e imaginação, tomadas como sinônimos. Para Gabo, a diferença entre uma e outra "é a mesma que há entre um ser humano e um boneco de ventríloquo": a fantasia não tem nenhum compromisso com a realidade, ao passo que a imaginação é "apenas um instrumento de elaboração da realidade". E sua obra não tem nada de fantasiosa. Apenas a realidade é vista pelo filtro do inusitado, que responde a uma tradição popular oral latino-americana. Para Gabo, a história da América Latina é a história dos Buendía: uma soma de esforços e de dramas condenados de antemão à peste do esquecimento. Mas, como as borboletas amarelas de Mauricio Babilônia, a esperança e o maravilhoso sempre nos perseguem. E é dessa mesma forma que a literatura de Gabriel García Márquez deve seguir gerações futuras: com a magia e a doçura das insistentes borboletas amarelas.
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