Natália Paiva
da Redação
A arte da dramaturgia tem em março o seu mês. No próximo dia 27, comemora-se o Dia Mundial do Teatro. A data impulsionou uma intensa programação voltada para as artes cênicas do Estado. O Vida & Arte Cultura seguiu a mesma trilha e foi atrás de saber como anda a cena teatral cearense
03/03/2007 14:17

Seria possível definir o que é teatro? Um espaço, um homem, um dilema; um tablado, um feixe de luz, um figurino; representação, distanciamento, espetáculo. Ah, teatro não se define. Teatro se sente, se respira, se vive. Fim do mês, próximo dia 27, comemora-se o Dia Mundial do Teatro. Em Fortaleza, será possível sentir, respirar e viver teatro por meio de uma série de atividades articuladas por alguns equipamentos culturais da cidade e programadas para este mês de março. No Centro Cultural Banco do Nordeste, acontece o I Festival BNB das Artes Cênicas; o Mês do Teatro e do Circo ocorre no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura; as aulas-espetáculo do Seminário Voz e Movimento acontecem às terças-feiras, na sede do Serviço Social do Comércio (Sesc); ainda estão programadas aulas-espetáculo no Curso de Arte Dramática da Universidade Federal do Ceará (CAD, dias 5 e 26); e, por fim, as leituras dramáticas do Pausa Dramática (dias 28 e 29), no Centro Dragão do Mar. Aproveita-se a efeméride para, além de assistir a uma infinidade de espetáculos e participar de oficinas e de leituras dramáticas, promover uma reflexão sobre o teatro cearense, este inserido no plano maior do teatro nordestino.
Em entrevista conjunta a O POVO, três atuantes nomes da cena cearense - o diretor da Comédia Cearense, Haroldo Serra, a atriz e diretora teatral Ceronha Pontes, da Tear Cia. de Teatro, e o ator e dramaturgo Rafael Oliveira, do Grupo Bagaceira - avaliam a atual conjuntura como positiva. Superou-se a crise de choro pela falta de espaço e de formação; as pessoas que fazem teatro, agora, tendem a trabalhar mesmo sob dificuldades. Produz-se, apesar. Daí a avaliação do teatrólogo Ricardo Guilherme, do Teatro Radical, de que "o teatro em Fortaleza chega ao século XXI com núcleos de criação que por suas específicas linhas de trabalho vêm consolidando identidades temáticas, estéticas e metodológicas". É uma diversidade só. E a Comédia Cearense, o Grupo Bagaceira, a Tear Cia. de Teatro e o Teatro Radical são exemplos ilustrativos dessa pluralidade, que se potencializa no olhar sobre os diversos outros grupos e artistas que aparecem e constroem a atual cena. Para a diretora de teatro e professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade de Fortaleza (Unifor), Rejane Reinaldo, o atual momento do teatro cearense é conseqüência direta da mudança substancial que houve na cena cultural de Fortaleza nos anos 1990, com a criação dos colégios do extinto Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura. "Estamos ainda num tempo de colheita. Basta contabilizar quantos grupos surgiram, quantos atores, atrizes e técnicos despontaram". Hoje, os espaços de formação têm, como principais expoentes, o CAD, o curso de Artes Cênicas do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) e o Curso Princípios Básicos do Teatro.
Para o pernambucano Romildo Moreira, ator, autor e diretor de teatro, "o teatro cearense sempre deu uma boa contribuição ao movimento teatral, com espetáculos que fizeram parte dos principais festivais do país, em especial os festivais da Confederação Nacional de Teatro Amador". Nomes como B. de Paiva, Oswald Barroso, Ricardo Guilherme, Haroldo Serra, Arthur Guedes, Rogério Mesquita, Yuri Yamamoto reforçam a tese de que "em todas as gerações, o teatro cearense tem bons representantes de sua produção, na dramaturgia, na encenação e na interpretação". Com o olhar de fora e de longe, Kil Abreu, crítico de teatro da revista especializada Bravo!, jurado do último Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga e curador do próximo Festival Recife do Teatro Nacional, aponta a dramaturgia e a interpretação como dois pontos altos do teatro atual cearense e nordestino. No primeiro ponto, destaque para os cearenses Gero Camilo, Marcos Barbosa e Emmanuel Nogueira; no outro, Silvero Pereira e Ceronha Pontes, que participaram do festival de Guaramiranga.
Mas, claro, nem tudo são flores. Traçar um painel do teatro produzido e pensado hoje no Nordeste - e no Ceará -, para Romildo, é trabalhar com duas esferas distintas: o ideal e o possível. Para o teatrólogo, é comum encontrar grupos ou artistas independentes que planejam, estudam e tentam uma produção artisticamente arrojada, antenada com as reflexões do teatro contemporâneo mundo afora, mas que, quando esta finalmente consegue ser finalizada, tantas concessões tiveram de ser feitas, que o inicialmente ideal transformou-se em algo "muito menor, culturalmente falando". As dificuldades são da ordem de recursos materiais, recursos humanos e espaços cênicos. "Acredito que, entre tantas inquietações que permeiam a produção das artes cênicas no Nordeste, ainda é a falta de circulação dos espetáculos o que empobrece os nossos esforços", afirma. Somente para depois completar: "Raramente as políticas públicas ultrapassam as leis de incentivo". Os festivais e as mostras, portanto, são estratégicos para que essas produções circulem e para que diversos públicos passem a conhecer o que é produzido em outros espaços. Agora, chega de leitura. Hoje tem espetáculo.