Roberto Galvão
Especial para o Vida & Arte
O artista plástico e mestre em História Social, Roberto Galvão, aponta as tendências da arte contemporânea com mudanças que incluem artistas e público. Ele aponta ainda para a universalização desse debate
07/03/2007 00:01

Atualmente, ressurge um debate sobre a importância das escolas na formação dos artistas. Para ser um profissional das artes não se necessita nada. O artista pode ser alguém sem estudos específicos. Ninguém necessita de licença para fazer arte. Todavia isto não quer dizer que não seja útil estudar para ser artista, assim como para compreender e apreciar as obras de arte. Óbvio que o estudo é útil, sim.
A questão já clássica, creio, vem à tona em virtude de um aparente descompasso entre o que as escolas tradicionalmente ensinam e o que os artistas estão apresentando nas exposições ditas de arte contemporânea. As obras não refletem os valores de senso comum do que seja arte. E muitos são os artistas que consideram, serem os cursos, mais barreiras que aliados a quem pretende se introduzir no mundo artístico.
Um outro dilema é também a falta de sintonia do que os artistas estão apresentando com os usos que o público faz tradicionalmente dos objetos artísticos. Como utilizar o resultado de uma performance na ambientação de uma residência? E qual o possível uso decorativo de uma instalação?
O panorama, entretanto, apresenta sinais de mudança. Percebem-se mudanças no ensino das artes, na formação dos artistas, nas exposições, no entendimento do que seja arte, no gosto do público e no próprio consumo dos objetos artísticos.
Será que se pode entender hoje a formação de um artista sem um mínimo de conhecimentos de sociologia, antropologia e filosofia, além da já tradicional e inquestionável necessidade do conhecimento da história, para que ele possa compreender melhor a sua inserção na sociedade onde atua e melhor contextualizar a sua produção? E será lógico um artista que atua no tempo atual abrir mão dos processos gráficos ou de recolhimento de imagens que nos disponibiliza a informática? As respostas serão claramente negativas.
O certo é que as abordagens dos problemas estéticos estão mudando. O uso de materiais e suportes está sofrendo flexibilização. Os artistas utilizam as mais variadas tecnologias na elaboração de suas propostas: das mais tradicionais às mais extravagantes e inusitadas. A inovação e a experimentação de meios é geral. Essa é a lógica que faz a arte contemporânea. E o entendimento da arte e a relação do público com o objeto artístico já não são as mesmas de algum tempo atrás.
O próprio consumo dos objetos artísticos, que nos últimos 500 anos era algo quase individual, volta a ser mais social. As obras não têm mais lugar apenas nas paredes das residências. Parece até que os artistas priorizam realizar trabalhos destinados a lugares públicos: as dimensões e cuidados que necessitam perecem sinalizar que são feitas para praças ou museus.
No mercado, os grandes compradores já não são os diretores das empresas. São as empresas. Os grandes colecionadores são as corporações: Coca-Cola, Telefônica, Bancos, Universidades e, claro, instituições públicas, para abastecer seus centros culturais cada vez mais numerosos e extraordinariamente visitados. Isso sinaliza que o consumo das obras de arte agora se satisfaz no nível da fruição.
Nas relações profissionais dos artistas também ocorrem mudanças profundas. Os artistas posicionam-se no mercado oferecendo, além de suas criações, sua capacidade e criatividade na solução de problemas não apenas estéticos. Nesse sentido recuperam uma posição social que tinham no Renascimento. E, no âmbito comercial, implantam-se também novas posições nas relações de compra e venda. Já se reconhece a existência de três tipos ou níveis de "aquisição" das criações artísticas: no primeiro, a venda das idéias, opiniões e pareceres, como consultores; um segundo tipo seria o financiamento para a realização de um projeto, onde o patrocinador obtém ganhos por aliar o seu nome ou marca à realização do artista; o terceiro é a aquisição da obra com direito de obter ganhos com sua exposição, remontagem ou reprodução.
Esses sintomas que podem ser percebidos em Fortaleza, puderam ser observados de forma clara na ARCO, feira de arte contemporânea que tivemos oportunidade de comparecer de 15 a 19 de fevereiro, em Madri, com a participação de mais de 250 galerias de todo o mundo, entre as quais 13 do Brasil.
Roberto Galvão é artista plástico e historiador