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Vida & Arte

REMBRANDT

Ponta seca e água forte

Eleuda de Carvalho
da Redação

O Espaço Cultural Unifor apresenta ao público, a partir de amanhã, a exposição Rembrandt e a arte da gravura, que reúne 90 trabalhos nesta técnica em que o artista holandês foi mestre insuperável. A exposição, aberta hoje (apenas para convidados), fica em cartaz até três de junho. Oficinas de gravura serão oferecidas durante o período


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08/03/2007 02:09

Auto retrato de Rembrandt, de 1639, quando ele tinha 33 anos
Auto retrato de Rembrandt, de 1639, quando ele tinha 33 anos

Os traços realistas fazem o espectador quase ver, e não somente imaginar, o movimento desta gravura intitulada O Moinho, datada de 1641. Outra impecável gravura, em que se alternam riscos negros fulgurantes com delicados cortes mínimos, retrata uma cena bíblica: O sacrifício de Abraão. O artista foi seu próprio modelo para este Auto-retrato, apoiado num muro de pedra, em que o vemos como ele se viu no vigor dos 33 anos. O cenário pastoril das terras tomadas ao mar se apresenta aos olhos de hoje como figurou à pupila de Rembrandt em 1652, nesta Paisagem com um rebanho de carneiros. Exatas 90 gravuras do mestre holandês, águas-fortes pertencentes ao acervo do Museu Casa de Rembrandt, em Amsterdã, estarão à disposição do visitante na mostra Rembrandt e a arte da gravura, promovida pela Fundação Edson Queiroz e Universidade de Fortaleza - Unifor. A abertura, hoje à noite, é exclusiva para convidados. A partir de amanhã e até três de junho, pode ser visitada gratuitamente no Espaço Cultural Unifor. Além das gravuras, a exposição conta com duas de suas raras matrizes.

A exposição, segundo pensou o curador, o holandês Pieter Tjabbes, é didática, incluindo várias fases do artista - que também foi exímio pintor. "Para Rembrandt, a gravura era muito importante. Tanto que, até o século XIX, ele era muito mais conhecido mundialmente como gravador. Rembrandt era um exemplo a ser seguido. Fez da técnica da água-forte uma forma de expressão artística maravilhosa, com a vantagem de ser reproduzida", disse Tjabbes. Rembrandt Harmenszoon van Rijn nasceu em 1606, em Leiden, na Holanda, um dos dez filhos (ou sete, ou nove, de acordo com outras fontes) de uma família modesta. O pai era moleiro, e a mãe, filha de um padeiro da aldeia. Criança, estudou latim e ingressou na universidade de Leiden com apenas 14 anos. Mas, mais que os estudos filosóficos, ele se dedicaria à arte. Aos 20 anos, muda-se para Amsterdã. Sua genialidade já era patente e diversos jovens aprendizes queriam trabalhar em seu ateliê, para aprender o segredo de sua técnica.

Casou-se com a filha de seu agente, um bem situado homem de negócios. Rembrandt e Saskia mudaram-se para o quarteirão judeu da cidade. Os vizinhos serviram de modelo para suas gravuras e óleos enfocando cenas do Velho Testamento. Dos filhos que teve com Saskia só o terceiro sobreviveu, Titus. Saskia morre logo depois do nascimento dele, tuberculosa. Mas, ainda casado, Rembrandt se envolveu com a empregada da família, Hendrickje (excomungada pela igreja protestante, por "viver em pecado" com o artista). Com ela teve uma filha, Cornélia. Mais para o final da vida, Rembrandt empobreceu. Não recebia mais convites da nobreza e teve que vender o que tinha, seus trabalhos, as matrizes de suas gravuras, a própria casa e até mesmo a máquina de impressão. Para sobreviver, Hendrickje e o enteado Titus abriram uma loja de arte. Rembrandt morreu em 1669 e foi enterrado numa cova anônima, na cidade de Amsterdã.

A técnica da água-forte, na qual Rembrandt foi insuperável, desenvolveu-se na Península Ibérica sob domínio muçulmano, cerca de três séculos antes do nascimento do mestre holandês. Criada por armeiros árabes, como decoração para espadas e outras armas de lâmina, além das próprias armaduras e elmos, trata-se de "desenhar" numa chapa de cobre, banhada com um verniz feito de piche, resina e cera, que é imersa em ácido nítrico. Dependendo do tempo de exposição da matriz, os sulcos vão ficando mais profundos ou sutis. Para gravar o desenho, o artista utiliza um buril, instrumento em forma de vê, para traços mais finos e delicados, ou a ponta-seca, espécie de agulha afiada, própria para trabalhar sobre metal. Esta era especialmente do gosto de Rembrandt: a rebarba levantada pela ponta-seca cria um certo enrugamento na superfície da matriz, que cria efeitos tridimensionais quando a gravura é impressa sobre o papel japonês, o mais utilizado por Rembrandt.

O Espaço Cultural Unifor, em seus quase 20 anos de existência, já acolheu importantes mostras de artistas brasileiros, como Raimundo Cela; de arte sacra (com peças do acervo do Museu D. José), e de mestres internacionais, como a exposição anterior, Mirabolante Miró, com gravuras do mestre catalão. Cenografia, música ambiente com canções holandesas, monitores, vídeos sobre o artista, além de catálogo, folders e um quiosque temático ampliam as informações para o público. Durante o período da exposição, serão oferecidas oficinas de gravura em metal, utilizando as mesmas técnicas de Rembrandt.


SERVIÇO
Rembrandt e a arte da gravura - Abertura hoje, às 20h, apenas para convidados. Visitação aberta ao público, de 9 de março a 3 de junho. No Espaço Cultural Unifor (segundo piso do prédio da reitoria), de terça a domingo, de 10h às 20h. Agendamento de visitas para grupos e/ou escolas, e demais informações: 3477 3319 ou pelo e-mail espacocultural@unifor.br. Grátis.


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